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Entrevista com Ernesto Araújo, autor de Quatro 3

Alfa Omega: Como você definiria o livro Quatro 3? Trata-se de um romance?
Ernesto Araújo: Não exatamente. É um conjunto de textos que exploram uma certa temática, mas sem intenção de sistematicidade. Não quis construir uma história, mas sim produzir um ambiente. Poderia comparar Quatro 3 a uma cidade que surgiu da união de um conjunto de vilarejos e cidades menores, sem planejamento urbano.

Alfa Omega: Qual é a temática que você aborda?
Ernesto Araújo: Antes de mais nada, aquilo que o escritor francês Philippe Muray chama a recusa de negatividade. A idéia de que um mundo de paz e cooperação é a maior das maravilhas. A perda da liberdade de pensar e agir que decorre da universalização de um certo tipo de democracia. Tento opor-me a tudo isso e afirmar um pouco a negação, defender a possibilidade de ser contra. Porque a humanidade nasce e cresce na contradição e no confronto: confronto com a natureza, confronto entre povos e classes, confronto entre espírito e matéria, confronto do homem consigo mesmo, desafio à realidade. Hoje somos cada vez menos capazes de vivenciar o confronto, e assim vamo-nos desumanizando.

Alfa Omega: Seu livro também fala muito de deus.
Ernesto Araújo: Sim. Outro ponto que procuro trabalhar é a idéia da fragilidade de deus. Acho necessário contestar a concepção de deus como administrador do universo, e propor aquela de deus como prisioneiro desse mesmo universo. Precisamos resgatar a visão gnóstica do “deus que sofre”, e esquecer a figura do deus-juiz, do legislador cósmico vigiando e punindo.

Alfa Omega: Seu livro mais de uma vez critica a “social-democracia planetária”. Você se coloca entre os opositores da globalização?
Ernesto Araújo: Sim e não. Penso que a globalização econômica é capaz de eliminar a pobreza e o sofrimento de muita gente. Já a globalização cultural e estética é uma praga, que vai rapidamente destruindo as possibilidades humanas. De repente todos os sentimentos e valores e sonhos de nossas vidas têm que ser traduzidos para inglês de internet. Isso estrangula o indivíduo.

Alfa Omega: Esse individualismo não seria uma visão um pouco ultrapassada, na era da “formulação dos novos coletivos”?
Ernesto Araújo: Tudo o que é relevante é individual. Mas dá trabalho ser indivíduo, afastar-se do fogo da tribo e entrar sozinho no mato, para conversar com os espíritos. Muito mais cômodo é o uga-buga coletivo. A formulação de novos coletivos é a formulação de novos uga-bugas. Deixe-me dar um exemplo. Veja a origem da escrita. Hoje admite-se amplamente que a escrita surgiu para registrar pequenas transações comerciais, o número de ovelhas de cada proprietário, a quantidade de trigo armazenada em cada aldeia. Ou seja, a escrita começou como instrumento de reprodução da realidade. Muito cedo, porém, começou-se a usar a escrita para criar aventuras de deuses e heróis, ou seja, para ultrapassar a realidade e negá-la, para explorar o ser por trás do ente. O momento fundamental é esse, em que a escrita se emancipa da realidade e, ao mesmo tempo, em que o escritor, nosso proto-escritor sumeriano, se emancipa da sociedade. Porque a palavra oral é essencialmente coletiva, existe no diálogo entre pessoas, mas a palavra escrita é individual. A escrita permite ao indivíduo falar diante do vazio, um vazio que se povoará de outros indivíduos.

Alfa Omega: Voltemos a Quatro 3. Trata-se então de um livro de idéias?
Ernesto Araújo: Quatro 3 é, espero, um livro com algumas idéias, mas de nenhuma forma um livro argumentativo. Quando nele falo da sociedade, do Estado, não o faço de uma perspectiva sociológica ou política, mas literária. Não podemos esquecer a autonomia do texto literário, do modo de ser literário, frente a quaisquer disciplinas estabelecidas ou tipos de discurso. A literatura vai onde as outras não vão. Onde não vai a filosofia, nem a antropologia, nem a teologia. Mais do que isso, a literatura é autônoma frente às próprias idéias do autor. Não escrevo para apresentar as idéias que eu possa ter. Escrevo para ser quem sou, e ao mesmo tempo para tentar ir além do que sou. Quatro 3 se nutre de preocupações que tenho com o andar do mundo, mas meu propósito é simplesmente a expressão, não a discussão racional dessas preocupações. Há pouco falamos da social-democracia, por exemplo: sou contra a social-democracia não por convicções políticas, mas por percepção existencial.

