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Evgueny Zamiatin

(Tradução de Clarice Lima Averina)

Considerado um dos 100 romances mais importantes
do século XX


O livro que
"inspirou" alguns escritores como Aldoux Huxley em Admirável mundo novo e George Orwell em 1984.

CONTEÚDO
Entrevista inédita de Evgueny Zamiatin
Autobiografia
Sobre a tradutora
Texto de quarta capa
Prefácio da edição russa, por Viatcheslav Chestakov, tradução de Clarice Lima Averina
• Edições brasileiras de Nós
Prefácio de A muralha verde, por José Sans (traduzido do francês Nous Autres, Edições Gallimard), GRD Editora, 1962.
— Texto de orelha de A muralha verde
Introdução de Nós, por Mirra Ginsburg (traduzido do inglês We), Editora Anima, 1983.
• Opinião
Nós, uma utopia negativa, por Ella Kobiaco
— Alexandre Beluco põe na forma escrita as suas reflexões sobre Nós, de Eugene Zamiatin.
Nós, citado entre os 100 melhores romances do século XX


EVGUENY ZAMIATIN
ENTREVISTA INÉDITA DE EVGUENY ZAMIATIN

POR FREDERIC LEFEVRE
Interviu dlia Frederika Lefevra
Abril de 1932
In: Antologuia Satiri i iumora Rossii XX veka — Evguenii Zamiatin, Tom 28, Izdvo Eksmo, 2004, Moskva, str. 20—24
Entrevista para Frederic Lefevre
in: Antologia de Sátira e Humor da Rússia do século XX — Evgueni Zamiatin, Volume 28, Editora Eksmo, 2004, Moscou, pg. 20—24.
Traduzido do russo por Clarice Lima Averina


— Se eu lhe respondo que nasci na Rússia, isto é pouco. Eu nasci e passei a infância bem no centro da Rússia em seu ventre de terras negras. Lá, na província de Tambov, há uma cidadezinha — Lebedian — outrora famosa por suas feiras, ciganos, trapaceiros e sua linguagem solidamente russa, perfumada como maçãs antonovkas. Não foi por acaso que Turguenev e Tolstoi escreveram a respeito desta cidade.
Eu até hoje me lembro dos excêntricos incomparáveis, que esta terra negra produziu: um coronel — Rafael culinário que preparava pratos geniais; um sacerdote que escreveu um tratado sobre a vida doméstica do diabo; um funcionário dos correios que ensinava a todos o idioma esperanto e que tinha a certeza de que em Vênus — Les habitants enériques — também falam em esperanto... Estes excêntricos dos anos 90 estão vivos até hoje. Não se espante, eles vivem em meu romance Provinciano.

Desde o início dos anos 900 eu vivi em Peterburgo. Parece que que sempre tive este traço de carácter, escolher la ligne de la plus resistance. Pode ser que, justamente por isto eu escolhi a faculdade mais difícil na École Polytechnique de Pétersbourg — a de construção naval. Em 1909 (1) eu terminei esta faculdade e fiquei como agrégé na cátedra de construção naval e a partir deste ano começou minha vida anfíbia...

—Acha estranha esta comparação?

Os anfíbios, como se sabe, têm vida dupla, respiração dupla: no ar e na água. Em 1909 eu fiz simultaneamente meu projeto de navio para o diploma e escrevi meu primeiro conto. Desde então eu vivo simultaneamente nestes dois elementos. Aliás, eu me diferencio dos anfíbios por nunca ter rastejado perante ninguém, e não ter vergonha de escrever o que me parece verdade. Para curar me deste mau-hábito o governo tsarista deteve-me como revolucionário na prisão de Peterburgo em 1906; nesta mesma prisão de Peterburgo foi-me prescrito o mesmo tratamento também em 1922. Mas eu temo que minha doença — heresia — é incurável. Um dos surtos desta doença foi meu romance Nous autres, que vejo na sua mesa. Críticos míopes viram neste livro nada mais do que um panfleto político. Isto, é claro, é incorreto: este romance é um sinal do perigo, que parte do poder hipertrofiado das máquinas e do poder do Estado — seja ele qual for e que ameaça o homem, a humanidade. Os americanos, que há alguns anos escreveram muito sobre a edição novaiorquina de meu romance, não sem razão, viram neste espelho também o seu fordismo. É muito curioso que em seu último romance o conhecido escritor inglês Huxley (2) desenvolve quase as mesmas idéias e situações de enredo que
foram dadas em Nous autres. Drieu de la Rochelle contou-me nestes dias que num encontro com Huxley ele perguntou se Huxley tinha lido Nous autres. A coincidência, é claro, foi casual. Mas tal coincidência indica que estas idéias estão em torno de nós, neste ar pré-tempestuoso que respiramos.

—Outros trabalhos meus? Ei-los: mais seis livros de prosa, seis peças de teatro e seis... quebra-gelos.

— Nomes? Do que — dos livros ou dos quebra-gelos? Comecemos pelos quebra-gelos. Eu construí quebra-gelos na Inglaterra durante a guerra. Minha construção melhor e preferida é o quebra-gelos "Lênin" de 1916-1917, no estaleiro Armstrong. Naquela época eu não suspeitava de que construía um navio com nome tão altissonante: então o quebra-gelos chamava-se "Santo Alexander Nevsky", e somente depois da revolução ele se arrependeu e mudou de nome. É um dos nossos maiores quebra-gelos, um pouco menor do que o "Krassin", porém tem construção mais aperfeiçoada. Recentemente diferentes jornais alemães, americanos e tchecos atribuíram-me o título de construtor do "Krassin". Isto não é bem assim. Eu fui apenas consultor na construção do "Krassin"— que foi construído também na Inglaterra simultaneamente com o "Lênin".

Uma conseqüência desagradável de minha estada de dois anos na Inglaterra foi minha novela Ilhéus — desagradável para os ingleses: eles se ofenderam tanto com esta novela que na Inglaterra foi impossível traduzi-la e publicá-la. Outro meu romance — Au bout du monde publicado na Rússia durante a guerra, pareceu ofensivo para a censura tsarista: a revista que publicou este romance foi confiscada e o livro só saiu depois da revolução. Como vê a profissão de herege é muito difícil, sobretudo em nossa época, em que se exige que o herege não apenas renuncie a seus equívocos, mas também prove imediatamente na pratica que estava errado. Imagine a situação de Galileu que teria de provar que estava errado, isto é, que a Terra não gira! O velho agora estaria numa situação sem saída.

— Não, não esqueci de minhas peças: simplesmente em nossa conversa imiscuiu-se uma terceira pessoa — Galileu. É sobretudo difícil para mim esquecer das peças, por que nos últimos anos eu me dediquei mais ao teatro. E depois, se pelos menos uma vez vimos o público no teatro emocionado com nossa peça, nunca mais esquecemos disto. Sobretudo se isto ocorre agora na Rússia onde ao teatro vai não o público, mas o povo, para o qual só agora abriram-se as portas do teatro, e que tem uma percepção especialmente nova e viva.

