Publicado em Deixe um comentário

Entrevista com Jade Gandra Martins, autora de Tempo de guerrilha

Entrevista concedida a Jaci Dutra

Alfa Omega: É um romance histórico com uma história de amor. Como você conseguiu casar os dois assuntos e não se perder em chavões?
Jade Gandra Martins: O livro narra a história de Charllote e Vinícius, durante o período conturbado pré-João Goulart e durante a ascensão e auge da ditadura militar. Transformam-se em guerrilheiros urbanos e lutam almejando um país melhor. Não quis criar um romance apenas relatando fatos históricos. Tinha de haver mais na caracterização das personagens, e haver um pano de fundo paralelo à política. Quis mostrar os conflitos, pois os guerrilheiros tinham também uma vida pessoal que ficaria para trás na hora de empunhar suas bandeiras, uma vida de casamento, filhos, passear na praia, mas o coletivo prevalece. E isso lhes custa sua história de amor.

Alfa Omega: Qual a base do livro, de onde surgem os outros assuntos?
Jade Gandra Martins: O pano de fundo é o seqüestro do embaixador americano no Brasil, táticas de guerrilha, comunidade hippie, drogas, liberação sexual.

Alfa Omega: Existe, talvez, um público-alvo que você pretenda atingir?
Jade Gandra Martins: É um livro destinado principalmente a pessoas que gostam de romances históricos e que pretendem aprender e conhecer um pouco mais sobre este período. O objetivo é criar uma consciência crítica em relação àquela época.

Alfa Omega: Poderemos dizer então que este livro não é descompromissado com o esclarecimento, meio que didático, do leitor?
Jade Gandra Martins: Há um direcionamento, neste sentido, principalmente ao pessoal de minha geração, que não viveu aqueles tempos e que poderá se interessar ao perceber que eu me interessei. Há o retrato de estudantes, história de amor, conflitos com os pais. No fundo, na realidade do jovem brasileiro, tudo isso não mudou. E no contexto social do Brasil há tantas coisas que também não mudaram. Votamos. Há democracia. Mas a ditadura dos ricos sobre os pobres ainda existe. Há liberdade de expressão, mas um povo faminto só expressa dor. Quero tentar criar um cordão para que meus companheiros de geração possam pintar a cara para sair às ruas e empunhar uma bandeira. E não sair por aí queimando índio e matando mendigo, e mudar a posição de ficar olhando apenas o próprio umbigo, com sonhos consumistas e vidas superficiais.

Alfa Omega: Como você teceria uma comparação entre aqueles jovens dos anos rebeldes e os jovens de hoje?
Jade Gandra Martins: Estes tempos não são mais tempos de guerrilha. A abertura democrática nos proporcionou o direito de ir e vir, de gritarmos nossas idéias políticas e culturais, de construirmos uma imprensa livre, de colocarmos no poder aqueles que nossas ideologias mandam e até de tirarmos aqueles que não possuem nenhuma. Aqueles meninos dos anos rebeldes queriam lutar por um ideal. Isso foi perdido. Temos o péssimo hábito de não possuirmos memória. Este livro quer ser ao menos o resgate de todo aquele tempo.

Alfa Omega: O livro O que é isso, companheiro?, o filme homônimo de Bruno Barreto e o seu Tempo de guerrilha têm uma ligação. Como você insere o seu livro entre as duas obras?
Jade Gandra Martins: O que é isso, companheiro? é a tradução dos anos 60 feita por alguém que esteve inserido na luta armada; o filme traz em imagens o que as letras de Gabeira construíram. Eu tentei criar uma tradução disso tudo, do ponto de vista de quem não participou.

Alfa Omega: Inevitavelmente, irão aparecer comparações entre o seu livro e o de Gabeira. O que você acha primordial na diferenciação de ambos?
Jade Gandra Martins: O livro de Gabeira é feito por quem esteve ali, na luta. Eu criei um romance histórico. Os personagens que se mesclam com a história têm vida própria que eu criei. O livro nasceu da mistura dos fatos históricos com a ficção. O fato histórico não está ali nu e cru. Está envolto em uma série de situações humanas, como o amor, o conflito entre pais e filhos, as dúvidas e sonhos daqueles jovens. Há cenas que eu criei como a da que Charllote olha seu vestido de noiva, que nunca iria usar, e se pergunta se não é hora de parar. De viver uma vida comum. É uma cena de uma grande introspecção desta personagem, que escolhe o caminho da luta e sabe, no fundo, que irá guardar para sempre o seu vestido. Eu trato os problemas da época mas crio situações, lugares, crio inquietações nos personagens, crio dúvidas. Mas acho que a diferença primordial está no fato de que eu não vivi aquele tempo. Sou a geração seguinte. Meu livro não é o relato do vivido, é o meu retrato de apreensão da história.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *