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Entrevista com Jacob Bazarian, autor de Crítica da concepção teológica do mundo

Alfa Omega: O senhor poderia nos dizer como nascem as superstições?
Jacob Bazarian: É evidente que essas crenças só nascem devido à ignorância das causas reais e naturais dos fenômenos.
O homem chamado primitivo, isto é, iletrado e inculto, sem espírito científico, por ignorar as causas reais e naturais dos fenômenos, atribuía as causas dos fenômenos a objetos que teriam um poder mágico dentro de si (fetiches) ou à vontade de entidades sobrenaturais (deuses, santos, etc.).
O homem em geral, tanto o primitivo como o civilizado, aprende por reflexo condicionado. Quando a um fenômeno F1 segue um fenômeno F2, ele tende a considerar o primeiro como causa e o segundo como efeito. Por exemplo: Ele passa debaixo de uma escada e caí um tijolo em sua cabeça. Conclusão: passar debaixo de escada é perigoso. Esse homem deixa de passar debaixo da escada, mesmo que não tenha ninguém trabalhando na escada. Outro exemplo: Ao andar pela rua, um gato preto cruza-lhe o caminho. Nesse dia ele teve azar nos negócios. Conclusão: Gato preto cruzando o caminho da gente dá azar e deve-se contorna-lo. Como se vê nesses exemplos, os fenômenos estão relacionados de modo fortuito, casual, isto é, não há nenhuma relação causal entre um fenômeno e outro. É uma questão de puro acaso, sorte ou azar.

Alfa Omega: Mas, professor, apesar de as superstições, como o senhor diz, não serem confirmadas pela prática, por que subsistem em tão grande escala?
Jacob Bazarian: Acontece que a maioria das pessoas não tem espírito científico, que consiste em aceitar uma coisa como verdadeira só depois de comprovada pela prática social. A prova é o único critério da verdade de um juízo ou de uma tese. O espírito científico é muito recente na história da civilização. Basta lembrar que a história do homem contemporâneo tem cerca de um milhão de anos, começando com o aparecimento do Pitecantropo Erecto – chamado Homo Sapiens Primitivo. E o espírito científico apareceu só há uns 400 anos atrás, com a criação das primeiras ciências, a Astronomia e a Física, com Giordano Bruno, Kepler, Galileu Galilei, etc. E, posteriormente, com a criação de outras ciências, tais como: Química, Biologia e, atualmente, Antropologia, Sociologia e outras ciências.

Alfa Omega: Mas, professor, se o espírito científico já tem 4 séculos, como o senhor explica que há tanta superstição no mundo atual? Outro fato relacionado com isso: segundo certos cientistas sociais, a superstição aumentou, justamente, nos países mais desenvolvidos econômica e culturalmente?
Jacob Bazarian: Em primeiro lugar, é só uma minoria bem reduzida que alcançou o espírito científico, a maioria conservando-se no estado pré-científico.
Em segundo lugar, uma pessoa pode ter espírito científico no domínio de sua especialidade, mas não aborda com o mesmo rigor científico os fenômenos em outros domínios.
Por exemplo: Freud, pai da Psicanálise, é um gênio no domínio da Psicologia profunda, mas ignora a perspectiva sociológica necessária para explicação da gênese de certas neuroses e psicoses, que têm essência estritamente social e não individual e sexual como ele pretende. Outro erro grave dele foi querer explicar a mentalidade religiosa por fatores sexuais.
Outro exemplo: Einstein, pai da Teoria da Relatividade, é um gênio na Física, mas comete muitos erros quando faz excursões em domínios desconhecidos por ele, como em filosofia por exemplo.
Quanto à segunda parte da pergunta, isto é, o fato de haver um recrudescimento e difusão da superstição justamente nos países mais adiantados, isso pode ser explicado a meu ver, do seguinte modo: na sociedade complexa dos países superdesenvolvidos, econômica e culturalmente, as relações humanas se tornaram muito complexas, as ciências se tornaram muito sofisticadas, de tal modo que o homem comum, dessas grandes civilizações, não chega a compreender essa complexidade e se encontra na mesma posição de perplexidade e ignorância do homem inculto numa sociedade subdesenvolvida culturalmente. Assim, afim de alcançar um certo equilíbrio emocional e intelectual, ele procura nas religiões, no misticismo e nas diversas crenças supersticiosas, uma explicação das coisas e do mundo como um todo que, para ele, não passa de um caos.
É por isso que nós vemos nos países tão adiantados, como Estados Unidos, Inglaterra, França, um reflorescimento de doutrinas místicas e supersticiosas, tais como espiritismo, magia branca, magia negra, feitiçaria, bruxaria, demonologia, discomania, contatos com seres de outros mundos, astrologia, quiromancia, cartomancia, vidência com bola de cristal, etc., etc.