De minhas peças duas foram concluídas recentemente e não tive tempo de montá-las antes de viajar ao exterior, uma peça tem problemas com a censura (3) e três peças foram apresentadas nos maiores teatros de Moscou, Leningrado e província. As comédias Sociedade dos tocadores de carrilhão honorários e A Pulga foram as melhores, na minha opinião. "Os tocadores de carrilhão é uma sátira à sociedade inglesa contemporânea, e, como dizem, uma sátira muito mordaz. Pela primeira vez esta peça foi apresentada no palco do antigo teatro Mikhailovsky de Peterburgo, mas, acho que ela foi-melhor representada no Teatro Dramático Russo de Riga, onde esteve por várias temporadas seguidas. A Pulga é uma peça no estilo de comédia popular — ou se quiserem — da commedia dell'arte italiana. Esta peça foi apresentada em 1926 pelo Teatro Artístico de Moscou e desde então está lá pela sexta temporada já. Ambas estas peças foram traduzidas para o francês, e estou em conversações sobre sua apresentação em teatros parisienses (4). Está sendo traduzida para o francês uma de minhas peças Le delegue d'Afrique — uma farsa em três atos sobre a vida soviética.

Quais são agora os grupos literários mais influentes na Rússia? Depende de que influência falar. A maior influência — isto é poder — está em mãos dos chamados "escritores proletários, que seguem a ideologia oficial do partido comunista e, por isso, praticamente têm o direito ao monopólio da crítica literária — uma arma séria. Além dos talentos militares, alguns dos membros desse grupo têm, sem dúvida nenhuma, talentos civil e literário. Se quiser nomes eu posso citar-lhe o dramaturgo Afinoguenov, os romancistas Cholokhv, Lavrukhin e Fadeev. Mas, a maioria dos membros deste grupo trabalha ainda segundo os métodos do naturalismo de antes da revolução. No campo da forma literária avançaram muito mais os autores dentre os chamados "simpatizantes" — "les compagnons" e no sentido literário, naturalmente, eles exercem influência sobre seus vizinhos proletários. Entre os "simpatizantes"o grupo mais interessante e vivo é "Os irmão de Serapião" (V. Ivanov, Fedin, Tikhonov, Kaverin, Zochenko, Slonimski e outros) É agradável para mim assinalar que quase todos eles aprenderam comigo a técnica de nossa profissão: em 1919-1922 junto à Dom Iskusstv de Peterburgo havia um estúdio literário, onde eu dava aulas de técnica da prosa artística. Neste estúdio surgiram os "Irmãos de Serapião", e eu fui seu obstetra literário. Como vê, eu tenho mais uma profissão. Além dos "Irmãos de Serapião", passaram pelo gabinete do meu apartamento de Leningrado muitos e muitos outros jovens escritores.

Qual a situação dos escritores agora na Rússia?

Oh! Lá zelam por eles mais do que em outros países. Pagam-lhes mais, eles recebem muito boa "ration quotidien de vivres et pour comble — ration quotidienne ideologique. Aqui na Europa, parece que há muitos escritores "ayants mil fois" lá temos muitos antípodas: ecrivains n'ayant nul doutes. Esta é, provavelmente, uma condição muito feliz.

Sans blagues? Mas eu falo sério, pelo menos em relação ao grande grupo de escritores que assimilaram total e sinceramente a ideologia oficial. É muito mais difícil a situação dos "simpatizantes" — dos escritores que não são membros do partido, em sua maioria saídos do meio intelectual. Muitos deles agora têm de mudar radicalmente sua psicologia, seus gostos, como dizem entre nós "reestruturar-se". Para alguns isto é muito fácil. Mas não os respeitam nem mesmo aqueles a quem eles servem, eles recebem o apelido depreciativo de "oportunistas". Outros procuram fazê-lo como sinceridade e para estes é um processo difícil, doloroso, que termina às vezes tragicamente. O suicídio de Maiakovski — estou convicto disto — foi um desenlace de tal tragédia. Ele era um grande poeta, inovador, com grande arte formal e indubitável élan lírico. Ele conscientemente cortou de si o lírico — "pisou na garganta da canção" (como ele escreveu em um de seus últimos versos) para se tornar um poeta político. Esta cruel intervenção cirúrgica custou-lhe muito caro. A história de amor (que em sua vida foram muitas) podia, naturalmente, ter sido apenas pretexto, mas não causa de sua morte.

(1) Evidentemente é um erro, o correto é 1908.
(2) Trata-se do romance de A. Huxley Admirável Mundo Novo. Drieu de la Rochelle (1893—1945) — escritor francês, amigo comum de A. Huxley e E. Zamiatin.
(3) Trata-se da tragédia Átila.
(4) Em vida de E. Zamiatin estas peças não foram apresentadas em teatros parisienses.

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AUTOBIOGRAFIA — 1929


Avtobiografii, In Izbrannie proizvedenie v dvukh tomakh, tom 1, str.31—38, Izd. Khudojestvennaia Literatura, Moskva, 1990.
Autobiografia, In Obras escolhidas de Zamiatin E. I. em dois volumes, publicadas em 1990 pela editora Literatura Artística, Vol.1, pp. 31—38.
Traduzido do russo por Clarice Lima Averina


Como buracos numa cortina escura fechada — instantes da minha primeira infância.
A sala de jantar, a mesa coberta com oleado e, na mesa, um prato com algo estranho, branco, brilhante e, maravilha, aquela coisa branca desaparece de repente, não se sabe para onde foi. No prato havia um pedaço do universo desconhecido, exterior, de fora do quarto: trouxeram neve no prato para me mostrar, e esta neve incrível ficou-me até hoje na memória.

Na mesma sala de jantar. Alguém tem-me ao colo diante da janela e lá fora, entre as árvores a esfera vermelha do sol escurece, eu sinto que é o fim e o mais terrível de tudo é que minha mãe ainda não voltou de algum lugar. Depois eu soube que esse alguém era a minha avó e que neste segundo eu estive à beira da morte — tinha então um ano e meio.

Mais tarde, tinha dois ou três anos. Pela primeira vez eu via muitas pessoas, uma multidão. Foi em Zadonsk: meu pai e minha mãe foram lá de carroça e levaram-me. A igreja, a fumaça azul, cânticos, luzes, um epilético a latir como um cão, um nó na garganta. Eis que tudo terminou, empurrões, sou levado pela multidão para fora e fico só na multidão: meu pai e minha mãe não estão lá e nunca mais estarão, estou só para sempre. Sento-me num túmulo qualquer ao sol e choro amargamente. Vivi uma hora só no mundo.

Em Voronej. O rio, uma banheira incomum, estranha para mim e dentro dela (depois lembrar-me-ia disto quando vi ursos brancos em lagos) banha-se um enorme corpo feminino rosado e volumoso — é a tia de minha mãe. Fico curioso e com um pouco de medo: pela primeira vez entendo o que é uma mulher.

Espero à janela, olho a rua vazia, com galinhas mergulhadas na poeira. E finalmente chega nosso tarantás (3), que traz meu pai do ginásio, ele está em cima de um assento grotescamente alto, com a bengala entre os joelhos. Espero o almoço com o coração apertado, mesa abro solenemente o jornal e leio em voz alta as enormes letras "O Filho da Pátria". Eu já conheço esta coisa misteriosa — as letras. Tenho uns quatro anos.

Verão. Cheiro de remédios. De repente minha mãe e minha tia fecham apressadamente a janela, trancam a porta da varanda e com o nariz colado ao vidro vejo: vão levá-los. Um cocheiro com bata branca, a carroça coberta com pano branco, e debaixo do pano pessoas encolhidas a mover pernas e braços: doentes de cólera. O isolamento dos doentes de cólera era na nossa rua, ao lado de nossa casa. Meu coração palpita. Eu sei o que é a morte. Tenho cinco, seis anos.

