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O Romance do Café é o resultado de intensas pesquisas sobre a cafeicultura e
se desenrola no Vale do Paraíba, tanto no lado fluminense quanto no lado
paulista, e de todo atual Estado de São Paulo, no período que vai do século
XIX até a metade do século XX, passando também pelo problema agrário no
Brasil. Esses anos de estudo sedimentaram-me o respeito e a crença em
valores da vida agrária, como solidariedade, amor ao chão que nascemos,
camaradagem e vida comunitária. Lições do passado que procuro resgatar.
O que você espera com este romance?
Beatriz Garcia - Pretendo mostrar as grandes transformações que
ocorrem no Brasil com a chegada dessa planta itinerante, que entrou no país
pelo Pará e acabou se tornando um marco na nossa vida econômica, social e
cultural, a ponto do período ser denominado "civilização do café". Ele é a
cara do Brasil, faz parte da personalidade brasileira. É um dos principais
signos de nossa identidade nacional. O café não só marcou o perfil do Brasil
para sempre, mas também acabou determinando a urbanização e criou um modelo
agrário que permanece, e um modelo de trabalhador rural que poderá ser
reaproveitado e reestruturado. Acredito que esse modelo de trabalhador é
mais saudável do que o bóia-fria de hoje, em geral recrutado no meio urbano.
Creio ser fundamental que o Brasil rural se reorganize.
Procurei mostrar as transformações que ocorreram no mundo rural de hoje
ocasionadas pelas leis trabalhistas de 1962, os governos militares, o neo-liberalismo,
a globalização etc. São fatores que aliados concorreram para o êxodo rural
aumentando ainda mais nossas dificuldades.

214 pp. - R$ 43,00
ISBN 85-295-0010-5
Cod. barras: 9 788529 500102
A estrutura
da vida rural brasileira foi abalada, pois grande parte dos fazendeiros de
médio e de pequeno portes não conseguiram sobrepujá-las.
Na região do vale do Rio Paraíba (Rio de Janeiro e São Paulo), onde
outrora desenvolveram grandes propriedades rurais com solares suntuosos
auferidos pelos lucros do café no século XIX -, fazendeiros atuais com nova
mentalidade e compreensão da cultura brasileira adaptaram suas propriedades
a uma nova atividade econômica: o turismo rural.
Por todo o vale do Rio Paraíba surgiram hotéis - fazenda, originários
das antigas sedes rurais inteiramente restauradas e adaptadas ao conforto
moderno, pessoas apaixonadas por esta época da civilização brasileira se
hospedam nestas belas sedes rurais, acabando por sentir o espírito da época.
Na região de Campinas, Araras, Limeira, São Carlos, fazendas históricas
abrem suas portas ao turismo nacional e internacional.
Em Piracicaba e Sorocaba, são belas as sedes rurais restauradas e
dinamizadas para um turismo equilibrado.
No nordeste de São Paulo - Batatais, Franca, Cajuru, Altinópolis existem
artísticos solares do período cafeicultor, muitos tornaram-se hotéis.
Quase na fronteira entre Minas Gerais e São Paulo, a cidade de Mococa
permanece com o seu centro histórico de arquitetura cafézista e fazendas com
solares cujas portas estão sempre abertas para os que amam a cultura
brasileira, amplamente difundida pelas agências de turismo.
Ribeirão Preto foi centro cafeicultor, mas atualmente sua principal
atividade econômica gira em torno da cana de açúcar.
Num raio de 200 quilômetros da cidade estão 80% da produção de cana do
Estado, 45% da produção nacional e 10% dos canaviais existentes no mundo.
Difícil é conviver com ar saturado de fagulhas negras que escurecem o
céu azul de Ribeirão Preto.
Esta cidade segue o caminho do mundo. Ela é acima de tudo um centro
urbano dinâmico, capitalista, moderno e altamente poluído pela "atmosfera do
canavial".
Porque este ciclo econômico foi tão importante
dentro da história da civilização brasileira?
Beatriz Garcia: Beatriz Garcia - É impossível estudar a história
da civilização brasileira passando sobre este período, pois esta fase marcou
o caráter da nossa história, na sua vida econômica, social, política e
cultural etc.
Os exemplos estão a nossa frente nos belos solares rurais e urbanos das
regiões abordadas neste livro.
