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Entrevista com Guilherme Nafalski, autor de UNASUL: uma perspectiva de integração política sul-americana

Entrevista concedida a Antônio do Amaral Rocha

Alfa-Omega – Poderia explicar por que a assinatura do Tratado Constitutivo da União de Nações Sul-Americanas, a Unasul, define-se como um momento novo, uma possiblidade da realização da política em uma esfera em que sua aparição costuma ser bastante rara?
Guilherme Nascimento Nafalski: A Unasul é um instrumento novo, não apenas porque é recente, surgiu a pouco tempo. A Unasul é uma organização que muda a forma, o formato, da integração. Ela é possível porque um discurso que antes não tinha voz, passa a ter, disputando o próprio conceito de integração, propondo não um conjunto de trâmites comerciais e econômicos, mas a constituição de uma de uma identidade sul-americana.
Ao surgir depois de gerida em partidos de oposição, que não tinham espaço nos governos e nos processos de integração, em contraposição a um movimento neoliberal, o discurso se fortaleceu antes de se tornar oficial. Quando há o esgarçamento do processo de integração pela via neoliberal, apresentado pela proposição da Área de Livre Comércio da Américas, a Alca, este discurso toma força e conquista espaço, ganhando governos e, juntas, em diferentes países, apresenta uma nova possibilidade de construção. Um acontecimento político.

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Entrevista com Camilo Onoda Caldas, autor de Perspectivas para o direito e a cidadania

Alfa Omega: Professor, situe Umberto Cerroni no contexto da filosofia marxista?
Camilo Onoda Caldas: Penso ser necessária cautela para situarmos um autor dentro de uma corrente filosófica, temos como exemplo a polêmica entre Heidegger e o existencialismo ou Foucault e o estruturalismo. Mesmo assim, é uma tarefa da qual não devemos nos furtar, pois o dimensionamento de um filósofo somente se dá a partir da sua contextualização e da sua relação com os demais. No caso de Cerroni, dediquei-me a uma análise minuciosa de suas obras para situá-lo no universo marxista, que aliás é muito diversificado. Evidentemente, Cerroni tem suas particularidades, mas pode ser incluído entre os pensadores do chamado “marxismo ocidental”, mais particularmente do marxismo italiano de caráter humanista e democrático que inclui pensadores como Lucio Colleti, Galvano Della Volpe e Gramsci. Isso significa que Cerroni acredita que a grande lacuna teórica do marxismo é a ausência de uma ciência política própria. É esse vazio que ele se propõe a preencher, pois entende que assim seria constituída a base necessária para pensarmos um socialismo democrático, um tema, aliás, que estava na ordem do dia diante da repercussão decorrente do famoso relatório secreto de Kruschev de 1956, que iniciou o movimento de crítica ao stalinismo e provocou uma revisão das idéias e das práticas marxistas de até então. Por essa razão observamos que Cerroni enfatiza nas suas obras as questões ligadas à participação política: o papel dos partidos políticos, o sentido da democracia, os limites da cidadania e da liberdade no capitalismo etc.

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Entrevista com Nathaniel Braia, autor de O Apartheid de Israel

Alfa Omega: O que o levou, aos 18 anos, apenas, a decidir-se a morar em Israel, e por quantos anos lá ficou?
Nathaniel Braia: Como informa o meu livro, O apartheid de Israel, no capítulo Sobre o autor, desde os oito anos de idade, participei de movimentos sionistas e estudei em escola judaica. Desde cedo me interessei muito pelo verdadeiro significado do judaísmo e do sionismo. Meus pais sempre haviam atuado em instituições judaicas e a comunidade judaica compunha meu principal círculo de relacionamentos até os dezoito anos. Logo após a Guerra dos Seis Dias o interesse pelo Estado de Israel e as contradições com os povos árabes cresceram na mente de muitos jovens judeus, assim como eu, no mundo inteiro. Fui a Israel conhecer e estudar tudo isso in loco.