E, finalmente, uma manhã de agosto suave diáfana. O bater distante e transparente dos sinos do mosteiro. Passo ao lado do jardinzinho diante de nossa casa e sem olhar eu sei: a janela está aberta e olham para mim — minha mãe, avó e irmã. Porque eu, pela primeira vez, vesti calças compridas — "para sair" — e um blusão do uniforme do ginásio, levo uma mochila às costas, vou pela primeira vez ao ginásio. Ao meu encontro o aguadeiro Izmachka agita-se em cima de seu barril e várias vezes olha para mim. Estou orgulhoso. Sou grande. Tenho mais de 8 anos.

Tudo isto entre os campos de Tambov, em Lebedian uma cidade famosa por seus trapaceiros, ciganos, feiras de cavalos, e sua linguagem solidamente russa, sobre a qual escreveram Tolstoy e Turguenev. De 1884 a 1894.


• • •


Adiante o ginásio, cinzento como o pano do uniforme. De vez em quando sobre o cinza uma maravilhosa bandeira vermelha. A bandeira vermelha era colocada na torre de vigilância dos bombeiros e então não significava absolutamente a revolução social e sim o frio de 20 graus negativos. Aliás, esta era a revolução de um dia na vida entediante e programada do ginásio.

A lanterna céptica de Diógenes aos doze anos. A "lanterna" (1) foi acesa por um grandalhão da segunda série e — azul, roxa, vermelha — ficou acesa debaixo de meu olho esquerdo por duas semanas inteiras. Eu rezei para que a "lanterna" se apagasse. O milagre não ocorreu. Comecei a refletir.

Muita solidão, muitos livros, Dostoevsky desde cedo. Até hoje lembro do tremor e faces afogueadas por causa de "Nietotchka Niezvanova". Dostoevsky permaneceria por muito tempo como o mais respeitável e até mesmo temível. Gogol era um amigo (muito mais tarde Anatole France passou a sê-lo também).

A partir de 1986 — o ginásio em Voronej. Minha especialidade, que todos conheciam, era redação em russo. A especialidade, que ninguém conhecia, todas as experiências possíveis sobre mim próprio — para me "temperar".

Lembro-me que na sétima série, na primavera, fui mordido por um cão raivoso. Peguei um manual de medicina qualquer e li que o período comum antes do aparecimento dos sintomas da raiva era de duas semanas. E decidi esperar esse prazo, para ver se tinha ou não pegado raiva — para testar o destino e a mim próprio. Durante essas duas semanas escrevi um diário (o único na vida). Duas semanas depois, não ficara raivoso e comuniquei o fato à direção, que me enviou imediatamente a Moscou para tomar a vacina de Pasteur. Minha experiência terminou bem. Mais tarde, uns dez anos depois, durante as noites brancas de Peterburgo, quando fiquei louco de amor — fiz a experiência com mais seriedade, mas não com mais inteligência.

Deixei o pano cinza do ginásio em 1902. A medalha de ouro foi empenhada por 25 rublos numa casa de penhores em Peterburgo e lá ficou.

Lembro-me do último dia no gabinete do inspetor ("da égua" segundo a hierarquia do ginásio) os óculos na testa, puxando as calças para cima (suas calças viviam caindo) estendeu-me uma brochura. Li a dedicatória: "À minha alma mater da qual só tenho más recordações. P. E. Shegoliev". E o inspetor sentencioso, fanhoso, acentuando a letra "o" (2): "Isso é bom? Também terminou o ginásio com medalha e o que escreve? Está na prisão? Meu conselho: não escreva, não siga este caminho". A lição não ajudou.


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Peterburgo, início dos anos 1900 — Peterburgo de Komissarjevskaia, Leonid
Andreev, Witte, Plevé, trotadores cobertos de rede azul, bondes, puxados a cavalo, estudantes de uniforme e espada e estudantes com paletó azuis de botões do lado. Eu estudava na escola Politécnica, era um daqueles de paletó com botões do lado.
Num domingo branco de inverno na avenida Nevski — multidões escuras e lentas esperavam alguma coisa. A torre da Duma rege a multidão, que não tira os olhos do regente. E quando foi dado o sinal — uma explosão à uma da tarde, na avenida de todos os lados manchas humanas, farrapos da Marselhesa, bandeiras vermelhas, cossacos, garis, policiais. A primeira, para mim, manifestação de 1903. E quanto mais se aproxima 1905 mais febril é o movimento, as reuniões mais ruidosas.
No verão, estágio nas fábricas, a Rússia, os vagões fanfarrões e alegres de terceira classe. Sevastopol, Nijni, as fábricas da região do Kama, Odessa, porto, os maltrapilhos.

Verão de 1905, especialmente azul, multicolor, cheio de gente e de acontecimentos. Eu fazia um estágio no navio "Rossia", que ia de Odessa a Alexandria. Constantinopla, mesquitas, derviches, bazares, o cais de mármore branco de Esmirna, beduínos de Beirute, a ressaca branca de Jaffa, Athos verde-negro, o pestilento Port Said, a África amarela e branca, Alexandria, com policiais ingleses, vendedores de crocodilos empalhados, o famoso Tartuch. Singular, isolada de tudo, a incrível Jerusalém, onde passei uma semana na casa de um árabe conhecido.
Ao retornar a Odessa — a epopéia do motim no "Potemkin". Com o maquinista do "Rossia", empurrado, pisado, embriagado pela multidão, vaguei no porto todo o dia e a noite inteira, no meio dos disparos, incêndios e pogroms.

Naqueles anos ser bolchevique significava seguir a linha da resistência maior, e eu era então bolchevique. Era o outono de 1905, greves, a avenida Nevski cheia de gente, varrida pelo projetor do almirantado, em 17 de outubro, comícios em estabelecimentos de ensino superior.

Certa vez em dezembro à noite veio ao meu quarto na travessa Loman um amigo operário, com orelhas de abano, Nicolai V., com um saco de papel daqueles de pãezinhos da Casa Filipov, no saquinho havia piroxilina. "Deixo com você este saquinho porque os policiais estão atrás de mim" — "Pode deixar". Até agora vejo o saco no parapeito da janela, ao lado de um pacote de açúcar e de salame.
No dia seguinte, no quartel do bairro de Viborg no momento em que na mesa estavam planos, parabelluns, mausers, a polícia, — éramos trinta apanhados na ratoeira —, em meu quarto, à esquerda, no parapeito da janela estava o saquinho de pães da Casa Filipov e panfletos debaixo da cama.

Quando, revistados e espancados, fomos divididos em grupos, eu, junto com outros quatro — fiquei ao lado da janela. Vi na rua, junto ao poste, caras conhecidas, aproveitei um momento para lançar um bilhete pedindo que retirassem do meu quarto e dos outros quatro tudo o que não devia estar lá. Isto foi feito. Mas eu só soube disto mais tarde, então, durante vários meses, na cela da Chpalernaia sonhei só com o saco de pãezinhos da Casa Filipov no parapeito da janela à esquerda.

Na cela apaixonei-me, estudei taquigrafia, inglês e escrevi versos (isto é inevitável). Na primavera de 1906 fui libertado e mandado para minha terra natal.

