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Entrevista com Vinícius Magalhães Pinheiro, autor do livro Filosofia em Direito de Galvano Della Volpe

Entrevista concedida a Antônio do Amaral Rocha

Alfa Omega: O que o levou a estudar Galvano Della Volpe?

Vinícius Magalhães Pinheiro: Della Volpe é um autor crucial na história do pensamento crítico do tipo marxista. Lançando um olhar sobre o marxismo jurídico brasileiro – e a surpreendente formação de uma verdadeira Escola Marxista do Direito Brasileiro em torno do professor Alysson Mascaro, da Faculdade de Direito da USP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie – percebi que Della Volpe, um grande teórico, não havia sido analisado nas perspectivas jurídicas. As polêmicas decorrentes de sua obra, por conta do seu anti-hegelianismo e do chamado “Debate italiano” pareceram-me campo fértil para pesquisa crítica do direito.

Alfa Omega: Quais são os desafios metodológicos que existem para se entender a leitura que Della Volpe empreendeu do pensamento de Hegel e Marx?

Vinícius Magalhães Pinheiro: São desafios enormes. Della Volpe promoveu leituras muito profundas de Hegel e Marx, subvertendo a forma tradicional de se pensar a relação entre os dois pensadores alemães. Resumidamente, os marxistas em geral atribuem as origens do pensamento marxiano a Hegel, por conta das críticas de Marx à filosofia hegeliana. Ainda, atribui-se a Feuerbach grande parte da formação das concepções teóricas de Marx, o que também é negado por Della Volpe. Para o filósofo italiano, Marx é legatário de Aristóteles e Galileu, e não de Hegel e Feuerbach. É uma tese metodológica muito peculiar.

Alfa Omega: O que o levou a estudar Galvano Della Volpe?

Vinícius Magalhães Pinheiro: Della Volpe é um autor crucial na história do pensamento crítico do tipo marxista. Lançando um olhar sobre o marxismo jurídico brasileiro – e a surpreendente formação de uma verdadeira Escola Marxista do Direito Brasileiro em torno do professor Alysson Mascaro, da Faculdade de Direito da USP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie – percebi que Della Volpe, um grande teórico, não havia sido analisado nas perspectivas jurídicas. As polêmicas decorrentes de sua obra, por conta do seu anti-hegelianismo e do chamado “Debate italiano” pareceram-me campo fértil para pesquisa crítica do direito.

Alfa Omega: Quais são os desafios metodológicos que existem para se entender a leitura que Della Volpe empreendeu do pensamento de Hegel e Marx?

Vinícius Magalhães Pinheiro: São desafios enormes. Della Volpe promoveu leituras muito profundas de Hegel e Marx, subvertendo a forma tradicional de se pensar a relação entre os dois pensadores alemães. Resumidamente, os marxistas em geral atribuem as origens do pensamento marxiano a Hegel, por conta das críticas de Marx à filosofia hegeliana. Ainda, atribui-se a Feuerbach grande parte da formação das concepções teóricas de Marx, o que também é negado por Della Volpe. Para o filósofo italiano, Marx é legatário de Aristóteles e Galileu, e não de Hegel e Feuerbach. É uma tese metodológica muito peculiar.

Alfa-Omega: Sabe-se que o Galvano Della Volpe da juventude não é o mesmo Galvano Della Volpe da  maturidade. Quais são as diferentes trajetórias do pensamento de Della Volpe?

Vinícius Magalhães Pinheiro: Essencialmente, as diferenças decorrem da adesão de Della Volpe ao marxismo em sua maturidade intelectual. Quando mais jovem, Della Volpe fora um historiador da filosofia, com estudos sobre filologia, positivismo, empirismo, estética, lógica, entre tantos outros. Na maturidade, Della Volpe desenvolveu ao máximo suas pesquisas marxistas, com estudos específicos sobre política e método.

Alfa Omega: Como se posicionava Della Volpe no período da ditadura fascista de Benito Mussolini?

