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Entrevista com Langstain Almeida, autor de Romance de Combate – A Dominação do Terceiro Mundo

A dominação do Terceiro Mundo mergulha na essência da natureza humana. Analisa os sentimentos, o caráter, os interesses e a ideologia por trás do domínio político no mundo contemporâneo. Trata-se de romance de ficção política, de cunho autobiográfico. O autor esteve condenado à morte quando da sua prisão, logo após o golpe militar de 1964, e novamente em 1971.

A reportagem da Alfa Omega publica a entrevista com o escritor Langstain Almeida, levada a efeito às vésperas do lançamento do Romance de combate, A dominação do Terceiro Mundo. Num ambiente de descontração no qual os interlocutores sentaram-se a uma mesa simples com lastro de mármore, o diálogo teve início após uma rodada om cafezinho quente.

Alfa Omega: Por que o sintagma de combate adjetivando o vocábulo romance?
Langstain Almeida: A Dominação é um romance de combate porque se vale do teatro para esclarecer consciências. Alcançado este difícil porte de elevação política, tal obra busca a derrocada do modelo econômico implantado no Terceiro Mundo a partir da Segunda Guerra Mundial.

Alfa Omega: Qual o ambiente geográfico que oferece matéria-prima literária ao relacionamento dos personagens?
Langstain Almeida: A América Latina, parte da África Subsaariana, o Golfo Pérsico e os territórios do Sul da Ásia – instruíra o autor, prolongando-se: O material literário converge de várias partes do Terceiro Mundo.

Alfa Omega: Num espaço geoteatral tão extenso como os personagens se podem movimentar?
Langstain Almeida: Gabus é o personagem imaterial criado pelo pensamento humano para exercer o papel de olho do povo que inegavelmente engendra o poder da ubiqüidade. Onde vai se desenrolar ou está se desenrolando cenas teatrais que interessem ao esclarecimento político dos povos, Gabus está presente, vendo sem ser visto e ouvindo sem ser ouvido – explicou o escritor.

Alfa Omega: Qual o melhor flagrante gravado por Gabus concernente ao desmantelamento do modelo econômico imposto aos povos da metade sul do Planeta Terra?
Langstain Almeida: Alguns líderes, inclusive um americano e outro europeu, se encontraram em La Higuera para conspirar pela extinção da dominação econômica do hemisfério meridional. Neste palco de heróis, Gabus estava presente. La Higuera foi escolhida por ter sido a porção de terra onde os generais bolivianos a mando da Cia, assassinaram Che Guevara já em condição de prisioneiro – elucidara fitando alguns livros de sua biblioteca.

Alfa Omega: Em que outro palco de significação universal compareceu Gabus com seu poder etéreo?
Langstain Almeida: Gabus gravou todos os atos do Concílio de Cartagena onde seres imortais compareceram em busca de uma saída para a crise social em que vivem os povos da parte austral do Planeta. Nesta atmosfera sublimada, falaram, discursaram e debateram figuras do porte histórico de George Washington, Lênin, Mao Tsé-Tung, Marx, Simon Bolívar e os mais destacados guerrilheiros do Araguaia. Neste Concílio sui generis, a cena mais emocionante foi a participação da guerrilheira Dinalva Teixeira.

Alfa Omega: É possível sintetizar o núcleo da conjuração de La Higuera?
Langstain Almeida: Sim. Cada ato material necessita de um método para adquirir uma forma aceitável pelo poder crítico da sociedade. Um ato praticado sem método provoca o caos. O abalroamento entre dois carros é um ato sem método crítico. A fabricação de um automóvel obedece a um método preestabelecido. Fabricar uma panela de barro necessita de um método. Confeccionar um bolo de chocolate enseja a aplicação de um determinado método. Uma sociedade para realizar suas necessidades de consumo, necessita de um método ou modelo de produção posto em execução. O modelo que a partir do século XV, dele dispõe a sociedade é o modo de produção capitalista que obedece a fórmula DMD, dinheiro-mercadoria-dinheiro. O processo capitalista seria uma máquina produzindo os objetos que atendessem as necessidades das pessoas de uma determinada sociedade. Para que este processo não ficasse ao sabor do mais forte, a vontade política da sociedade criou o Estado que por sua vez criou o imposto sobre o valor das mercadorias. Neste instante, se nota que a sociedade dispõe do processo capitalista para resolver suas necessidades de consumo e do poder do Estado para realizar o bem-estar coletivo pelo investimento dos impostos. Vê-se que são duas entidades: uma que é o processo de produção criado pela necessidade imperiosa de sobrevivência e outra que é a instituição política artificialmente inventada pela inteligência social. Se este Estado foi criado pelos donos do processo capitalista, este Estado é elitista. Se este Estado foi criado pelo esforço coletivo e todo imposto arrecadado é empregado em favor do bem-estar social, este Estado é socialista. A fórmula DMD será sempre a mesma. A parte mutável é a vontade política que pode ser elitista ou socialista.

