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Entrevista com Ernesto Araújo, autor de Xarab Fica

Alfa Omega: Do mesmo modo que seu primeiro romance, A porta de Mogar, também este segundo passa-se em um país imaginário. Desta vez trata-se de Xarab. Pode falar um pouco sobre esse lugar?
Ernesto Araújo: Para mim é um pouco difícil falar de Xarab assim, de fora, porque só conheço Xarab de dentro. É como se me pedissem para falar do Brasil em poucas palavras: que poderia dizer sem cair no óbvio? Que é um país grande, verde, complexo? Tudo isso seria frio e sem vida. Só os países estrangeiros são realmente países: para cada pessoa, o seu próprio país não é um país, mas sim uma experiência, uma percepção íntima. Os outros países são por acaso, são relativos, enquanto o nosso é necessário e absoluto. O livro, aliás, é um pouco sobre isso, sobre essa especificidade da Pátria. Direi que Xarab é uma cidade irrequieta à beira de um golfo, a memória de uma guerra perdida, a consciência de ter algo a defender, algum segredo que o resto do mundo desconhece. Xarab é um povo que deseja transcender a verdade. Xarab é uma rainha cansada que sente aproximar-se o fim e escolhe uma sucessora, uma moça que tentará provar que é digna do reinado. Xarab é a dúvida sobre si mesmo unida à vontade de perseverar.

Alfa Omega: Parece que você está falando de uma pessoa…
Ernesto Araújo: É verdade. De certa forma, Xarab não é simplesmente o lugar em que se passa o enredo, mas o próprio personagem central do livro. Há vários personagens importantes, uma meia dúzia deles, mas nenhum ocupa o lugar central. Isso é anátema em termos de técnica literária, mas quando vi o livro já estava assim.

Alfa Omega: É justamente curioso notar que vários desses personagens importantes, talvez a maioria, sejam mulheres. Em seu livro, mulheres aparentemente frágeis de repente aparecem comandando navios e brandindo espadas. Isso não é um pouco inverossímil?
Ernesto Araújo: Talvez seja inverossímil aqui, mas não em Xarab. Lá, parece que é normal. Em todo caso, gosto de associar o princípio feminino à função guerreira, já que vejo a guerra como criação, e não como destruição puramente. Além do mais, para mim a verossimilhança não é um critério importante para julgar o texto literário. O cuidado com a verossimilhança já teve sua época em literatura, mas agora chega. Parece-me que um romance deve causar alguma estranheza no leitor do contrário é melhor ficar lendo jornal.

Alfa Omega: Mas voltando aos seus personagens. Você os descreve muito pouco. Não sabemos se são gordos ou magros, altos ou baixos… Mas também no plano psicológico praticamente não há descrição dos personagens. Isso não complica a vida do leitor?
Ernesto Araújo: Acho que as características de cada um se depreendem do contexto, do modo como se comportam, das coisas que dizem. Gosto de ver meus personagens falando e se mexendo. Gosto de vivê-los, não gosto muito de analisá-los. Deixo que eles se analisem uns aos outros, ou que os leitores analisem. Não quero ser guia turístico do leitor, ficar explicando e comentando tudo. Prefiro deixar que o leitor caminhe solto pela cidade, até mesmo que se perca nas ruas estreitas, para que encontre sozinho os ângulos que lhe possam parecer mais interessantes.

Alfa Omega: E por que essa sua predileção por lugares imaginários?
Ernesto Araújo: Sinto-me mais à vontade em lugares imaginários do que neste nosso mundo já excessivamente explorado, esquadrinhado, conhecido. Acho meio sufocante pensar que vivemos numa terra que já não oferece surpresas e onde está proibido buscar aventuras. Inventar países é a minha maneira de abrir uma janela e respirar um pouco. Além disso, parece-me perfeitamente natural que obras de ficção possam inventar países, da mesma forma que inventam pessoas.”

Alfa Omega: Você não teme com isso distanciar-se do tempo presente, das realidades que preocupam as pessoas? Viver na famosa torre de marfim…?
Ernesto Araújo: O que eu acho é o seguinte:a literatura, a arte em geral, tem uma missão. Essa missão é manter o contato do ser humano com o outro lado. A ameaça de perdermos esse contato me preocupa. Talvez preocupe também a outras pessoas. Então, não acho que eu viva na torre de marfim, ao contrário, tenho a pretensão de imaginar que vivo na beira de uma batalha, que vivo na trincheira lamacenta de uma luta feroz, uma luta contra algo que não sei bem o que é. Talvez eu, como qualquer pessoa, esteja na verdade dos dois lados da luta, porque nada é assim tão simples. Este meu romance é, de certa forma, exatamente sobre isso, sobre o combate entre opostos que se interpenetram, mas ao mesmo tempo sobre a necessidade do combate.

Alfa Omega: Mas o fato de viver longe do Brasil e de seus problemas, de viver na Bélgica, um país sem pobreza, isso de algum modo afeta a sua produção?
Ernesto Araújo: Mais ou menos. A Bélgica, como a Europa inteira, tem um problema seriíssimo de pobreza, só que é pobreza de espírito. Essa pobreza de espírito me incomoda e me agride todos os dias. Mas não é só a Europa. Penso que no mundo de hoje, nada de muito grande ou importante está em jogo. Por isso nada é muito intenso, nada apaixona, e assim as pessoas se apequenam. De certo modo é sobre isso, ou contra isso, que escrevo.

Quanto ao Brasil, acho que não devemos nos limitar. No caso da literatura, não vejo por que os grandes temas da origem e do destino da humanidade devam ser monopólio dos escritores de países desenvolvidos, enquanto os brasileiros só podem escrever sobre acarajé. Aliás, hoje os próprios europeus só escrevem sobre os seus respectivos acarajés. Estão deixando morrer o fogo sagrado da literatura de criação. Eles têm um medo enorme de criar, têm pavor do desconhecido, quando na verdade o desconhecido é a única fonte de vida. Alguém precisa manter aberta essa fonte.


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