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Entrevista com Ivo Tonet e Adriano Nascimento, autores do livro Descaminhos da esquerda

Ivo Tonet
Adriano Nascimento

Entrevista concedida a Antônio do Amaral Rocha

Alfa Omega: Historicamente como se deram as tentativas de implantação dos regimes socialistas no mundo?

Autores: Houve tentativas na Russia, na China, em Cuba, no Vietnam, em vários países da Europa Oriental e da África. Todas elas em países atrasados.
Socialismo revolucionário implica, necessariamente a superação radical do capital através da instauração de uma nova forma de produção da riqueza material que se chama trabalho associado, vale dizer, o controle livre, consciente, coletivo e universal dos produtores sobre o processo de produção e, consequentemente, sobre o conjunto do processo social.
Observação importante: não confundir caminho revolucionário para o socialismo, tal como historicamente aconteceu, com socialismo revolucionário. São duas coisas completamente diferentes.

Alfa Omega: Quais as principais diferenças entre o chamado socialismo revolucionário e o socialismo democrático?

Autores: Aqui há um a confusão entre caminho revolucionário para o socialismo, tal como historicamente aconteceu, e socialismo revolucionário. Socialismo revolucionário significa a erradicação radical do capital. Caminho revolucionário para o socialismo significa, em nosso livro, as tentativas de fazer essa ruptura radical a partir de países atrasados. Caminho democrático significa pensar que socialismo é “a democracia sem fim”, ou seja, o aperfeiçoamento indefinido da forma democrática da sociedade, esquecendo que democracia é a forma política do capital.

Alfa Omega: Qual a gênese desse modelo de socialismo que se convencionou chamar de socialismo democrático? Quais são os seus teóricos?

Autores: Num sentido amplo, socialismo democrático tem sua gênese na segunda metade do século XIX, com a social-democracia alemã. Bernstein, Kautski e alguns autores austríacos estão entre seus formuladores iniciais. Na segunda metade do século XX assumiu outras formas, especialmente a forma do eurocomunismo. Vários intelectuais do PC italiano estão entre os principais teóricos dessa via, com Togliatti à frente.

Alfa Omega: Não existiria aí uma contradição? O socialismo revolucionário não pode ser chamado de democrático?

Autores: Não pode, porque democracia é a forma da liberdade possível sob a regência do capital. Democracia e cidadania são o outro lado da moeda do capital. Socialismo, ou mais claramente, comunismo, é a forma da liberdade plena, isto é, uma forma da liberdade que é plena exatamente porque, tendo desaparecido a desigualdade social, os homens formarão uma autêntica comunidade humana e serão efetivamente os sujeitos do seu processo histórico. A forma da liberdade no socialismo é essencialmente diferente e superior à da mais desenvolvida democracia.

Alfa Omega: Em quais países a ideia do socialismo democrático mais prosperou?

Autores: Sob a forma social-democrata, na Alemanha. Sob a forma de eurocomunismo, na Itália, França, Espanha. Sob a forma de intenção de construir uma sociedade socialista democrática, em muitos outros países.

Alfa Omega: Como se deu o rompimento dos partidos comunistas europeus com as orientações vindas de Moscou?

Autores: Isto foi um processo muito complexo mas, devido, fundamentalmente, às diferenças entre a sociedade russa (e de outros países similares) e a sociedade nos países europeus (em sua maioria) ocidentais. E pelo fato de o Partido Comunista da união Soviética querer impor seu modelo de revolução como algo universal.

Alfa Omega: Os teóricos do socialismo democrático são considerados revisionistas ou reformistas?

Autores: São, ao mesmo tempo, revisionistas, pois revisam as ideias de Marx e reformistas, pois propõem um caminho ao socialismo pela via da reforma.

Alfa Omega: Pelo fato de as tentativas de implantação do socialismo democrático terem acontecidos na Europa, não estaria claro, já a partir daí, que os seus defensores só queriam reformar o capitalismo? Isto é, nestes países o capitalismo já tinha atingido o máximo de seu desenvolvimento e um regime socialista não poderia perder esse avanço e acabou incorporando-o na sua trajetória?

Autores: Bem, socialismo democrático se chama assim exatamente porque não pretende fazer uma ruptura radical com o capitalismo, mas apenas aperfeiçoá-lo, ampliando para toda a humanidade o que de melhor foi conquistado até então.

Alfa Omega: A forma burguesa da vida europeia, já definido por um Estado burguês não foi um impedimento para a implantação de um Estado proletário?

Autores: Só para ficar claro: a ideia de um Estado proletário é um contra-senso.

Alfa Omega: As novas conceituações surgidas a partir da década de 80 sobre cidadania, defesa do meio ambiente, liberdades individuais que são bandeiras apropriadas pela social-democracia não contribuíram para as dificuldades da implantação do socialismo democrático?

Autores: Estas novas bandeiras fazem parte de um processo extremamente complexo. Seria preciso desvendar esse processo para compreender o lugar que elas ocupam dentro dele. Os obstáculos mais profundos estão no processo de acumulação do capital, levada em conta a realidade da luta entre capital e trabalho.

Alfa Omega: Os descaminhos da esquerda deve ser creditado em maior ou menor grau a qual das duas tendências hegemônicas, (a) socialismo revolucionário e (b) socialismo democrático?

Autores: Seria preciso uma investigação muito ampla e aprofundada para responder a essa questão.


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