Não suportei por muito tempo o silêncio, os sinos e os jardinzinhos de Lebedian. No verão, sem autorização fui a Peterburgo, depois a Helsingfors. Um quarto, que dava para a Erdoholmsgatan, e sob a minha janela o mar, os rochedos. À noite, quando mal se viam os rostos, realizavam-se comícios no granito cinza. De madrugada não se viam os rostos, a pedra negra e quente parecia branda — porque ela estava ao lado e os raios dos projetores de Sveaborg eram suaves.

Certa vez, nos banhos, um camarada nu apresentou-me um homenzinho nu, um pouco barrigudo: o homenzinho barrigudo era Kok, o famoso capitão da guarda vermelha. Alguns dias depois a guarda vermelha estava em armas, mal se viam ainda no horizonte os contornos da esquadra de Kronstadt, os esguichos das bombas de doze polegadas que explodiam na água, o rimbombar cada vez mais fraco dos canhões de Sveaborg. E eu disfarçado, escanhoado, com pince-nez, retorno a Peterburgo.

O parlamento no Estado. Pequenos estados dentro do estado — estabelecimentos de ensino superior com seus parlamentos. Conselhos de starostas. A luta dos partidos, propaganda eleitoral, cartazes, panfletos, discursos, urnas. Eu era membro — temporariamente presidente — do conselho de starostas.

Fui intimado a comparecer à delegacia. Na delegacia um papel verde procura-se "o estudante universitário Evgueni Ivanov Zamiatin" para ser banido de Peterburgo. Declaro honestamente que nunca estive na universidade, e que no papel há com certeza um equívoco. Lembro-me do nariz do comissário de polícia — um gancho, um ponto de interrogação: "Hum...Temos de investigar". Enquanto isto eu mudei para outro bairro: lá, seis meses depois, uma nova intimação, o papel verde, "estudante universitário", ponto de interrogação e informações. E assim durante 5 anos, até 1911, quando finalmente o erro no papel verde foi corrigido e expulsaram-me de Peterburgo.


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Em 1908 terminei a faculdade de construção naval do Intituto Politécnico e fui nomeado para a cadeira de arquitetura naval ( a partir de 1911 fui professor dessa disciplina. Juntamente com o projeto de um navio com torre blindada, estavam na minha mesa as páginas de meu primeiro conto, que enviei à revista "Obrazovanie", que era redigida por Ostrogorski. A secção de letras era coordenada por Artsibachev. No outono de 1908 o conto foi publicado. Quando me encontro agora com pessoas que leram esse conto, sinto-me tão embaraçado como quando encontro uma das minhas tias, cujo vestido molhei publicamente, quando tinha dois anos de idade.

Nos três anos seguintes — navios, arquitetura naval, régua de logaritmos, esboços, construções, artigos especiais nas revistas "Teplokhod" "Russkoe Sudovodstvo", "Isvestia Politekhnitcheskogo Instituta". Muitas viagens de trabalho por toda a Rússia: o Volga até Tsaritsin, Astrakhan, Kama, região de Donetsk, Mar Cáspio, Arkhanguelsk, Murman, Cáucaso e Criméia.

Nestes anos, entre esboços e número — alguns contos, que não dei para imprimir, em cada um deles eu sentia que havia ali algo que não correspondia. Encontrei o que faltava em 1911. Neste ano as noites brancas foram incríveis, havia muito branco e muito escuro. Nesse ano tive o exílio, uma doença grave e meus nervos cederam, Inicialmente vivi numa casa de campo vazia em Sestroretsk, depois, no inverno, vivi em Lakhta. Ali — a neve, solidão, silêncio — escrevi "Provinciana", aproximei-me do grupo "Zaveti" de Remizov, Prichvin, Ivanov-Razumnik.

Em 1913, tricentenário da dinastia Romanov, obtive o direito de viver em Peterburgo. Agora eram os médicos que me mandavam embora de Peterburgo. Fui para Nicolaev, construí lá algumas escavadoras, escrevi alguns contos e a novela "Nos cafundós do Judas". A revista Zaveti que a publicou foi censurada e apreendida, a redação e o autor foram chamados à responsabilidade penal. Julgaram pouco antes da revolução de fevereiro e absolveram.

O inverno de 1915-1916 novamente tempestuoso e febril terminou com desafio para um duelo em janeiro e em março partida para a Inglaterra.

Até então no Ocidente estivera apenas na Alemanha, Berlim pareceu-me condensada — 80% de Peterburgo. Na Inglaterra foi diferente: tão novo e tão estranho como em outros tempos em Alexandria , em Jerusalém.

Ali inicialmente o ferro, máquinas, esboços: construí quebra-gelos em Glasgow, New Castle, Senderland, Sowsheeds (aliás um dos maiores quebra-gelos é o "Lênin"). Os alemães lançam bombas de zeppelins e aeroplanos. Eu escrevi Os Ilhéus.
Quando nos jornais apareceram em letras grandes Revolution in Rússia, Abdication of Russian Tzar, não agüentei mais ficar na Inglaterra e em setembro de 1917, a bordo de um velho naviozinho inglês (se os alemães o afundassem, não se perdia muito), eu voltei para a Rússia. Navegamos durante muito tempo até Bergen, umas cinqüenta horas, com as luzes apagadas, com coletes salva-vidas e chalupas prontas.

Inverno alegre e terrível de 1917—1918, quando tudo se moveu, se perdeu no desconhecido. Navios, casas, fuzilamentos, buscas, plantões noturnos, comitês de bairro. Mais tarde, ruas sem bonde, longas filas de pessoas com sacos, dezenas de verstas por dia, burjuikas (4) arenques, aveia moída em moinho de café. E ao lado da aveia mirabolantes planos de publicar todos os clássicos de todos os tempos e todos os povos, unir todos os representantes de todas as artes, apresentar no teatro toda a história de todo o mundo. Não havia tempo para desenhos técnicos, a técnica prática secou e caiu de mim como uma folha amarela (da técnica restou apenas o ensino no Instituto Politécnico). Simultaneamente , um curso de literatura russa contemporânea no Instituto de Pedagogia Guertsen (1920-1921) um curso de técnica de prosa artística no Estúdio da Casa de Artes, trabalhava no conselho de redação da "Literatura Universal", na direção da União Russa de Escritores, no Comitê da Casa dos Literatos, no Conselho da Casa de Artes, na Secção dos filmes históricos PTO, na editora de Grjebin, "Alkonost", "Petrópolis", "Misl", na redação das revistas "Casa das Artes", "O Ocidente Moderno", "O contemporâneo russo". Durante estes anos escrevi relativamente pouco. Entre as coisas mais importantes o romance"Nós, publicado em inglês em 1925, depois em tradução para outras línguas, este romance ainda não foi publicado em russo.

Em 1925 traição à literatura: teatro, as peças A Pulga e a Sociedade dos tocadores de carrilhão honorários. A Pulga foi apresentada pela primeira vez no palco do Teatro Acadêmico Artístico de Moscou em 2 de fevereiro de 1925, a Sociedade dos tocadores de carrilhão honorários em novembro de 1925 no Grande Teatro Mikhailovski em Leningrado. A nova peça — a tragédia Átila foi concluída em 1928. Em Átila cheguei aos versos. Impossível ir mais além, volto ao romance e contos.
Penso que se em 1917 não tivesse voltado da Inglaterra, se não tivesse vivido todos estes anos junto com a Rússia não poderia mais escrever. Vi muita coisa: em Peterburgo, em Moscou, na periferia em Tambov, nas aldeias perto de Vólogda, Pskov, em vagões de carga.