Alfa Omega: Por que a fórmula DMD elevou a padrão social dos povos do Norte do Planeta e rebaixou brutalmente o nível social dos povos do Sul deste mesmo Planeta?
Langstain Almeida: Anote-se o seguinte: o processo de produção imposto aos povos do Terceiro Mundo não é o capitalista subordinado a fórmula DMD. O processo de produção implantado na zona meridional do Planeta obedece à fórmula DMT, correspondente a dinheiro-mercadoria-transferência de renda para o exterior. No processo capitalista soberano o 2º D acrescido de valor, tem que voltar a ser o 1º D. Esta metamorfose do 2º D tornando a ser o 1º D da fórmula DMD, simboliza o lucro sendo novamente investido no mesmo processo de produção. Na fórmula DMT, o lucro não pertence ao mesmo processo de produção que ensejou este ganho. A mais-valia que as elites chamam de lucro é transferida para a matriz situada no lado setentrional do Planeta – concluiu o autor sua explicação.

Alfa Omega: Elabore um exemplo para entendimento a nível médio.
[Langstain levantou-se, cumprimentou um confrade de um órgão de imprensa da Paraíba, pediu que o mesmo se acomodasse à mesa e prosseguiu em sua interlocução]:
Langstain Almeida: Se Antero, por coação da máfia do remédio, é obrigado a transferir todo o lucro de sua empresa para o laboratório de Antão, no final de um determinado tempo, seu negócio estará totalmente quebrado levando sua família à miséria – explicou o autor, continuando: Se o bodegueiro da esquina transferir o lucro de sua mercearia para a botica da mulher da outra esquina, no transcurso de algum tempo, sua empresa estará incontroversamente falida e a mulher da esquina, com sua padaria lascivamente bem crescida! Este mesmo empobrecimento acontece com os países do Terceiro Mundo ao transferir mais-valia para as elites do Primeiro Mundo.

Alfa Omega: Quer dizer que os dois bilhões de famulinos do Terceiro Mundo são produtos do processo de produção elitista representado pela fórmula DMT!?
Langstain Almeida: Exatamente! Se a mais-valia que foi extraída pelo processo de produção não é reinvestida na expansão do mesmo negócio, este inevitavelmente entrará num estágio de estagnação e posterior deterioração, provocando o empobrecimento social. É o trabalho o único ente que produz riqueza que só cresce se houver o reinvestimento da mais-valia.

Alfa Omega: Finalmente, qual a pretensão convergente do romance de combate, A Dominação do Terceiro Mundo?
Langstain Almeida: Libertar o homem meridional da inocência política e por conseqüência desta magna aptidão, derrubar o processo de produção elitista subordinado à fórmula DMT e no vácuo deixado por este, inaugurar uma nova ordem econômica com sua infraestrutura capitalista divisionária soberana e sua superestrutura jurídico-política de essência socialista – consumou o autor o objetivo-síntese de sua obra.

Alfa Omega: Qual seu conceito sobre a crise ética vivida pelos poderes executivo e legislativo na área federal?
Langstain Almeida: O Poder Executivo e o Legislativo são a imagem e semelhança do colégio eleitoral nacional que os elegeu. A elite política a serviço caro das elites industrial e banqueiral, instituiu um órgão eletivo com materiais imprestáveis. Seria uma salada de frutas feita com laranja azeda. A raposice da elite política se resumiu na pretensão de manter o Estado brasileiro sobre o controle permanente das elites como realmente o mantêm desde a proclamação da República em 1889.