Alfa Omega: Qual foi o fator decisivo que o fez começar a compreender o que realmente acontecia entre o povo palestino e o Estado de Israel?
Nathaniel Braia: Para mim foi um choque descer em Haifa e a partir daí percorrer Israel e ver o clima de racismo, segregação e desrespeito aos árabes palestinos no dia-a-dia daquele país. Como brasileiro havia tido uma vida acostumada à convivência entre brasileiros de diversas origens e, apesar de conviver com resquícios do racismo que existe no Brasil, nada se comparava à agressividade degenerada que eu passei a assistir e a repudiar em Israel, dos judeus contaminados pelo ódio, instilado pela mídia e pelos dirigentes locais, contra os árabes em geral e os palestinos em particular. Detalhe: no período em que vivi em Israel, tanto a mídia escrita, como falada e pela TV, nunca aparecia o nome palestino. Esse povo oprimido e despossuído era então tratado pelos israelenses apenas como “os terroristas”. Foi então que comecei a questionar todo o sistema engendrado a partir do movimento sionista e a sua conseqüência mais grave, a ocupação dos territórios palestinos.

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Entrevista com Mario de Oliveira Filho, autor de Brasil: O entulho oculto dos privilégios oligárquicos

Alfa Omega: Em seu livro, o senhor elege como tema central a questão dos privilégios oligárquicos. Poderia explicar os seus conceitos de elites, oligarquias, classes dominantes?
Mario de Oliveira Filho: É conhecido e indiscutível o fato de que todos os modernos países evoluíram de sociedades de muitos privilégios – monarquias, feudalismo, ditaduras – para sociedades com poucos ou nenhum privilégio, baseadas na meritocracia e na igualdade de todos perante às leis, casos da Inglaterra, Estados Unidos, França, Alemanha, Japão e outros. Infelizmente isso ainda não ocorreu no Brasil, onde temos uma sociedade com muitos privilégios, que é a principal razão do baixo crescimento.
A República e a democracia exigem, para sua implantação e manutenção, a aplicação literal e diuturna do princípio da igualdade e do estado de direito. O privilégio em si é negação dos conceitos de República e de Democracia. De forma resumida pode-se dizer que as elites são as classes dominantes que se veem como parte do País e que entendem a importância de priorizar os interesses nacionais, acima de qualquer outro interesse. Já as oligarquias são as classes dominantes que não tem qualquer sentimento de nacionalidade, no sentido de pertencer a um País, e colocam seus interesses acima e antes de qualquer outro.

Alfa Omega: As elites ocupam posições estratégicas nos processos decisórios e detém o poder de fato. E por serem elites desfrutam do melhor que o País dispõe. Qual é o papel, de fato dessas elites?
Mario de Oliveira Filho: O papel de uma verdadeira elite é o da criação e geração de riquezas materiais e intelectuais que contribuam para o desenvolvimento econômico e social do País. E neste processo priorizarem o interesse público e o bem comum acima de qualquer outra consideração.

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Entrevista com Everaldo Augusto, autor de Literatura e documento

Alfa Omega: A obra Cascalho procura retratar, com base em fatos históricos e documentais, a realidade do que ocorreu na cidade baiana de Andaraí, na primeira metade do século XX. Como o senhor avalia essa preocupação com a verdade histórica diante da difusão dos mitos de fora?
Everaldo Augusto: Eu diria que Herberto Sales, em Cascalho, não retratou apenas uma realidade. Em se tratando de uma obra de ficção, eu poderia dizer que ele recriou esta realidade.
O que surpreende a todos que lêem a obra é a força, as cores, e a emoção em que se dá este ato de recriação. Isto faz desta obra literária uma denúncia da degradação social e da banalização da vida daquela multidão de garimpeiros perdida nos sertões da Bahia, com muito mais força que qualquer obra dita histórica, tão somente, ou qualquer discurso diretamente engajado.

Alfa Omega: Em que medida o retrato fiel de uma realidade histórica colabora com a produção de uma obra literária? E em que ela atrapalha?
Everaldo Augusto: Penso que em literatura de ficção não há um retrato fiel da realidade. Eu diria que a Literatura rapta, captura a realidade e a recria pela palavra. Depois a devolve com mais vida ainda que a realidade antes capturada, posto que agora ela está desnaturalizada, perceptível ao olhar e aos sentimentos do homem.