Assim se fechou o círculo. Ainda não sei, não vejo quais serão doravante as curvas de minha vida.


(1) N.T. A palavra "lanterna" na gíria significa "olho roxo"
(2) N.T. Em russo a letra "o" não acentuada é lida quase que como um "a" em muitas regiões.
(3) N.T. Tarantás é uma espécie de carruagem coberta, com quatro rodas.
(4) N.T. Uma espécie de aquecedor de ambiente, constituído de um barril metálico com uma chaminé, dentro do qual acendiam fogo.

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SOBRE A TRADUTORA

Clarice Lima Averina é paulista. Aprendeu russo em Moscou, onde concluiu a Faculdade de História, da Universidade da Amizade dos Povos. Nós é o quarto livro por ela traduzido do idioma russo. Traduziu também Oriente e Ocidente, História do proletariado brasileiro, de Boris Koval e Bíblia para crentes e não-crentes de Emelian Iaroslavsky, estes dois últimos publicados pela Alfa-Omega.

Trabalhou como tradutora, durante 17 anos, na redação da América Latina da Rádio Moscou Internacional. Durante o tempo em que viveu em Moscou (mais de 20 anos) fez diversos trabalhos de tradução e versão, de contos, filmes, e artigos sobre diferentes temas. No ano de 2000 foi nomeada, pela Junta Comercial do Estado de São Paulo, tradutora pública e intérprete comercial, tendo conseguido o quarto lugar no concurso da JUCESP (os três primeiros colocados eram russos).

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QUARTA CAPA

Muito mais do que uma obra política, Nós insurge como um corajoso ataque ao totalitarismo que com suas mãos de ferro viola os direitos individuais, corrompe as relações humanas, usurpa a liberdade do livre-pensar e agir, destrói a criatividade e violenta a arte em nome de idéias equivocadas sobre um suposto bem comum.

É ainda um grito em defesa da liberdade do homem; um alerta, para um perigo eminente: Cuidado! Querem fazer-nos acreditar na segurança da não-liberdade.
Original, dono de aguçada percepção e imaginação, Zamiatin, numa narrativa surrealista, permeada pela ironia — combinando realidade e irrealidade, acontecimentos trágicos e risíveis, fazendo uso de uma linguagem contida, propositalmente disciplinada; preocupado com a liberdade de escolha, com o querer e o criar — profetiza a desumanização, os pensamentos e as ações programadas, a banalização das necessidades do homem, a repressão das emoções, o extermínio dos que estão em desacordo com a ordem imposta, a produção de autômatos, as lavagens cerebrais, a destruição daqueles que lutam para manter vivas imaginação e originalidade.

A história em Nós, fala das causas e de como se articula e acontece uma revolução num tempo futuro, num espaço cercado por muros, onde os membros da sociedade, constantemente vigiados pelos Guardiões, habitam casas de paredes de vidro, não recebem nomes, mas números; são obrigados a reverenciar ritualmente o Benfeitor e sua Máquina, têm pensamentos e atitudes condicionados, executam trabalhos mecânicos, e suas vidas particulares e sociais são programadas e controladas por um governo autoritário, o Estado Unificado. O controle e as programações vão mesmo até seus encontros íntimos transformados em impessoais, com horários e locais estipulados, entre indivíduos (números) previamente registrados.

Temas, situações e conceitos encontrados em Nós (escrito em 1920-21) — aqui, numa tradução precisa de Clarice Lima Averina, a partir da primeira edição russa, de 1988 — inspiraram alguns escritores como Aldoux Huxley em Admirável mundo novo (de 1932) e George Orwell em 1984 (de 1949).

Nós é uma contribuição notável e pioneira de Zamiatin à discussão da utopia, tema mais do que presente na literatura russa.

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ISBN 85-295—0044-X
Código de Barras: 9 788529 500447
Capa: Antônio do Amaral Rocha
Ilustração: Paul Klee, Italienische Stadt, 1928
212 pp. - R$ 46,00





PREFÁCIO DA EDIÇÃO RUSSA

Título original: MI, in Utopiia i Antiutopia XX Vieka Vietsher b 2217 Gadu Ruskaia Litieraturnaia Utopiia Isdalistivo Progress Moskva — 1990

EVOLUÇÃO DA LITERATURA UTÓPICA RUSSA
Por Viatcheslav Chestakov

Tradução de Clarice Lima Averina

Na história da literatura, os romances e novelas utópicos sempre desempenharam um grande papel, por serem uma das formas de conscientização e avaliação da representação do futuro. Partindo, via de regra, da crítica do presente, a utopia descrevia o desenvolvimento ulterior da sociedade, seus possíveis caminhos, esboçava variantes do futuro. Até hoje conserva-se esta função da literatura utópica, apesar do rápido desenvolvimento da futurologia e popularidade da ficção científica, que também procuram conhecer o futuro.

A literatura utópica mundial é muito ampla. No decurso de sua história ela passou por períodos de ascensão e decadência, êxitos e fracassos. Às vezes os autores de obras utópicas criavam obras claramente fracas no sentido artístico e cognitivo. Mas, ao mesmo tempo, foram criadas obras-primas, tais como Utopia, de Tomas Morus ou Cidade do sol, de Campanella, que até hoje são modelos do pensamento e criação utópicos.

Hoje é difícil imaginar um panorama geral da História sem as obras utópicas. Como disse Oscar Wilde, não vale a pena olhar o mapa da terra que não mostra a utopia, pois esse mapa ignora o país, que a humanidade procura incansavelmente. O progresso é a realização de utopias.

O termo utopia teve origem no nome da fantástica ilha imaginária no famoso livro de Tomas Morus. Este termo vem do grego "u" — "não" e "topos" — "lugar". O significado literal do termo utopia é: lugar que não existe.

Existiram também outras versões deste conceito, em particular originária do grego "eu" — "perfeito", "melhor" e "topos" — "lugar", isto é lugar perfeito, país da perfeição. Ambas interpretações desta palavra estão amplamente representadas na literatura utópica. Lembremos os nomes de conhecidas obras utópicas, como Notícias de lugar nenhum de William Morris, Erewhon (anagrama de nowhere) de Samuel Butler ou Cidade do sol de Tommaso Campanella, ou ainda, Admirável mundo novo de Aldous Huxley (este último título encerra, é verdade, franca ironia) etc.

Na literatura contemporânea são utilizados também outros conceitos, relacionados com o termo utopia e originários da raiz "topos". É — "distopia" do grego "dis" — "ruim" e "topos" — "lugar", isto é, lugar ruim, algo diametralmente oposto à utopia como mundo perfeito, melhor, empregado para designar o gênero literário especial, a chamada utopia negativa, também oposta à utopia tradicional, positiva.

Desse modo o termo utopia é agora complexo e de significado múltiplo. Entretanto, apesar de toda a variedade de nuances de significado, a função fundamental e tradicional desse termo é designar um país imaginário com a finalidade de servir de exemplo de regime social.