Alfa Omega: Mas onde estão as laranjas azedas do colégio eleitoral brasileiro?
Langstain Almeida: O colégio eleitoral nacional é composto de 78% de analfabetos funcionais. Como uma pessoa analfabeta pode se desincumbir da responsabilidade de decidir sobre o destino econômico e social de seu país? É mais difícil o eleitor decidir quem deve representá-lo no comando de seu país do que um magistrado deliberar qual das partes tem direito num litígio processual. O eleitor analfabeto seria um cego ensinando o caminho ao viajante. Seria um motorista com o encargo de conduzir uma jamanta à meia-noite com os faróis queimados! Sem compreender nada do que a televisão exibe e o rádio divulga, o eleitor que só sabe ferrar o nome, vende seu voto aos candidatos a cargos eletivos do país. Resultado: a eleição é um negócio e os eleitos precisam não só reaver como obter lucro pelo investimento que fizeram neste mercado de alto risco, dominado pelos candidatos financiados pelo caixa 2 dos trustes da produção e das finanças. O eleitor analfabeto sem saber mantém no poder os mandatários das elites que já produziram 80 milhões de miseráveis e continuam a produzir muito mais, até atingir nestes vinte anos a cifra haitiniana de 80% de miseráveis.

Alfa Omega: Este panelão eleitoral ainda se compõe de outros ingredientes! Pode citar mais algum?
Langstain Almeida: Para melhorar mais um pouco seu pirão eleitoral, a elite política ainda criou o voto criança ao conceder poder de decisão ao jovem de 16 anos. Como uma criança de 16 anos pode saber que no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto estão homiziados os elementos que proporcionam a espoliação das classes sociais de seu país e com mais intensidade a partir da ditadura militar de 1964!? Sem entender nada da raposice das elites, a criança termina votando nos candidatos mais simpáticos, mais elegantes e mais bonitos. Neste caso a eleição para esta gurizada se transforma numa passarela de top model e manequim bonitão.

Alfa Omega: Qual outro tempero as elites sabichonas colocaram no caldeirão da enganação eleitoral?
Langstain Almeida: Para garantir a compra do voto analfabeto e o engodo do voto da criança, as ladinas elites brasileiras criaram o voto obrigatório – ressaltou o escritor. – Todos são forçados a votar, até mesmo os que não tenham encontrado freguês para comprar seu voto. Vive-se num Estado democrático contraditório. Existe democracia econômica: os trustes podem com total liberdade escorchar o bolso dos brasileiros. Existe democracia financeira: os bancos podem com liberdade absoluta esfolar seus devedores. Existe liberdade corruptiva: os representantes dos analfabetos e das crianças podem se espojar nas cinzas da corrupção com toda liberdade. Só não existe liberdade para a multidão de eleitores que são forçados a entrar na secção eleitoral como a manada de bois é coagida a entrar no curral do matadouro. Fazer uma coisa à força só no tempo da escravidão e em dia de eleição no Brasil, e também em dia de eleição em quase todos os países do Terceiro Mundo, onde as elites copiaram esse figurino malandro. Conclusão: o seu voto e o de mais ou menos dez milhões de cidadãos estão inativados pela idiotice do voto analfabeto, pela inocência do voto criança e pela contrariedade do voto forçado.

Alfa Omega: Para dar um nó na portinhola deste garajau de raposas famélicas, o que o escritor tem a dizer finalmente?
Langstain Almeida: Acabe-se o voto analfabeto, o voto criança e o forçado, que aí sim, o Estado brasileiro pode, através do voto consciente, mudar a direção dos impostos em favor da sociedade. A corrupção da elite política encontra sua origem na composição orgânica do colégio eleitoral brasileiro. A representação popular é uma forma de ditadura plutocrática, legitimada pela cara cínica do voto forçado. O resultado é este mar de corrupção no qual se banharam todos os governos a partir da ditadura militar de 1964.


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