Publicado em Deixe um comentário

Entrevista com José de Barros Netto, autor de A vontade natural e o Pantanal da Nhecolândia

Alfa Omega: Considerando que o Pantanal da Nhecolândia ainda é desconhecido da grande maioria dos brasileiros quais são os seus limites geográficos?
José de Barros Netto: O Pantanal da Nhecolândia realmente ainda é desconhecido da grande maioria dos brasileiros. Com, aproximadamente, 600 léguas quadradas, em um formato que lembra um triângulo isósceles, com 150 e 300 Kms. de base e altura respectivamente, sua localização está no Mato Grosso do Sul.
Podemos localizá-la dentro destes limites geográficos: ao Norte com o rio Taquari; ao Sul com a vazante do Castelo, os rios Negro e Miranda, seguindo por este até a sua foz no rio Paraguai; ao Poente com os rios Paraguai e Taquari e ao Nascente com uma linha imaginária separativa dos municípios de Corumbá, Coxim e Rio Verde e traçada entre o Porto Independência no rio Taquari, passando pelo pico do “Morrinho” (único morro existente na região, sito nas terras da antiga fazenda Pimenteiral), indo até a vazante do Castelo, que figura, hoje, como sendo marco divisório entre os municípios de Corumbá e Aquidauana.

Alfa Omega: Qual a razão do nome Nhecolândia para essa região do Pantanal?
José de Barros Netto: Em 1879 Joaquim Eugênio Gomes da Silva, o “Nheco”, fundava a fazenda “Firme”, na região que mais tarde tomou o nome de Nhecolândia. Joaquim Eugênio era filho do legendário Barão de Vila Maria, Joaquim José Gomes da Silva, que já criava gado nesses pantanais, desde antes da guerra do Paraguai. Ele havia se estabelecido à margem esquerda do rio Paraguai, (margem mais alagadiça), porque se passaram muitos anos sem grandes enchentes. No primeiro ano de enchente maior, houve necessidade do Nheco adentrar o sertão, em busca de um lugar “firme” visto que o Porto da Manga, onde ele estava estabelecido, havia sido totalmente inundado. Essa foi razão do nome “Firme” à fazenda que marcou a fundação da Nhecolândia (terras do Nheco), por aquele que primeiro ali se radicou.

Alfa Omega: A comercialização do gado em lugares ermos não era difícil?
José de Barros Netto: A dificuldade de comercialização era o adverso das facilidades do criatório que, a princípio, nem cercas exigiam dado o fato de não existirem vizinhos. O gado era comercializado sob a forma de carne seca levada em batelão (espécie de canoa grande impulsionada a zinga) até Corumbá, onde era trocada por mercadorias diversas, principalmente gêneros alimentícios e vestimentas.

Alfa Omega: Quais as características fundamentais do homem e da vida pantaneira?
José de Barros Netto: Como as exigências de consumo eram mínimas, a sobrevivência ia acontecendo e moldando no homem um caráter férreo, forjado no sertão, ao lado de um sentimento de civilidade ímpar, devido ao alheamento total de centros populosos, o que trazia entro o patrão (dono das terras) e o empregado (muita vez dono de parte do gado) aquela solidariedade que nunca mais, talvez, veremos acontecer nem aqui no Pantanal, nem em outra região qualquer, seja sob este ou àquele regime político. Sertão bravio era a Nhecolândia, onde reinavam as onças pintadas, a “boca de sapo” (cobra venenosa), a sucuri e a cascavel; fauna riquíssima, dispersa entre miríades de lagoas e vazantes, cerrados e baixadas. Pastagens abundantes e farta, quase isenta de pestes, era verdadeiramente salubre. O gado bovino encontrou uma região como se fosse o seu verdadeiro habitat e os primeiros homens conheceram o Eldorado para a criação.

Alfa Omega: Quais as características fundamentais do homem e da vida pantaneira?
José de Barros Netto: A necessidade instintiva de conservação do homem nas suas lutas pela sobrevivência, moldava-lhe leis próprias, costumes e regras especiais forjados pela criação de gado naquela região peculiar, aonde as condições ou o comportamento atmosférico, especialmente quanto às precipitações, iam exigindo dele normas de comportamento, tanto morais como de ordem física, tais como postura, andar, hábito de acocorar-se, cruzar os braços transversalmente ao peito, etc. Notava-se, ainda, a postura não ereta e sim, sempre apoiada em uma das pernas como a descansar a outra. Esse costume não está bem esclarecido, mas, supõe-se que seja devido ao calor, à areia aquecida pelo sol abrasador (o pantaneiro sempre andou descalço até a metade do século XX ou, segundo outros, talvez, por uma fraqueza generalizada das pernas motivada por deficiência de fundo verminoso, ou por imitação pura e simples). Os vermífugos da época eram vistos com desconfiança, mormente porque apresentavam índice de toxidade bastante elevado. Isto, naturalmente deixava-os um tanto anêmicos mas, adquiriam, por outro lado, uma certa resistência à verminose, acredito, além do que a alimentação do vaqueiro, se bem que farta de carnes e leite, tubérculos e frutas silvestres ou cultivadas, era muito desprovida de verduras, pois, eles diziam que não eram “marandová” (lagarta) para comer folhas. Ressaltava-se que todo o produzido na fazenda era fornecido ao vaqueiro graciosamente, mas, naturalmente que regrado pelo fazendeiro. A filosofia era esta: “visto que o vaqueiro plantava a roça, dela também tinha o direito de usufruir, portanto. O comportamento moral elevado implicava tanto na elevada moralidade implantada pelos primeiros desbravadores, não só por terem sido eles, certamente, descendentes de pessoas de bons costumes, como, também, pela própria necessidade de união entre todos, que buscavam um fim comum com o trabalho e o progresso em um ambiente inteiramente bravio e distante.

Alfa Omega: Recentemente a ONU reconheceu o Pantanal como reserva mundial da biosfera; na prática em que consiste este feito na vida diária do pantaneiro?
José de Barros Netto: Pela imprensa tomamos conhecimento de que a ONU, recentemente, reconheceu o Pantanal como reserva mundial da biosfera. Sem nos inteirarmos com mais profundidade sobre esta Reserva, muito difícil fica para expor uma opinião a respeito. Isso porque não sabemos se a ONU compreende perfeitamente a adequação do homem pantaneiro à Natureza trazendo consigo sua criação de bovinos, ou se Ela entende o homem, definitivamente, como um intruso destruidor da vida em nosso planeta, como dizem alguns ecologistas e como o mesmo homem o demonstra em atividades variadas e em outras regiões pretendendo com esse entendimento, retirar-nos do Pantanal. Em face desta dúvida atroz, sinto-me inseguro nesta entrevista e, peço vênia, uma resposta mais conclusiva poderá ser dada assim que nos sentirmos perfeitamente cientes do que pretendem fazer com a nossa região.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *