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Entrevista com João Carlos de Medeiros Ferraz, autor de O Manual da Crise

Entrevista concedida a Antônio do Amaral Rocha

Alfa Omega: O senhor poderia explicar o subtítulo do seu livro “Em linguagem financeira para não-financistas?
João Carlos de Medeiros Ferraz: A minha motivação para escrever esse livro se deveu em muito ao grande número de consultas que eu recebia de amigos e pessoas do meu relacionamento, pessoal ou profissional, destinadas ao esclarecimento de dúvidas que essas pessoas tinham a respeito da crise financeira e que, em outubro de 2008, ocupava todos os veículos da mídia. Essas pessoas buscavam explicações sobre o que de fato estava acontecendo, mas em uma linguagem menos técnica e mais simples, para que elas pudessem compreender melhor a situação geral do problema e tirar suas próprias conclusões. Desta forma, eu procurei abordar no livro as questões relacionadas à crise, mas utilizando uma linguagem o menos técnica possível, para descomplicar o tema, de forma que todos os leitores interessados pudessem compreender melhor um assunto que afeta a todos, principalmente os leigos em finanças.

Alfa Omega: Como já foi amplamente divulgado, a crise financeira atual é resultado do fim da “bolha” imobiliária nos Estados Unidos e que gerou graves consequências de liquidez no sistema financeiro. Primeiramente no próprio mercado norte-americano e, a seguir, pela forte integração desse mercado com o resto do mundo, em todo o sistema financeiro mundial, num processo de rápida expansão como nunca antes visto na história econômica. Mas qual é a verdadeira origem dessa crise? Como surgiu esse problema de “bolha” imobiliária nos Estados Unidos?
João Carlos de Medeiros Ferraz: Na verdade, o “estouro” da bolha foi a consequência, ou melhor, o “estopim” que detonou todo o processo da crise de liquidez. Como todos sabemos, um estopim aceso, sozinho, não causa grandes problemas, a menos que ele esteja associado a um explosivo. A magnitude e resultados do “estouro” irão depender muito mais da quantidade armazenada do explosivo do que do estopim. Assim, da mesma forma, as reais causas da crise se iniciaram muitos anos antes do estouro da bolha em 2008 e foram ocasionadas por dois fatores principais. O primeiro foi a adoção, a partir do ano 2000, de uma política de juros baixíssimos (menos de 1% aa) praticada por um período muito longo (quase 5 anos) pelo banco central norte-americano (FED). Essa política trouxe enormes danos ao cenário econômico e financeiro mundial e criou um ambiente favorável ao surgimento de instrumentos de investimentos financeiros não tradicionais e de alto risco, já que investidores em geral (pessoas físicas e empresas) não conseguiam mais obter rendimentos satisfatórios para suas aplicações. O segundo fator que potencializou os efeitos da crise foi a absoluta falta de regulamentação e controle das autoridades financeiras e monetárias dos países mais ricos (em especial dos Estados Unidos) para fiscalizar o mercado e evitar a proliferação desses instrumentos de risco que, com o estouro da “bolha” em 2005 e 2006, gerou uma enorme quantidade de inadimplências dos financiamentos imobiliários e prejuízos cada vez maiores para as instituições financeiras e para os investidores que aplicaram seus recursos nesse mercado, como alternativas aos investimentos tradicionais que, por conta do primeiro fator, não geravam rendimentos financeiros para seus aplicadores. Essa situação culminou com prejuízos incalculáveis para os bancos e instituições financeiras que participavam desse mercado de financiamento imobiliário, deixando-os insolventes e provocando um efeito em cascata em outras instituições que, de alguma forma, estavam ligadas às primeiras, com perdas em seus balanços, queda das bolsas de valores e retração geral da economia mundial

Alfa Omega: Não há qualquer dúvida de que a política de juros baixos adotada por período tão longo pelo FED foi a grande causa dos problemas gerais que impactaram a economia mundial. Essa política era totalmente inevitável?
João Carlos de Medeiros Ferraz: Essa pergunta é interessante e certamente gera, ainda hoje, dúvidas entre os especialistas. A meu ver, a resposta é sim, ela era até certo ponto evitável. A queda de juros praticados nos Estados Unidos, iniciada em 1999, não foi algo que foi gerado pelo FED ou que dependeu de ações praticadas pelo governo norte-americano. Essa queda foi de fato uma consequência de um movimento de entrada de recursos financeiros gerados em outras economias (principalmente asiáticas) e que buscavam aplicações rentáveis e seguras. Fruto do aumento de oferta desses recursos, o FED não necessitava oferecer taxas de juros elevadas para financiar a dívida norte-americana e, desta forma, os juros caíram. Mas a questão não foi a queda de juros em si, mas sim a manutenção dessa política de juros baixíssimos (menos de 1% aa) por um período de tempo tão longo e utilizada como suporte para o aumento da atividade econômica daquele país. E a modificação dessa gestão monetária estava ao pleno alcance do FED, mas ele decidiu mantê-la.