Alfa Omega: Você várias vezes diz o que o seu livro não é. Por que essa tendência a definir-se por oposição?
Ernesto Araújo: Talvez porque este livro não se encaixe em gêneros e modelos, de modo que sou forçado a defini-lo dizendo que não é romance, não é ensaio, não é uma coleção de contos, mas de textos que não são nem propriamente independentes, nem interligados. Já usei a imagem de uma cidade formada por várias pequenas cidades. Posso comparar este livro também a um galpão de trabalho, cheio de ferramentas e aparelhos que não se sabe para o que servem, quadros inacabados em cavaletes, um sofá onde se empilham livros, uma mesa com uma jarra de limonada. Certamente não é uma casa bem-decorada e funcional. Acho que a ficção precisa de caos. De caos e liberdade.

Alfa Omega: Por que o título Quatro 3?
Ernesto Araújo: Várias explicações são possíveis, e prefiro deixar que o leitor formule a sua. Vou apenas sugerir uma interpretação: o título representa a interação dialética entre a matéria, simbolizada pelo número quatro, e o espírito, simbolizado pelo 3.

Alfa Omega: Este é seu terceiro livro em três anos. Você publicou A porta de Mogar em 1998 e Xarab fica, em 1999. Qual a relação entre esses trabalhos?
Ernesto Araújo: Do ponto de vista da estrutura são, acredito, três livros muito diferentes. A porta de Mogar é uma narrativa circular, sem linha temporal definida, unificada em torno de um personagem (se bem que tenho certa resistência a chamar meu velho amigo Keniv de personagem). Já Xarab fica segue uma linha temporal, mas não tem personagem central. Quatro 3 é um sistema de textos assistemático, onde procurei dar a mim mesmo todo o tipo de liberdade formal. Penso, assim, que são três livros alheios a muitas convenções literárias que predominam hoje em dia. É preciso lembrar que um texto literário fala não somente através de palavras, mas também através de sua estrutura. Hoje muitos escritores não utilizam a estrutura como recurso expressivo. Um romance passado na Islândia medieval e outro na Angola contemporânea, se tiverem a mesma estrutura, acabam ficando muito parecidos. Meus livros tentam não só escapar aos códigos literários, mas também escapar uns aos outros. Tento não repetir fórmulas.

Alfa Omega: No entanto, há entre eles certa unidade estilística.
Ernesto Araújo: É possível. Octavio Paz dizia que o escritor deve tomar o maior cuidado para não adquirir um estilo. Ou seja, para não automatizar uma maneira de escrever, em que o texto começa a escrever-se sozinho. Não é que não se deva ter estilo, mas o estilo deve vir de dentro. Isso é um grande desafio, porque não basta um esforço consciente, é preciso um empenho de todo o ser, inclusive do inconsciente.

Alfa Omega: Mas a atemporalidade e a localização em um espaço imaginário são elementos comuns aos três livros.
Ernesto Araújo: Sim, penso que esse é o principal aspecto que têm em comum. Se é para lutar contra a realidade, prefiro lutar no meu campo e com minhas próprias regras. Evasão? De certa forma, mas evasão é também desafio e confronto. Assim, meus três livros optam pela geografia imaginária. Contudo, nos dois primeiros há maior “estabilidade espacial”: os fatos se passam em determinados lugares. Em Quatro 3, existe, por um lado, um certo diálogo entre a geografia real e a imaginária, e, por outro, uma espécie de vazio espacial, onde imagino possa surgir algum desejo de transcendência.


Livros do autor publicados pela editora Alfa Omega

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