No decurso da História a utopia, como uma das originais formas de consciência social, teve características como interpretação do ideal social, crítica social, exortação a fugir da realidade sombria, e também tentativas de antecipar o futuro da humanidade. A utopia literária entrelaça-se estreitamente com as lendas da "Idade de Ouro" das "ilhas dos bem-aventurados", com diferentes concepções e ideais religiosos e éticos. Na época do Renascimento a utopia adquiriu, preponderantemente, a forma de descrição de Estados perfeitos ou cidades ideais, que existiriam em algum lugar da terra, via de regra, em algum ponto distante do globo terrestre, em ilhas inacessíveis, debaixo da terra ou em montanhas. A partir do século XVII torna-se popular uma forma especial de utopia literária: o chamado romance estatal, que contava sobre viagens a países utópicos e continha, antes de mais nada, a descrição de seus regimes estatais. Ao mesmo tempo difundiram-se amplamente diferentes projetos e tratados utópicos.

Na História existiram os mais variados tipos de pensamento utópico, que refletiam os interesses de diferentes classes e camadas sociais. Existiram utopias escravistas (utopias de Platão e Xenofonte) utopias feudais, por exemplo: A cidade de Deus, de Santo Agostinho e Cristianópolis, de Andréas, numerosas utopias burguesas e pequeno—burguesas. Muitas obras utópicas foram dedicadas não a regimes sociais em geral, mas propunham a solução de determinados problemas sociais: tratados sobre a "paz eterna" difundidos nos séculos XVI—XIX (Erasmo de Roterdam, Saint—Pierre, Kant, Bentham); utopias pedagógicas, ético-morais e estéticas (Jan Amos Komensky, Jean Jacques Rousseau, Lev Tolstoy, Friedrich Schiller); utopias técnico-científicas (Francis Bacon) e outros.

Entre utopias, diferentes por seu conteúdo social, destaca-se mais claramente o socialismo utópico, que expressava os ideais das massas trabalhadoras oprimidas, fundamentava as idéias da igualdade e justiça social. Na literatura do socialismo utópico existiam, por sua vez, diferentes orientações, que se distinguem umas das outras por seu significado social e maturidade teórica dos ideais socialistas. O socialismo utópico clássico do século XIX foi uma das fontes do marxismo.

Os clássicos do marxismo, assinalando a limitação histórica do socialismo utópico, valorizaram altamente seu papel como prognóstico. "O socialismo teórico alemão nunca esquecerá que se apóia nos ombros de Saint-Simon, Fourier e Owen, três pensadores, que, apesar do caráter utópico e fantástico de suas doutrinas, estão entre as maiores inteligências de todos os tempos e que anteciparam genialmente inúmeras verdades, cuja correção nós agora provamos cientificamente" (1).

Como forma de fantasia social, a utopia baseia-se, no fundamental, não em métodos científicos e teóricos do conhecimento da realidade, mas na imaginação. A isto está relacionada uma série de particularidades da utopia, inclusive tais como afastamento intencional da realidade, anseios de reconstruir a realidade segundo o princípio: "tudo deve ser ao contrário", livre passagem do real ao ideal. Na utopia sempre está presente a hiperbolização do princípio espiritual, nela destina-se um lugar especial à ciência, à arte, educação, legislação e outros fatores da cultura. Com o surgimento do comunismo científico, o significado cognitivo e crítico da utopia positiva começa a cair gradualmente.

Adquire grande significado a função de crítica da sociedade, antes de mais nada, burguesa, assumida pela chamada utopia negativa, novo tipo de utopia literária, que se formou da segunda metade do século XIX. A utopia negativa ou anti-utopia diferencia-se em muito da utopia clássica positiva. As utopias clássicas tradicionais significavam uma idéia figurada do futuro ideal e desejável. Na utopia satírica, utopia negativa, romance-advertência descreve-se não o futuro ideal mas o futuro indesejável. A imagem do futuro é parodiada, criticada. Isto não significa, naturalmente, que com o surgimento das utopias negativas, desaparece ou desvaloriza-se o próprio pensamento utópico, como supõe, por exemplo, o historiador inglês Chad Walsh. Em seu livro Da utopia ao pesadelo, ele escreve: "Uma porcentagem cada vez menor do mundo imaginário é utopia, uma porcentagem cada vez maior dele são pesadelos. A anti-utopia ou utopia no avesso foi, no século XIX, uma moldura insignificante da produção utópica. Hoje ela é o tipo dominante, se já não se tornou predominante estatisticamente". (2)

Na realidade, a utopia negativa não elimina o pensamento utópico, mas apenas o transforma. Ela, na nossa opinião, herda da utopia clássica a capacidade de prognóstico e crítica social. Naturalmente que a anti-utopia é um fenômeno contraditório e heterogêneo, no qual se encontram traços tanto conservadores como progressistas. Mas, nas melhores obras desse tipo surgiram novas funções ideológicas e estéticas — advertir sobre as conseqüências indesejáveis do desenvolvimento da sociedade burguesa e seus institutos.

O surgimento das anti-utopias é um fenômeno pan-europeu. Ele é observado, em essência, simultaneamente em quase todos os países da Europa Ocidental, em particular na Inglaterra, Alemanha e França.

É digno de nota o fato de que a Inglaterra, pátria das utopias positivas, é também pátria da utopias negativas, utopias-advertências. Entre as primeiras anti-utopias estão Raça futura, de Bulver Litton (1870); Erewhon, de S. Butler (1872); Através do zodíaco de Persi Greg (1880); A máquina pára, de E. M. Forster (1911) e outras.
Na Alemanha, entre as primeiras anti-utopias, destaca-se o romance de M. Konrad, Na escuridão purpúrea (1895). Nele descreve-se a Europa do século XXX. Konrad desenha um quadro sombrio do futuro. Guerras intermináveis que dilaceram a Europa, no final leva à guerra mundial e ao desaparecimento de toda a cultura européia.

Elementos da utopia negativa refletem—se na obra multilateral de Herbert Wells — nos romances A guerra dos mundos e A guerra no ar. "Os romances de ficção científica social de Wells" — escreveu em 1922 o escritor russo Evgueny Zamiatin — "diferenciam-se das utopias assim como O + A diferencia—se do —A; não são utopia, na maioria dos casos são panfletos sociais, vestidos na forma artística de romance de ciência ficção". (3) Motivos da anti-utopia são próprios também dos romances A ilha dos pingüins, de Anatole France e O tacão de ferro, de Jack London. O próprio desenvolvimento da literatura utópica, sua evolução quanto ao gênero e conteúdo não podiam deixar de influir sobre a interpretação semântica do termo utopia, tanto na teoria sociológica como na própria prática literário-artística. Não é por acaso que hoje a utopia não é apenas a representação ideal do futuro. É descrição do futuro possível, tanto desejável como indesejável. Sendo que as utopias literárias, diferentemente dos prognósticos sociais ou projetos futurológicos, com freqüência são romances ou novelas de enredo empolgante; são, via de regra, composições no gênero romance de aventuras, viagens ou ficção científica.

A ficção científica é importante elemento da utopia. Os autores de romances utópicos sempre usaram métodos de descrição fantástica. Mas, no entanto, a utopia como gênero de arte tradicional é bastante definido, diferencia-se da literatura fantástica ou ficção científica contemporânea, que nem sempre se ocupa da construção de possível imagem do futuro. A utopia diferencia-se também das lendas populares sobre "um futuro melhor", porque ela, no final das contas, é gerada pela consciência individual. Distingue—se a utopia também da sátira (apesar de, com freqüência, incluir o elemento satírico) porque critica, via de regra, não apenas um elemento concreto, mas o próprio princípio do regime social. Finalmente ela se distingue também dos projetos futurológicos, porque é uma obra de arte, que não leva a determinado equivalente social e sempre encerra simpatias e antipatias, gostos e ideais do autor.