Alfa Omega: Sem dúvida que o estouro da chamada “bolha imobiliária” norte-americana foi, se não o estopim do processo da crise financeira, pelo menos a pólvora que possibilitou essa explosão. No entanto, muitos argumentam que essa não foi a causa fundamental, mas sim o meio pelo qual a crise se implantou e permeou por todo o mercado financeiro. Se não fosse através desse problema, mais cedo ou mais tarde a crise teria surgido através de outro veículo. Qual então seria a causa fundamental da crise? Qual o verdadeiro “culpado” ou o grande “marco zero” para o surgimento da crise?
João Carlos de Medeiros Ferraz: Como explicado anteriormente, o verdadeiro “culpado” foi a adoção, por um período de tempo tão longo, de uma política quase suicida de juros muito baixos. A verdadeira causa foi essa e sua consequência imediata foi a busca por investimentos e aplicações financeiras que pudessem gerar rendimentos mais próximos das necessidades e dos padrões dos aplicadores. Se os instrumentos de investimentos financeiros não tradicionais e de alto risco, mas com boas ofertas de rendimentos, não tivessem surgido no mercado de financiamento imobiliário, certamente eles iriam surgir de outras formas ou em outros nichos e setores. O que havia por trás de tudo era a enorme demanda por aplicações financeiras que rendessem a seus aplicadores valores mais razoáveis e próximos às suas necessidades e padrões de referência.

Alfa Omega: Quais foram e serão os impactos da crise no Brasil apesar de não termos um mercado “regulado” pelas hipotecas como nos Estados Unidos?
João Carlos de Medeiros Ferraz: A consequência imediata para o Brasil decorrente da crise internacional, ainda em outubro de 2008, foi um enorme aperto de liquidez e redução da oferta de dinheiro para financiamento da economia. Apesar de não haver crise de sub-prime no Brasil, o mundo globalizado e integrado em que vivemos faz com que ninguém fique absolutamente imune a crises tão profundas em mercados tão importantes como o norte-americano e o europeu. Logo no primeiro momento, principalmente em função da desconfiança generalizada entre as instituições do mercado financeiro, as linhas de crédito disponíveis foram praticamente zeradas. Decorrente da retração econômica mundial, os preços relativos dos produtos e serviços caíram e encomendas foram canceladas. Bolsas de valores e de mercadorias despencaram e investidores estrangeiros retiram-se do país. Isso tudo afetou fortemente a geração de caixa e a liquidez das empresas, pessoas e organizações em geral. Mas em termos de regulação, existe uma questão muito relevante e que diferencia o Brasil de outros mercados. Uma das causas da crise estava relacionada à absoluta falta de regulação e controle das autoridades financeiras e monetárias dos Estados Unidos sobre o mercado norte-americano. De forma oposta, o mercado brasileiro sempre foi muito regulado e controlado – alguns críticos diziam que ele era excessivamente regulado – e isso acabou gerando um efeito extremamente benéfico para reduzir os impactos imediatos da crise internacional sobre a economia brasileira.

Alfa Omega: De que forma?
João Carlos de Medeiros Ferraz: De várias formas. Por exemplo, a economia brasileira sempre operou com um nível extremamente elevado e regulado dos depósitos compulsórios aplicados aos bancos comerciais. Enquanto o Brasil operava até recentemente com um nível médio do compulsório de 53%, esse valor não ultrapassava a 10% em economias mais estáveis. Esse fator, em princípio danoso ao desenvolvimento da economia brasileira, acabou servindo como um instrumento que foi rápida e habilmente utilizado pelo Banco Central brasileiro, logo no início da crise, como forma de injetar liquidez no sistema, a baixo custo. É importante ressaltar que a crise em si não é decorrente de problemas estruturais de falta de fundamentos econômicos gerais em todas as economias mundiais. Na verdade, ela é fruto de uma associação de erros ocorridos no passado, relacionados à qualidade da gestão econômica e de falta de regulação e controle, principalmente na economia norte-americana, e de problemas que ocorrem na atualidade, ligados a uma profunda falta de confiança geral dos agentes econômicos. Até que seja possível reconquistar essa confiança, e fazer com que a percepção desses agentes volte a ser positiva, condição básica para a geração de crescimento, a ação das autoridades econômicas de cada país deverá focar principalmente no fornecimento de meios para que a “máquina” da economia continue funcionando de forma saudável, mesmo que minimamente.

