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Entrevista com Roberto Robaina, autor de Marx e o núcleo racional da dialética de Hegel

Entrevista concedida a Antônio do Amaral Rocha

Alfa Omega: Defina, em linhas gerais, os pressupostos do livro Marx e o núcleo racional da dialética de Hegel.

Roberto Robaina: O livro trata da relação entre Hegel e Marx. Trabalha cada autor e sua ligação, centrando no tema da contradição. Busco desenvolver como Marx utilizou sua leitura da Lógica de Hegel em sua elaboração de O Capital. Neste sentido estabeleço o paralelo entre as categorias do ser e da mercadoria, mostrando o desenvolvimento destas categorias através do movimento de suas contradições internas. Mostro finalmente que a crise capitalista já pode ser visualizada na própria categoria da mercadoria.

Alfa Omega: Este seria um livro direcionado ao mundo acadêmico ou ao grande público?

Roberto Robaina: Ao público interessado em dialética, nos dois autores. Tanto na academia quanto fora dela há este interesse. Entre os militantes da esquerda, sobretudo os jovens, este interesse tende a crescer mais.

Alfa Omega: Como explicar conceitos filosóficos, de certa maneira, complicados, como o da contradição na filosofia de Hegel, por exemplo?

Roberto Robaina: É um problema sério. Hegel é um autor complexo, difícil. Mas não há saída: sua complexidade revela a complexidade do mundo. O esforço de encarar sua obra deve ser feito. Nós tentamos mais do que nada estimular este esforço.

Alfa Omega: Como se deu historicamente a aproximação entre Marx e Hegel? Marx era um leitor atento da Filosofia?

Roberto Robaina: Sim. Começou seus estudos pela filosofia. Foi hegeliano de esquerda. Quando jovem rompeu com a filosofia hegeliana, mas nunca deixou de reconhecer a genialidade de Hegel. Nunca deixou de reconhecer que Hegel influenciou toda sua obra. Não é à toa que o idealismo alemão é parte constitutiva do marxismo, uma das três fontes, junto com a economia política inglesa e o socialismo francês.

Alfa Omega: É correto afirmar que existe dois Marx, um ligado à filosofia e outro mais prático e científico que conseguiu sintetizar todas as relações humanas na obra O Capital?

Roberto Robaina: Não concordo. É lógico que Marx na sua juventude escreveu obras que ainda não tinham como base a estrutura científica de O Capital. Einstein fundou a teoria da relatividade com cerca de 25 anos. Marx não estabeleceu as bases científicas de uma compreensão do capitalismo tão cedo. Mas sua obra mais importante antes de escrever O Capital foi escrita com 29 anos, O Manifesto Comunista. Não creio que se possa dizer que o Manifesto e O Capital possam ser separados. Trata-se de uma evolução, não de uma ruptura.

Alfa Omega: Nesse caso, o que predomina? Marx filósofo ou Marx cientista? Em outras palavras, seria O Capital uma obra filosófica ou científica?

Roberto Robaina: As duas. A política revolucionária é uma condição da filosofia. Nisso sou seguidor de Alain Badiou. E O Capital não pode ser lido desconsiderando a luta entre as classes. Neste sentido tem um profundo sentido filosófico. Ao mesmo tempo estabelece as bases de uma explicação cientifica do modo de produção capitalista. Aliás, segundo Badiou, a ciência também é uma condição da filosofia.

Alfa Omega: A dupla Marx e Engels se transformaram em uma marca que define uma forma de pensamento que contribuiu para a evolução da humanidade, mas, ao mesmo tempo, aglutinou inúmeros inimigos. Nesse embate de pensamentos opostos (esquerda/direita) quem vence?

Roberto Robaina: A luta está em pleno curso. Se a esquerda não vencer a humanidade caminhará para a barbárie ou a extinção.

Alfa Omega: O senhor considera que este é um embate já encerrado? Ou que este confronto continua na ordem do dia?

Roberto Robaina: Está em pleno curso. A tendência é que aumente.

Alfa Omega: Se a obra de Hegel foi tão importante para Marx definir os seus pressupostos, porque hoje o que transparece é o debate entre os donos do capital (os proprietários) e os produtores do capital (os trabalhadores)? Existe mesmo este debate ou ele só se dá na esfera acadêmica?

Roberto Robaina: Eu mesmo sou expressão de que este debate não é apenas acadêmico. Embora formado em História e com mestrado em filosofia, não sou propriamente um acadêmico. Sou mais um militante político, aliás, com mais de 30 anos de atividade ininterrupta. E meu livro, voltando a pergunta “a quem é dirigido”, está sendo discutido por centenas de militantes no país todo.

Alfa Omega: As mais recentes crises do capitalismo, notadamente a de 2008, fez com que debate sobre o pensamento marxista voltasse com mais força. Qual o papel que joga a crise nestes embates?

Roberto Robaina: Antes da crise de 2008 os economistas burgueses estavam dizendo que os ciclos talvez tivessem terminado. Alguns reformistas os acompanhavam. Agora tudo isso desmoronou. Apenas a teoria de Keynes e a de Marx podem realmente contribuir para a compreensão da crise. Keynes trabalhou para ver as medidas necessárias de preservação do capitalismo, Marx para sua superação. As medidas keynesianas encontram cada vez mais limites. Sabemos que a crise de 1929 apenas com a grande guerra foi superada, na prática a aplicação do keynesianismo militar. Qual a saída desta crise atual? Ninguém sabe ainda. O certo é que Marx será fundamental para que os trabalhadores e jovens tenham instrumental conceitual capaz de compreender o nosso mundo. Do ponto de vista dos clássicos da economia, são os dois autores Marx e Keynes – que são realmente atuais.


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