Impossível ignorar o drama da escravidão nas fazendas de café, mas
também, reconhecer o reflexo da sua cultura na vida brasileira.
Procurei repensar a fase no que tange, a importância da imigração
européia o seu legado incorporado a nossa cultura.
Triste perceber nos dias que ocorrem as fazendas vazias, despovoadas,
solitárias e reconhecer que as cidades estão transbordando de pessoas,
grande parte desempregadas, ou com salários ínfimos.
Notamos em ambas, as misérias do país ao lado das verdades escondidas
nos dramas que assustam o nosso cotidiano e a sensação de solidão que
freqüentemente nos acompanha na ânsia de nos defender de um capitalismo
impiedoso.
É difícil a situação do país, daí a necessidade de compreendermos o
embasamento histórico do problema que a originou num passado não muito
distante ligado a necessidade do grande desenvolvimento, do progresso a todo
custo, do neo-liberalismo etc.
O progresso
Beatriz Garcia - O que é o progresso? Qual o seu verdadeiro
sentido?
O progresso seria então o grande desenvolvimento tecnológico e
cientifico?
Não seria melhor defini-lo como a soma do crescimento tecnológico e
humano?
O desenvolvimento conseguiu aumentar o limite da vida cronológica do
homem, mas não foi vinculado a sua vida espiritual, pois a solidão das almas
é a pior de todos os males.
A terra chora porque a exploração desenfreadas das suas riquezas chegou
ao limite, a manipulação dos fenômenos naturais, a desmistificação das
formas de vida. Tudo está virando um grande "negócio".
Não existe solução rápida sobre estes desafios à nossa frente, a não ser
sob novos paradigmas, de como viver a vida e para reverter este quadro
teremos de começar pelo centro das grandes decisões nacionais. Elas estão no
interior brasileiro. No Planalto Central.
Por que o livro encerra com a era Vargas?
Beatriz Garcia - Porque marca o fim de uma fase da história
brasileira e o prenúncio de um novo período - o da industrialização
brasileira amparada pelo governo Vargas. Apesar do país continuar sendo
tipicamente rural. Nas décadas de 1940 e 1950 vivi em uma propriedade
rural de porte médio altamente produtiva - uma agroindústria - cultivava
produtos de substância, além do algodão, café, mamona, cana de açúcar,
etc. O engenho fabricava a rapadura e aguardente. Era produtora de leite
e indústria artesanal de queijo, requeijão, manteiga etc.
Nasci e cresci nesta propriedade rural. Fui batizada na capela ao lado
das crianças filhas de empregados. Aos 6 anos, ingressei na escola rural
até esta idade usufrui de uma vida de brinquedos e pequenas tarefas
caseiras. O meu mundo era a roça.
Era uma vida bem diferente das crianças das grandes cidades, cujos pais
as colocam bem cedo nas escolinhas, as vezes com menos de dois anos de
idade, pelo excesso de tarefas e falta de tempo comum nos dias de hoje.
Assim, pois, inicia-se uma vida terrível dos pais para sustentáa-los
desde os tenros anos de vida até as faculdades com despesas fabulosas,
pois as escolas são empresas e custam muito caro quase sempre elas
ocupam o vazio deixado pelas escolas do governo.
Como resolver o problema do campo?
Beatriz Garcia - É óbvio que se tem que falar sobre esse assunto,
que é apaixonante, porque o problema fundiário no Brasil é de grande
turbulência. Nele, estão envolvidos os que possuem terras e os que não
as possuem, o governo e a imensa burocracia da reforma agrária. O Brasil
tem seu destino ligado a terra. Nosso País poderá ser celeiro do mundo,
já que tem condições para isso, sem desmontar o que foi construído nos
anos que sucederam a revolução de 1930. É necessário que se invente uma
política agrícola consistente. É preciso que se reorganize, urgentemente
a nossa agricultura.
É inviável atê-la à lógica do mercado.
Com a promulgação das leis trabalhistas para o campo, grande parte dos
fazendeiros descapitalizados por anos a fio de uma política econômica
avessa à agricultura, recorreram então a força temporária de
trabalhadores rurais recrutados nas cidades, aumentando ainda mais o
êxodo rural com o desaparecimento das roças familiares. Mecanizaram suas
fazendas e as transformaram em empresas altamente produtivas, já que a,
ordem apóia os poderosos e destrói a agricultura familiar e policultura.