Alfa Omega: Decorrente da crise financeira internacional, as projeções de crescimento mundial foram todas revistas por praticamente a totalidade dos analistas de mercado. Mais uma vez, existe uma convergência dos principais analistas internacionais em apontar um cenário recessivo nos países desenvolvidos, porém um impacto menos contundente nos países emergentes, onde a crise deverá gerar uma redução nas taxas de crescimento desses países (retração econômica), mas não uma recessão. Que papéis poderão desempenhar os emergentes no contexto da crise?
João Carlos de Medeiros Ferraz: Nos últimos anos, diversos e importantes países emergentes vêm desenvolvendo uma série de programas visando ao seu crescimento e à organização de suas economias. Além de apresentarem-se de forma muito mais robusta do que há 5 ou 10 anos atrás, com suas economias internas mais fortes e organizadas, esses países passaram a ter um peso muito maior no PIB mundial. A participação desse bloco de emergentes nas exportações mundiais pulou de 36% em 2000 para 45% em 2007. Ao mesmo tempo, eles passaram a ganhar maior importância no comércio internacional, também como importadores: em 2000, 40% do comércio mundial tinha os países emergentes como destino, sendo que essa participação passou para 50% em 2007. Especificamente em relação ao Brasil, em 1990 apenas 30% das nossas exportações destinavam-se a países emergentes e em 2004 as exportações brasileiras para países emergentes estavam praticamente empatadas com aquelas que tinham países desenvolvidos como seus destinos. Desta forma, considerando que os emergentes foram menos severamente impactados pela crise internacional e que hoje eles desempenham um peso muito maior na geração da riqueza mundial, é razoável concluir-se que a crise poderia ter consequências muito mais severas para o mundo – talvez piores até que a depressão de 1930 – sem o papel que os países emergentes hoje exercem. A atividade econômica, ainda positiva apesar de bem menor, que deverá ser observada nos emergentes nos primeiros meses da crise é que poderá reduzir o impacto da própria crise na economia global. Ou seja, as economias emergentes poderão funcionar como “âncora” contra o processo recessivo e como elemento de aceleração do processo de retomada do crescimento mundial.

Alfa Omega: E quais as atitudes que o governo brasileiro deveria tomar para conseguir amainar os efeitos da crise?
João Carlos de Medeiros Ferraz: A primeira atitude, mais urgente e imediata, até que foi adequadamente tomada pelas autoridades brasileiras: a adoção de mecanismos para redução da drástica redução da liquidez da economia. Entendo que, não fosse a pronta ação, principalmente do BACEN, em outubro e novembro do ano passado, quando a economia brasileira praticamente secou a sua liquidez por pelo menos 2 a 3 semanas, estaríamos vivendo hoje um cenário muito pior do que na verdade nos encontramos. Mas essas ações serviram para evitar que o “doente” falecesse, mas certamente não serão suficientes para atuar nas causas de suas doenças e, definitivamente, curá-lo. Como disse anteriormente, essa crise não decorre da falta de fundamentos econômicos, mas está muito mais relacionada à falta de confiança geral entre todos os agentes econômicos. É absolutamente sem sentido, apesar de assistirmos algumas pessoas afirmarem isso quase diariamente, alguém imaginar que a economia cresce em função dos resultados já ocorridos ou de fatos já acontecidos. O mercado sempre se antecipa aos fatos e se move em função de as expectativas, positivas ou negativas, da média dos agentes. Nesse sentido, o governo deveria adotar continuamente ações no sentido de devolver e consolidar esse sentimento de confiança entre todos aqueles que compõem a sociedade brasileira produtiva. Nessa linha, não existe mais qualquer espaço ou justificativa para a manutenção da política de juros elevados praticada pelo BACEN. Aparentemente, o Banco Central já iniciou a reversão dessa política, mas certamente existe espaço para reduções ainda maiores e mais drásticas. Pelo menos uma coisa a crise trouxe de bom, ela simplesmente desintegrou qualquer justificativa que ainda era usada pelo BACEN para manter os juros brasileiros nos níveis mais altos do planeta.