Cada país deu e dá sua contribuição ao tesouro do pensamento utópico. O catálogo mundial da literatura utópica no período do século XVI ao século XIX tem cerca de mil títulos. Entretanto, também posteriormente, a utopia não desaparece. Por exemplo, na Inglaterra, na primeira metade do século XX, surgiram cerca de 300 obras de conteúdos utópicos, dezenas de utopias foram criadas no início do século XX na Alemanha, nos EUA, somente no período de 1887 a 1900 foram escritas mais de 50 utopias.

Na história da literatura russa existe também uma tradição bastante sólida de criação de composições utópicas, ligada a nomes tais como Sumarokov, Radishev, Odoevsky, Tchernichevsky, Dostoiévsky, Saltikov Shedrin e outros.

A utopia literária russa perde em quantidade para a européia ocidental. Na Europa o gênero da utopia é mais antigo e mais popular. A utopia surge praticamente na aurora da literatura européia, pode-se dizer que ela começou com Platão. Na Rússia a utopia surge no século XVIII — na época da criação da literatura da idade moderna. Em compensação, a partir desse período, ela se desenvolve ativamente, correspondendo às necessidades do pensamento social russo. No entanto, a utopia russa é menos conhecida do que a européia ocidental. Esta circunstância pode ser explicada por duas causas. Em primeiro lugar a utopia russa nem sempre se encontrava em uma obra independente, muitas vezes se dissolvia em obras literárias de outros gêneros: romances sociais, contos fantásticos (por exemplo, motivos utópicos na Viagem de Petersburgo a Moscou de Radishev). Em segundo lugar, pesquisadores russos e estrangeiros não deram atenção suficiente a este tema. Mais do que isto, alguns deles acham que na Rússia a utopia como gênero de arte em desenvolvimento conseqüente, ou não existiu, ou teve caráter de imitação e era insignificante no sentido literário.

Hoje semelhante opinião é considerada arcaica e errônea. A atenção para com a literatura utópica russa surgiu nos últimos anos. Há fundamentos para afirmar que a literatura russa é mais rica em composições utópicas do que se pensa. Sendo que estas composições são variadas tanto por seu conteúdo social como por suas características de gênero. Aqui nós encontramos tanto utopias no espírito do "romance estatal", popular no século XVIII como utopias dezembrista, educativas, eslavófilas e obras no espírito do socialismo utópico, e sátiras utópicas, que anteciparam o gênero da "utopia negativa", que se tornou popular na segunda metade do século XIX e início do século XX e outros tipos de literatura utópica.

As utopias socialistas surgiram na consciência popular ainda na antiga Rússia. Elas tinham caráter de esperanças ou tradições, como por exemplo, a lenda sobre Aventuras de Agapia no paraíso ou Visita de Zocima aos rakhmanos. Entretanto as primeiras utopias literárias, no sentido pleno da expressão, surgiram na Rússia no século XVIII. Então surgiu também um grande interesse pelas utopias européias, que eram traduzidas para o russo. Assim, na segunda metade do século, foram publicadas duas edições da Utopia de Tomas Morus (é verdade que a edição de 1789 foi queimada por ordem de Catarina II), traduções de romances utópicos de L. Goldberg, D. Ramsay, F. Fenelon, B. Fontenele e outros. Inicialmente as novelas e romances utópicos russos usavam amplamente métodos e enredos literários das utopias européias. Entretanto, imitadores na forma, eles sempre refletiram a vida social russa, referindo-se a problemas da realidade russa.

A maioria das utopias européias tratava de viagens ou visita inesperada a um país desconhecido, não assinalado nos mapas geográficos. Mikhail Sherbatov assimila este enredo tradicional, por exemplo, ao descrever sua "terra de Ofir" (Viagem à terra de Ofir). Porém, na literatura russa, com maior freqüência, fala-se do futuro, que o herói vê em sonhos. Claro que nem todos os sonhos podem ser considerados utopia, mas só aqueles que permitiam ao escritor dar uma olhada no futuro. Nisto se baseia o conto de Sumarokov "O sonho da sociedade feliz", a notável descrição do sonho da novela de Radishev Viagem de Peterburgo a Moscou, o Sonho de Ulibichev, o quarto sonho de Vera Pávlovna do romance Que fazer?, de Tchernichevsky, "O sonho do homem engraçado" de Dostoiévsky e outros.

Por que justamente o sonho tornou-se o meio narrativo tradicional na literatura utópica russa? Em certo grau, pelo visto isto se explica pela censura da literatura russa. Pois as descrições utópicas do futuro sempre foram uma forma perigosa de literatura, pois se referiam a muitos problemas sociais agudos. A censura controlava rigorosamente e com freqüência proibia muitas narrativas utópicas. Não foi por acaso, que Catarina II ordenou queimar Utopia de Tomas Morus! O sonho era outra coisa. Pois ele era uma forma convencional e não-obrigatória de representação do futuro. O autor não pode ser responsabilizado pelo que sonha. Existia também outra causa, talvez mais significativa.

O escritor e pensador russo, talvez mais do que seu confrade europeu, sentia a diferença entre o ideal e a realidade. Aquilo que o autor e filósofo europeu achava possível já no processo de criação próxima (o viajante que contava com detalhes concretos sobre uma sociedade que existia na realidade) para o utopista russo parecia um grande sonho, realizável apenas em um futuro muito distante.

Em 1858, Aleksandr Guertsen publicou em Londres duas obras Sobre danos aos costumes na Rússia, de Sherbatov e Viagem de Peterbugo a Moscou de Radishev. Não foi por acaso que ele publicou estas duas obras, pois elas eram, em essência documentos do pensamento crítico e radicalismo político. Entretanto em seu prefácio à edição, Guertsen assinalou as diferenças substanciais na posição política de Sherbatov e Radishev.

"O príncipe Sherbatov e Radishev" — escreveu ele — "representam concepções extremas da Rússia dos tempos de Catarina. Tristes sentinelas em duas portas diferentes, eles, como Jano, olham para lados opostos. Sherbatov, dando as costas para a corte dissoluta de seu tempo, olha para a porta em que entrou Pedro I e atrás dela vê a Rússia moscovita cerimoniosa e arrogante, e o velho descontente acha que o modo de vida entediante e semi-selvagem de nossos ancestrais é um ideal perdido."

É totalmente diferente a posição de Radishev, para o qual o ideal é o futuro e não o passado. Radishev olha para frente, sente a influência dos últimos anos do século XVIII. Nunca o peito humano esteve tão pleno de esperanças do que na grande primavera dos anos noventa... Radishev está muito mais próximo de nós do que Sherbatov; é claro que seus ideais estavam tão alto no céu como os ideais de Sherbatov estavam profundamente no túmulo; mas eles eram nossos sonhos, sonhos dos dezembristas. Esta ligação "interna" refletiu-se, além de outras coisas, no fato de que os dezembristas, como Radishev, trataram da utopia literária como arte que permite unir a crítica social do presente com uma olhada para o futuro.