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Entrevista com Aldo Rebelo sobre o livro A Ilusão Americana, de Eduardo Prado (1860-1901)

Alfa Omega: Por que um livro publicado pela primeira vez em 1893 ainda guarda alguma atualidade?
Aldo Rebelo: O livro trata da ilusão na possibilidade de serem resolvidos os graves problemas nacionais a partir do apoio e da ajuda dos EUA, ilusão desgraçadamente repetida cem anos depois pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1993, quando apresentou o chamado Plano Real, imaginando retomar o desenvolvimento do país apoiado no dinheiro volátil e na boa vontade do nosso grande vizinho do Norte.

Alfa Omega: Qual a importância do relançamento de A ilusão americana?
Aldo Rebelo: Os Estados Unidos propõe a formação de uma área de livre comércio nas Américas do Alasca à Terra do Fogo. O exame de tal proposta exige a cautela e a precaução na aproximação com vizinhos poderosos e arrogantes. A obra de Eduardo Prado é paradoxal: ao mesmo tempo em que teve a premonição de denunciar a expansão hegemonista dos EUA, se contrapôs ao movimento renovador da Proclamação da República. Não podemos esquecer que Eduardo Prado era um aristocrata; um homem para quem os valores de uma sociedade nobliárquica, deveria se basear na etiqueta, na linhagem, nos títulos de nobreza. Eduardo Prado era filho de uma das famílias mais ricas de São Paulo. Tinha casa montada em Paris, era ligado aos círculos intelectuais de Lisboa e tinha servido, inclusive, na legação brasileira em Londres. Esse era o seu ambiente, esse era o seu meio. E a República era a negação de tudo isso. A República veio da Guerra do Paraguai, do convívio de soldados negros com oficiais republicanos e anti-escravocratas, como Floriano Peixoto. O anti-republicanismo de Eduardo Prado determinou que para ele o Brasil republicano era um país no qual não se sentia mais à vontade. A República de Floriano era exatamente a negação de tudo aquilo que Eduardo Prado imaginava para o País: era o combate do aristocrata, combate que ele fazia muito mais pela glória de combater do que pela esperança de vencer, porque sabia que a vitória era improvável.

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Entrevista com Ebenézer W. A. Nascimento, autor de Banco Um Inimigo do Povo

Alfa Omega: O título “Banco…” é muito sugestivo. O que veio primeiro, o livro ou o título?
Ebenézer W. A. Nascimento: Vieram juntos. Banco é a base. Inimigo do Povo é a condição inseparável…

Alfa Omega: De onde veio a idéia do livro?
Ebenézer W. A. Nascimento: Escrevi um outro livro, A Retomada do Poder, ainda não publicado, no qual há um capítulo em que falo dos males do nosso sistema financeiro e faço sugestões para uma reforma. Então, senti a necessidade de me estender mais sobre os Bancos e não fazia sentido entrar em tantos detalhes em A Retomada

Alfa Omega: No livro você diz que os Bancos tornaram-se predatórios com a cumplicidade e devido à subserviência dos governos. Lula assumiu sob o compromisso de mudança. O que ele pode fazer para mudar essa relação?
Ebenézer W. A. Nascimento: Esse é um dos grandes desafios de Lula: vencer a resistência, a começar pelo Congresso, para efetuar uma reforma necessária do sistema financeiro. Não entendo muito bem o ritmo que ele está dando ao trato de problemas cruciais como o dos juros altos e, inevitavelmente, dos Bancos. Mas penso que se não tratar do tema dos juros exagerados de forma radical não poderá ter sucesso nos planos econômico e social, pelo menos o sucesso que interessa ao povo.

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Entrevista com Luigi Sarcinella, autor de Salto no Escuro

Alfa Omega: Sr. Luigi, qual a razão principal dos relatos contidos em Salto no Escuro?
Luigi Sarcinella: Colocar em evidência os horrores e a loucura da guerra, uma bestialidade.

Alfa Omega: É sabido que o regime nazi-fascista praticou crimes horrorosos contra a humanidade. O senhor como participante partigiani acha que todos os responsáveis foram punidos?
Luigi Sarcinella: Não. Não todos. Soube-se depois da fuga de muitos guardiões torturadores que se salvaram no anonimato e na América Latina. Alguns foram capturados.

Alfa Omega: Qual é o legado da luta dos partigianos contra o regime nazi-fascista?
Luigi Sarcinella: A liberdade na democracia.