Alfa Omega: No contexto da crise quais seriam as condições gerais para o crescimento sustentável dos países emergentes?
João Carlos de Medeiros Ferraz: A crise ainda está em seu início, mas certamente ela irá terminar. O dinheiro disponível para investimentos e aplicações não desapareceu, mas simplesmente tornou-se mais restrito e com uma aversão ao risco muito maior. Apesar de atualmente haver uma enorme retração de demanda, o mundo ainda irá requerer bens e serviços como antes, mais cedo ou mais tarde. Quando essa demanda voltar a ser realidade, o mundo investidor se voltará para aquelas localidades onde eles encontrem uma associação entre disponibilidade de recursos (principalmente recursos naturais), facilidades de operação e riscos reduzidos. Não há dúvidas que esses recursos que serão novamente demandados pelo mundo em geral estão localizados nos países emergentes. E aqueles que melhores condições oferecerem, que estiverem melhor estruturados, que apresentarem menores riscos, irão mais rapidamente atrair os investimentos e retomar seus ritmos originais de crescimento, de forma sustentável.

Alfa Omega: No Brasil já se sente os efeitos da crise com demissões de trabalhadores, apesar de se dizer que estaríamos imunes às consequências mais pesadas do problema. Há um ponto que poderia se destacar como responsável por essa contaminação na produção industrial e nos mercados financeiros brasileiros?
João Carlos de Medeiros Ferraz: Numa crise dessas proporções, não existe ninguém imune. Existem sim determinados países, localidades e setores da economia menos afetados, mas não imunes à crise. No Brasil, os setores mais afetados serão aqueles que dependem mais fortemente das exportações para outros países, principalmente os industrializados ou para aqueles emergentes com economias menos estruturadas. Da mesma forma, países menos dependentes de suas exportações e que possuem forte economia interna, serão menos afetados, mas nunca imunes. Especificamente em relação ao Brasil, realmente existiu um fator muito negativo relacionando o mercado financeiro e o mercado dito produtivo e que serviu para aumentar ainda mais os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira. Logo nos primeiros momentos após o estouro da crise internacional, observou-se no Brasil um comportamento no mercado de câmbio muito maior do que seria esperado somente pela fuga de capitais dos mercados financeiros. Esses efeitos, extremamente danosos para toda a economia do país e que poderia ter consequências ainda mais severas, foram em muito agravados pela forte especulação que inúmeros agentes econômicos, principalmente empresas não financeiras, realizavam no mercado financeiro de derivativos em dólar. Entendo que tal atitude, de especular, ou permitir a especulação, com o caixa e as operações financeiras das organizações certamente não combina com o comportamento eficiente que se espera dos gestores financeiros das empresas. Esse episódio deveria servir para a reflexão de todos os gestores financeiros das organizações a respeito do correto desempenho de suas funções, que deveria ser sempre pautado no seu comportamento permanentemente ético e focado exclusivamente na liquidez e proteção do caixa de suas organizações.

Alfa Omega: Estas crises cíclicas do modelo capitalista sinalizam uma lição? Quais seriam as reformas moralizadoras para o sistema? Há alguma garantia de que crises dessa dimensão não venham novamente ocorrer?
João Carlos de Medeiros Ferraz: Mesmo contrariando diversos arautos do apocalipse e que apregoam o fim dos tempos e dos modelos econômicos vigentes, pessoalmente entendo que a atual crise financeira internacional não é uma crise do capitalismo. Trata-se, sem dúvida, de uma gravíssima crise financeira, cujas reais consequências ainda estamos por ver, mas provocada muito mais por um completo colapso dos sistemas regulatórios do que pelos fundamentos econômicos. As lições principais para essa crise ainda deverão ser escritas, mas certamente elas incluirão a necessidade de uma atuação firme e contínua da sociedade, através de seus governos e autoridades financeiras e econômicas, sobre o mercado em geral. Pressupor que o mercado irá se auto-regular ou auto-inspecionar é tanta ou mais ingenuidade que prever o fim do modelo capitalista simplesmente por causa da própria crise.


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