Alfa Omega: Prof. Jacob, as crenças supersticiosas têm aspectos positivos ou são inteiramente negativos?
Jacob Bazarian: A superstição tem aspectos negativos e positivos.
O aspecto negativo consiste em que a superstição dá ao indivíduo uma visão deformada, fantástica, falsa da realidade, isto é, das causas reais e naturais dos fenômenos.
Nesse sentido as superstições atrapalham mais do que ajudam a obter êxito nas ações humanas. Não é armado de crenças supersticiosas que se pode vencer na vida, mas sim, armado de conhecimentos científicos.
Mas, as superstições também tem aspectos positivos. O indivíduo que vive num mundo que para ele parece caótico, onde ele não entende nada, nem a causa e origem das coisas, nem seu sentido ou finalidade, ele sente-se totalmente perdido e desorientado. Para evitar a alienação mental e a desintegração social, ele precisa readquirir o equilíbrio emocional e mental. Nesse plano, os diversos tipos de superstições, as crenças religiosas, as diferentes doutrinas místicas, espiritualistas e esotéricas, lhe dão uma explicação sejam fictícias e estejam longe de serem científicas, mesmo assim elas contribuem para a consecução do equilíbrio procurado e necessário para sua sobrevivência, como ser social ajustado. Pois o homem é um ser que indaga e não pode viver sem achar a resposta, ainda que essa resposta não lhe pareça totalmente satisfatória. O homem comum prefere uma explicação verossímil ou ilusória a nenhuma.

Alfa Omega: É possível e conveniente superar as superstições, e como pode ser feito isso?
Jacob Bazarian: Não há dúvida que a superação das superstições só pode ser benéfica ao indivíduo e à sociedade em que ele vive, pois não é com superstições que se pode vencer na vida pessoal e contribuir para o progresso da sociedade.
Para conseguir superar as superstições só há um caminho: cultivar e aprimorar o espírito científico, procurando explicações científicas em seu domínio de atividade e, na medida do possível, nos demais domínios.
E, como já disse, a explicação científica consiste em encontrar a causa real e natural de um fenômeno.
Para saber se um fato é a causa real e natural de um fenômeno só há um caminho: a prova, a comprovação, a verificação pela prática social e pela demonstração lógica.
Assim, o divisor das águas entre a ciência e a crença supersticiosa é o fato comprovado.
O problema da superstição no Brasil:
Do que acima foi dito, podemos chegar à conclusão de que o Brasil, como outros países subdesenvolvidos, desenvolvidos ou superdesenvolvidos culturalmente, tem também suas crenças supersticiosas. Muitas delas comuns aos outros povos e outras próprias do nosso povo. Entre as superstições próprias do nosso povo podemos enumerar aquelas que são divulgadas pelas diversas seitas religiosas do cristianismo, do espiritismo, da umbanda, do quimbanda, tais como a crença no anjo, no diabo, no saci-pererê, na mula-sem-cabeça, na pomba-gira, etc., etc.
É interessante anotar que, devido ao nosso atraso cultural e científico, existe uma série de crenças supersticiosas sobre alimentos e ervas, que não são compartilhadas por outros povos e nem confirmadas pela prática.
Por exemplo: Muita gente pensa que faz mal à saúde comer manga ou abacaxi com leite, pepino com coalhada (que aliás, é um prato predileto dos árabes) e muitas outras baboseiras.
Como já dissemos, à medida que o espírito científico vai sendo divulgado entre as diversas camadas da população, as crenças supersticiosas vão sendo, paulatinamente, substituídas por conhecimentos científicos.
Se nós queremos um Brasil desenvolvido cultural e economicamente, ocupando seu devido lugar no concerto das grandes nações, precisamos tomar sérias medidas para a difusão dos conhecimentos científicos, através de todos os meios de comunicação, tais como rádio, televisão, jornais, revistas e livros de divulgação científica. Pois não é com superstições que se constroem estações hidroelétricas, se aumentam a produção agrícola e industrial e se fazem as grandes nações.


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