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Entrevista com Paula Loureiro da Cruz , autora de Alexandra Kollontai – Feminismo e Socialismo

Entrevista concedida a Antônio do Amaral Rocha

Alfa Omega: Profa. Paula, para introduzirmos questões sobre a atuação da feminista Alexandra Kollontai, nos tempos da revolução russa, seria interessante que a senhora discorresse sobre como se encontra a situação da mulher no estágio atual.
Paula Loureiro da Cruz: Com a entrada da mulher no mercado de trabalho e as conquistas efetuadas na esfera legislativa, tais como igualdade de direitos assegurada pela Constituição, direito ao voto, licença-maternidade, licença para amamentação, entre outras, pode-se dizer que as mulheres conquistaram a sua emancipação. Todavia, não conseguiram atingir a tão sonhada libertação, pois remanescem diversos elementos que a mantém em situação de opressão na sociedade contemporânea.

Alfa Omega: Sabemos que a afirmação da mulher como um ser humano com os mesmos direitos dos homens é uma batalha que tem demandado esforços de pensadoras e pensadoras em diversas áreas de atuação. Alessandra Kollontai foi a primeira pensadora de peso a sistematizar essas reinvidicações? Ou a sua atuação foi fruto de uma evolução? Pode-se traçar um paralelo com outras atuações de peso acontecido antes dela?
Paula Loureiro da Cruz: Alexandra Kollontai destaca-se como uma das principais autoras pioneiras do feminismo marxista, ao lado de Rosa Luxemburgo e Clara Zétkin. Seu pensamento aprofunda as considerações efetuadas por Engels, na obra A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Sua notoriedade é vista com a inovadora análise marxista sobre a “moral sexual”.

Alfa Omega: As reinvidicações de Alexandra Kollontai, na época da revolução russa, se deram radicalizando o papel da mulher, a ponto de lutar para que a criação dos filhos e os trabalhos domésticos fossem um problema do Estado. Tais formulações de difícil realização na prática, como se sabe, não teve boa acolhida no âmbito do governo Lênin, provocando até dificuldades no relacionamento entre ambos. Se levado a cabo tais reinvidicações como isso se daria na prática?
Paula Loureiro da Cruz: Tanto Kollontai, como Lênin, eram favoráveis à socialização dos serviços domésticos. Não houve controvérsia entre ambos quanto a esse aspecto. A divergência instaurada entre Lênin e Kollontai diz respeito à forma como se daria a transferência do poder para as mãos da massa operária. A discussão travada entre ambos teve como cerne principal o papel que os sindicatos deveriam desempenhar durante o regime de transição socialista. A socialização dos serviços domésticos é, sem dúvida, um grande avanço, pois a eliminação da divisão de tarefas é um dos elementos capazes de pôr fim às questões de gênero. Na sociedade contemporânea, nada impede que sejam levadas a efeito pelo Estado, num primeiro momento, mediante recursos públicos e privados. Por exemplo, empresas privadas ou órgãos públicos poderiam contribuir com a manutenção de creches e lavanderias para suas funcionárias..

Alfa Omega: Alexandra Kollontai, no seu tempo, foi a mulher que ficou conhecida no mundo por ser a primeira mulher na história contemporânea a ocupar o cargo de Embaixadora em diversos países, a ocupar cargo pertencente ao alto escalão do governo presidido por Lênin durante o regime de transição socialista na Rússia, e a ser nomeada Ministra Plenipotenciária na Noruega. Numa época em que às mulheres esse tipo de protagonismo era algo impensável, como se explica o fato de ela ter conseguido chegar tão longe?
Paula Loureiro da Cruz: Alexandra Kollontai foi uma mulher essencialmente apaixonada pela causa socialista, como ela própria reconhece em sua autobiografia. Seu amor pelo marxismo, seu espírito crítico e sua coragem, além de seu carisma, foram fundamentais na protagonização dessa história.

Alfa Omega: O que se pode dizer quanto à atualidade das teses de Alexandra Kollontai defendidas há mais de cem anos, sendo que hoje ainda hoje perduram na sociedade contemporânea situações tão graves quanto na sua época com relação ao tema exploração da mulher? Existiria condições de retomar seu pensamento para buscar soluções que hoje ainda persistem?
Paula Loureiro da Cruz: A atualidade de Alexandra Kollontai é indiscutível, pois que cuidou, à sua época, há mais de cem anos, de situações que perduram na sociedade contemporânea, seja com maior, seja com menor tempero. Retomar seu pensamento significará trazer para a atualidade soluções que estão adormecidas e de extrema importância não só para a superação da questão da mulher que ainda persiste, mas também voltadas a minimizar as graves distorções sociais brasileiras. Em Kollontai, a questão da mulher não é um dado apenas cultural-político, que pode ser ajustado por intermédio de alterações legislativas, ou seja, do direito; há questões de ordem econômica capitalista que coloca a mulher em situação de inferioridade em relação aos homens. Kollontai reconhece a insuficiência do estabelecimento de igualdade de direitos, entre homens e mulheres, para superação da questão feminina. Para a autora, somente a transformação das bases econômicas com a instituição do comunismo e a eliminação dos parâmetros éticos que regem a moral capitalista, mediante a instituição de novos parâmetros voltados ao interesse da coletividade, terão o condão de eliminar a exploração e opressão suportadas pelas mulheres. São ensinamentos que devem ser trazidos à tona dos debates.

Alfa Omega: Sabe-se que a atuação de Alexandra Kollontai quanto aos problemas específicos da mulher seu deu no nível da superação dos costumes arraigados na sociedade, como o casamento, criação dos filhos, relações amorosas, trabalhos no lar etc. E não sendo ela uma jurista, como fazer uma aproximação entre estas reinvidicações e incorporação de suas teses junto à ciência do Direito?
Paula Loureiro da Cruz: Embora não fosse jurista de formação, Alexandra Kollontai redigiu inúmeras leis e decretos enquanto esteve à frente do Comissariado do Povo do Bem Estar Social. Embora reconheça a insuficiência do direito para superação da opressão da mulher, Kollontai utilizou-se de mecanismos legais durante o regime de transição, a fim de minimizar a condição de opressão feminina. A utilização de mecanismos do Direito, como são as “discriminações positivas”, é válida em dias atuais para minimização da opressão. Todavia, não se pode perder de vista que reformas no campo legislativo não são suficientes para propiciar a tão sonhada libertação feminina.

Alfa Omega: Qual é a relação que se pode inferir entre a situação da mulher no tempo de Kollontai e na atualidade, considerando-se as bases econômicas da sociedade? As teses de Kollontai só poderiam ser aplicadas numa sociedade comunista, ou teriam aplicações na sociedade capitalista, que como se sabe não foi ainda superada?
Paula Loureiro da Cruz: É bom esclarecer que Kollontai não chegou a viver o comunismo, mas tão-somente o regime de transição socialista. Suas teses, sem dúvida, têm aplicação na sociedade capitalista. Ao pretender caminhar para o estabelecimento de uma sociedade igualitária, a humanidade não terá como se furtar do pensamento de Alexandra Kollontai, desenvolvido sobre os parâmetros éticos da solidariedade e da camaradagem. Para Kollontai, o amor será o culto futuro da humanidade. É preciso, desde já, desenvolvermos nosso potencial de amor, no caminho voltado à eliminação do paradigma individualista que rege a sociedade capitalista.


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