Alfa Omega: O romance Salto no Escuro é assumidamente autobiográfico. O que levou a escrevê-lo há 40 anos atrás e a reeditá-lo agora?
Luigi Sarcinella: Sempre senti a necessidade de escrever um livro útil à sociedade.

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Entrevista com Marcos Alcyr Brito de Oliveira, autor de Sujeito de Direito e Marxismo

Entrevista concedida a Antônio do Amaral Rocha

Alfa Omega: Existe um entendimento do senso comum sobre a acepção “anti-humanismo”. Com certeza, neste seu trabalho o significado é outro. Explique-nos essa diferença?
Marcos Alcyr Brito de Oliveira: Para o senso comum, o humanismo seria atitude que buscaria o desenvolvimento da potencialidade do ser humano ao passo que anti-humanismo seria a negação dessa possibilidade de desenvolvimento humano. No entanto, a concepção humanista, que considera a noção de Homem (essência ou natureza do Homem), a noção de espécie humana ou Gênero humano (essência genérica do homem, definido pela consciência, o coração, a intersubjetividade etc.), etc., na verdade escamoteia as diferenças existentes entre as classes, ocultam a exploração capitalista e a luta de classes, enquanto o anti-humanismo utiliza-se de conceitos mais científicos, menos ilusórios, como modo de produção, mais-valor, etc., ou seja, somente superando conceitos humanistas onde prevalecem das ilusões de igualdade e liberdade, e adotando-se uma ótica anti-humanista é que, de fato, a exploração de uma minoria sobre uma maioria poderá ser superada.

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Entrevista com Ivan Godoy, autor de Argélia Tradição e Modernidade

Alfa Omega: Seu livro é uma reportagem, um ensaio ou um diário de viagem?
Ivan Godoy: Tem um pouco de cada gênero. É o produto de muita pesquisa e de duas viagens à Argélia, que unidas a dez visitas a outros países árabes — sempre como jornalista — me deram as condições para entender um pouco a mentalidade, a cultura e a sociedade desses povos. Falei com muita gente, autoridades, políticos e intelectuais, tanto do governo quanto da oposição, acadêmicos e principalmente pessoas comuns, para poder sentir o que pensam os argelinos do seu país e do mundo. Visitei muitos lugares, de grandes cidades até lugarejos em pleno Saara. Aliás, sobrevoei o deserto numpequeno avião, o que me deu aquela sensação de como os seres humanos somos pequenos diante da imensidão da natureza.
Também li muito sobre o país: livros, revistas, jornais, sites na internet. Tudo foi facilitado pelo fato de os argelinos serem bilíngües e boa parte dos jornais e revistas serem publicados em francês. Assim, não tive intermediários nos meus contatos, pude falar diretamente com as pessoas sem tradutor, ler os jornais, ouvir o rádio, assistir TV, o que deu uma idéia bastante real do país. O resultado final é um livro que não pretende ser acadêmico, mas transmite bastante informação, de uma maneira direta, com uma linguagem jornalística. Em resumo: não é chato, segundo quem já o leu, até porque não fala apenas de política e economia, mas mostra uma visão geral do país e do povo, incluindo costumes, culinária, criação do cavalo árabe, produção de tâmaras e uma atenção especial ao esforço argelino para aumentar o nível educacional da população etc.

Alfa Omega: Por que você decidiu escrever sobre a Argélia?
Ivan Godoy: Em primeiro lugar, sempre me incomodei pelo fato de muita gente dar opiniões superficiais sobre o mundo árabe, baseadas em preconceitos e lugares-comuns. As pessoas no ocidente geralmente não sabem que apenas 20% dos islâmicos são árabes. A maior nação islâmica é a Indonésia, com mais de 200 milhões de habitantes e que não é árabe. Outros exemplos são o Paquistão, a própria Índia, com uma importante minoria muçulmana e o Irã. Eu estava interessado em mostrar a realidade de um país islâmico moderno e laico, pois considero que existe uma visão errada de que estas nações constituem um bloco monolítico de regimes teocráticos e/ou ditaduras retrógradas. Há diferenças marcantes dentro do mundo islâmico, numa gradação que vai desde o desaparecido regime fanático dos talibãs, no Afeganistão, até a Argélia atual. Ou seja, se há ditaduras e monarquias absolutistas, também há democracias ou pelo menos processos de evolução que apontam para a democracia.

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