Entre as utopias dezembristas estão, antes de mais nada, a novela Sonho de Aleksandr Ulibichev, que aderiu aos dezembristas, e as Cartas européias, de Vilguelm Kiukhelbeker. As últimas foram escritas em nome de um americano, viajando pela Europa no século XXVI, e tecendo considerações sobre o passado e presente dos países europeus. Ele comunica que a Europa naquele tempo "envelheceu", países tais como a Itália e Espanha entraram em decadência, Paris e Londres desapareceram da face da terra. "A providência tirou-lhes a luz, mas somente para ordenar ao sol da verdade brilhar melhor sobre a Ásia, sobre a África, sobre a sucessora natural da Europa — a América".

Como assinalou Iury Tinianov, que pesquisou a obra de Kiukhelbeker, não foi por acaso que ele recorreu à América, isto representava a idéia do futuro da Rússia. Kiukhelbeker, futuro dezembrista, tinha desenvolvido o sentido do grande futuro histórico que sua pátria tinha pela frente e a fé firme no "aperfeiçoamento do ser humano". Sua "América" é a futura Rússia do dezembrista; ele relaciona com ela a juventude e significado de seu país, em comparação com o qual a Europa envelheceu.

Na segunda metade do século XIX surge na literatura russa uma série de obras, notáveis por seu conteúdo sócio-filosófico e nível estético, que tinham motivos utópicos e realizavam os princípios artísticos da utopia. E aqui se deve citar em primeiro lugar obras de Dostoiévsky. A idéia da "Idade de Ouro" da humanidade sempre emocionou o escritor. Dostoiévisky torturava-se com a questão: será possível ao homem voltar-se para a vida natural e beleza idílica, que está relacionada com a imagem da "Idade de ouro", ou a catástrofe o espera — se não o extermínio físico direto, pelo menos a queda de todos os valores morais e culturais. A idéia da "Idade de Ouro" soa já nos devaneios de Raskolnikov no romance Crime e castigo e no conto "O sonho do homem engraçado".

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É digna de nota, por exemplo, a novela do jornalista peterburguense Nicolai Fiodorov, Noite de 2217.

Assinalamos que muitos momentos da utopia negativa de Fiodorov podem ser explicados pela influência da utopia de Bellani, Olhando para trás. Não é por acaso que tanto nele, quanto em Belanni figura o Exército do Trabalho. O trabalho sem alegria reduz-se a operações mecânicas, sem conteúdo. A população é dividida em centenas e milhares, sendo que cada deve portar seu número de trabalho.

Não apenas a vida particular, mas também, a social é subordinada a padronização. Até mesmo as relações humanas íntimas, como o amor, são subordinadas a um único objetivo — reprodução de uma prole saudável e perfeita. A família não existe, ela desapareceu há muito tempo como resquício romântico e ridículo.

A novela de Fiodorov é típica do gênero da anti-utopia. Seu conteúdo mesmo em detalhes lembra algumas utopias negativas posteriores.

A utopia de Fiodorov é dirigida contra as idéias de ultra-esquerda em relação ao futuro. São, em essência as idéias que habitualmente associamos com o "comunismo de quartel".

Fiodorov contrapõe à negação do indivíduo, à idéia de socialização absoluta (que subordina até mesmo as esferas mais recônditas do ser) o ideal da "vida normal", da família, dos sentimentos humanos naturais.

Temas, relacionados com a utopia, aparecem com freqüência cada vez maior na obra de conhecidos escritores russos.

Valeri Brussov escreve algumas obras utópicas. Entre elas A terra, A República do Cruzeiro do Sul, As sete tentações terrenas. Aqui o leitor encontra descrições impressionantes do progresso técnico-científico: edifícios altos, carros e dirigíveis elétricos e até mesmo iluminação radioativa.

Deve-se assinalar que na obra de Brussov predomina a utopia negativa. No espírito da anti-utopia Brussov descreve o futuro em sua novela A República do Cruzeiro do Sul.

A polarização, característica da vida social e política da Rússia do inicio do século contribuiu também para a polarização no campo da utopia literária e como resultado demarcaram, com bastante precisão, as linhas divisórias entre as utopias democráticas e conservadoras.

Um exemplo típico da última foi a novela utópica de Serguei Chaparov Dentro de meio século (1902). Em sua descrição, a Rússia permanece um império, é governada por um tsar, senado e Conselho de Estado. O poder local concentra-se nas mãos da nobreza e do clero.

Outro pólo da literatura utópica daquela época é representado pela utopia socialista de Alexander Bogdanov. Ele escreveu dois romances utópicos A estrela vermelha (1908) e sua continuação, O engenheiro menni (1911).

No romance A estrela vermelha Bogdanov descreveu a sociedade do futuro, baseada nos princípios comunistas, que o protagonista, revolucionário profissional, encontra em Marte.

O romance A estrela vermelha tinha a finalidade de fazer propaganda e popularizar os ideais comunistas. Não foi por acaso que seu leitor atento foi Lênin, que, apesar de ter uma atitude negativa em relação as obras filosóficas de Bogdanov, revelou grande interesse por sua utopia A estrela Vermelha.

O desenvolvimento da utopia literária na Rússia não foi apenas um fato da história. A Revolução de Outubro aproximou as fronteiras da fantasia e da realidade.

A construção da sociedade socialista, e, às vezes, a crença ingênua na possibilidade de intervenção dirigida na marcha objetiva da história deram forte impulso para o desenvolvimento da literatura utópica e de ficção científica. A partir dos anos 20 a utopia tem amplo desenvolvimento.

A utopia soviética assimilou as tradições da literatura utópica russa, que se delinearam já no final do século XIX, início do século XX, por um lado a tendência para a utopia socialista, própria da literatura russa, e por outro — a anti-utopia.
E. Zamiatin indicou esta circunstância no livro Herbert Wells (1922) onde apresenta uma resenha da literatura utópica, não apenas ocidental, mas também russa.

A vida petrificada da Rússia antes da Revolução quase não apresenta, e não poderia apresentar exemplos de literatura social e de ficção científica.

Praticamente os únicos representantes deste gênero, em passado recente de nossa literatura, foi o conto "Sol líquido" de Kuprin, o romance de Bogdanov A estrela vermelha que tem um significado mais propagandístico do que artístico e se voltarmos mais, temos Sen Kovsky e Barão Brambeus. A Rússia pós-revolucionária, que se tornou o mais fantástico de todos os países da Europa contemporânea, reflete, sem dúvida nenhuma, este período da história da literatura de ficção científica.

Deram início a isto os romances de Alexcei Tolstoi Aelita e Hiperboboloide do engenheiro Garin, o romance Nós, os romances de Iliá Erenburgo Julio Jurenito e Trust D. E. (4)

Em muitos romances utópicos e de ficção sócio-científica dos anos 20: O país de Gonguri de V. Itinm, O mundo futuro, de I. Okunev, A luta do éter, de A. Beliaev, Dentro de mil anos, de V. Nikolsky, A terra dos felizes, de Y. Larri e outros existem tentativas de descrever o porvir como futura vitória da sociedade comunista em todo o mundo. Entretanto a imagem social do futuro neles, via de regra, resumiu-se a prognósticos técnico-científicos, a previsões futurológicas.

Depois da grande ascensão e desenvolvimento da literatura utópica nos anos 20, ocorreu uma brusca queda e a partir dos anos 30 as utopias raramente surgem nas livrarias. O desenvolvimento da ficção científica contribuiu em muito para o renascimento deste gênero.

Existem muitos pontos de vista diferentes sobre o grau de correlação das obras de ficção científica e utopias.Uns literatos consideram que a ficção científica moderna, em suas pesquisas, está organicamente li