Vinícius Magalhães Pinheiro: Della Volpe nunca aderiu formalmente à militância antifascista, todavia, espírito libertário que era, repudiou o regime autoritário de então. É de se ressaltar a truculência do regime fascista italiano e o contexto da Segunda Guerra Mundial, com as graves implicações de riscos à vida de todos que se opusessem ao regime político de então. Por fim, outra razão de sua não adesão à militância antifascista talvez tenha sido um traço característico da sua vida: a intensa e praticamente exclusiva dedicação à carreira acadêmica.

Alfa Omega: Della Volpe desenvolveu um método para interpretar e assimilar as teorias marxistas. De que constava especificamente tal método?

Vinícius Magalhães Pinheiro: Della Volpe, conforme mencionei, era anti-hegeliano, ou seja, segundo ele o pensamento de Marx era independente da filosofia de Hegel.  Ser anti-hegeliano implica, segundo Della Volpe, na aceitação de que a metodologia desenvolvida por Max, ou seja, sua dialética materialista, era-lhe exclusiva e não uma derivação ou um mero desdobramento da dialética idealista hegeliana. Ainda, a maior parte dos marxistas também aponta a herança de Feuerbach em Marx, o que Della Volpe também recusa. Trata-se de uma perspectiva muito peculiar dentro da tradição marxista, com paralelo considerável apenas em Althusser e sua escola, bem como no chamado austromarxismo. Assim, se a maior parte dos marxistas afirma ser Marx um herdeiro de Hegel e Feuerbach, para Della Volpe, de forma muito particular, Marx era herdeiro teórico de Aristóteles e Galileu! Percebam a ousadia dellavolpiana, o que procurarmos melhor desenvolver ao longo do livro.

Alfa Omega: Qual a importância do pensamento de Della Volpe, como crítico da cultura expresso em livros como O verossímil fílmico e outros estudos de estética?

Vinícius Magalhães Pinheiro: Por tais estudos, Della Volpe conseguiu promover uma aproximação entre marxismo e estética cheia de especificidades. Vale lembrar sempre a amplitude temática dellavolpiana em seus estudos e trabalhos. Trata-se de um filósofo completo, ou seja, um teórico hábil em todas as grandes disciplinas filosóficas, entre elas, estética. Ler Della Volpe é ter a segurança de ter contato com praticamente todas as principais temáticas da filosofia.

Alfa Omega: Quando e como se dá o interesse de Della Volpe especificamente sobre os estudos do Direito, po rque sabe-se que Della Volpe foi antes de tudo um filósofo?

Vinícius Magalhães Pinheiro: Rigorosamente, as questões jurídicas dellavolpianas são acessórias ao seu interesse pela política. Todavia, é possível extrair teoria jurídica do pensamento de Della Volpe a partir do contexto do chamado “Debate italiano”,durante a década de 50 e 60, conforme me referi há pouco. No livro, fica bastante clara a polêmica em torno da técnica jurídica enquanto mecanismo universal de qualquer sistema econômico, questão que até hoje suscita acalorados debates e é, ao meu ver, um dos pontos mais importantes da obra.

Alfa Omega: Della Volpe apesar de membro do Partido Comunista Italiano sempre foi mantido à margem das teses e decisões do partido. Por que isso se deu?

Vinícius Magalhães Pinheiro: Trata-se de uma questão bastante delicada. Della Volpe fora um intelectual bastante respeitado a sua época por seus intrincados desafios teóricos, sua sólida carreira universitária e sua constância nos debates públicos. Seu ingresso nos quadros do Partido Comunista Italiano (PCI) rendeu a este grande prestígio. Entretanto, é notório o compromisso democrático-liberal do PCI com o fim da Segunda Guerra Mundial. Do ponto de vista eleitoral, o PCI apresentara bom desempenho, conquistando várias cadeiras do poder legislativo italiano. Todavia, como se pode imaginar, o PCI possuía relações próximas com o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), cuja orientação política era fundamentalmente anti-liberal, contrária, portanto, aos caminhos adotados pelo PCI. E, entre o PCI e o PCUS, Della Volpe, numa leitura condensada, ideologicamente se sentia mais próximo aos soviéticos que aos seus próprios nacionais. Assim, Della Volpe acabou à margem da direção do partido.


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