Houve a desintegração da cultura caipira e reincorporada pelo
entretenimento de massa, pela mídia ansiosa pelos espetáculos do show
business, pelos peões caubóis, pelos espetáculos televisivos.- A
banalização da cultura! Tristes são esses tempos...
Quais as técnicas que você empregou para
elaborar o Romance do Café?
Beatriz Garcia - Pesquisas de campo, pois eu fiz várias viagens,
entrevistas com proprietários rurais, descendentes da aristocracia
cafeeira, com trabalhadores rurais, li livros de história da civilização
brasileira dos séculos XIX e XX, pesquisei em revistas e jornais... e
além disso tenho as minhas referências, a minha experiência como filha
de fazendeiro, que vi de perto o drama da terra. Para você ter uma idéia
da grande quantidade de pesquisas, levei dez anos para escrever este
livro.
Apesar de passados todos esses anos, continuo fiel as idéias que defendi
nesse livro. Acredito ser esta a minha verdade e a lego como
contribuição à procura de um mundo melhor.
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Quarta capa
O romance
do café de Beatriz Garcia, resultado de um trabalho que durou dez
anos, é um livro histórico-literário, que aborda a origem, a evolução da
cafeicultura no Vale do Paraíba fluminense e paulista, na Depressão
Periférica, no Nordeste Paulistano e no Planalto Ocidental, Estado de
São Paulo. Analiza a importância econômica e sociocultural do ciclo
dessa planta, que sacudiu a estrutura da sociedade brasileira no limiar
do século XIX até os primeiros anos da Era Vargas, quando na conturbada
vida nacional ocorreram o processo de estatização da economia brasileira
e a crise agricola, com a decadência da rubiácea, assim como o fenômeno
que se repete: a queda do preço da terra.
Apaixonada pela terra, Beatriz Garcia enverda pelos caminhos da
geografia e do ecossistema das regiões abordadas antes do período
cafeicultor, para em seguida abordar o conteúdo sócio-econômico,
chegando à conclusão de que a agricultura monocultora, como a do café,
voltada para o comércio exterior, traz como conseqüência grandes
dificuldades para o País, que - segundo a Autora - necesita de "uma
gricultura diversificada, voltada para o mercado interno e externo, com
o homem assentado à terra, com uma agricultura viável, pois a terra não
vale apenas pelo dinheiro, mas, muito mais, pelo que produz. Afinal,
terra é sempre terra!"
Este livro, o segundo lançamento de Beatriz Garcia, apresenta
consistente bibliografia sobre o período cafeeiro. Seu primeiro livro -
Uma história de amor entre guerras - recebeu o prêmio literário da
Secretaria da Cultura de Ribeirão Preto.
A Editora Alfa-Omega - coerente com seus 32 anos de luta por um Brasil
mais reflexivo - sente-se honrada ao lançar este livro que se tornará
imprescindível na biblioteca de quem se preocupa com as questões
brasileiras.
Sobre a Autora
Beatriz
Garcia
é professora e historiadora formada pela USP. Nasceu em uma propriedade
rural no município de Cajuru, São Paulo.
Marcou sua presença como professora de História e no trabalho de
recuperação do acervo da E. E. 2º Grau Otoniel Mota, antigo Gymnasio do
Estado, em Ribeirão Preto.
A partir de meados da decada de 1980 tem se dedicado ao estudo do ciclo
do café no Brasil, originado os livros O romance do café
e Uma história de amor entre guerras (prêmio literário instituído
pela Secretaria da Cultura de Ribeirão Preto, ano de 1995).
O romance do café é o resultado de intensas pesquisas sobre a
fase e se desenrola no Rio de Janeiro e São Paulo de meados do século
XIX até a metade do século XX - ao lado dos grandes contrastes da luta
pela terra no Brasil e cuja leitura nos fornece a compreensão da
situação aflitiva no campo e nos permite desvendar, através dele, o
final e também o começo de um novo tempo.
Tábua da matéria
Sobre a autora, VII
Agradecimentos, IX
Dedicatória, XI
Introdução, XIII
Capítulo I
O vale do Rio Paraíba, 17
Capítulo II
A depressão periférica, 68
Capítulo III
O nordeste paulistano, 107
Capítulo IV
O planalto ocidental, 173
Capítulo V
A crise de 1929 e a Revolução de 1930, 182
Dez anos após, 191
Bibliografia, 203
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