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Mercados soberanos
Globalização, poder e nação

André Araújo

Aprenda como funciona o império dos mercados



ANDRÉ ARAÚJO

Entrevista com o Autor

Pergunta: Qual é a tese central de seu novo livro sobre os mercados e a globalização?


André Araújo: Tento mostrar como o processo de substituição dos Estados pelos mercados levou os países em desenvolvimento a um impasse no crescimento, criando uma inédita estagnação da economia, concentração de renda, miséria e exclusão social.



Pergunta: Na sua visão, por que isso ocorreu e quando começou o processo?


André Araújo: Os vastos territórios fora do Grupo dos Sete compreendem 90% da população mundial. É da expansão do mercado financeiro para essas regiões que vêm o dinamismo e o bem estar das economias maduras, através das elevadas taxas de risco e da alta rentabilidade proporcionada pela manipulação das economias fragilizadas e carentes de liquidez. O processo iniciou-se, historicamente, a partir do Governo Thatcher, na Inglaterra (1979), influenciando o Governo Reagan, nos Estados Unidos, o qual absorveu o neoliberalismo vindo da Inglaterra e consolidado no fim dos anos 80 com a queda da União Soviética e a conseqüente eliminação do risco político do capitalismo financeiro.



128 pp. - R$ 26,00
ISBN 85-295-0021-0
Cod. barras: 9 788529 500218


Pergunta: Não é o neoliberalismo, porém, um fenômeno natural do atual ciclo histórico?

André Araújo: O neoliberalismo não é uma verdade científica, mas uma grosseira ideologia de dominação política. A roupagem acadêmica de fenômeno inevitável é apenas a moldura para um fato do campo da "Realpolitik", ou seja, do jogo pesado das relações internacionais. É muito mais Política do que Economia.


Pergunta: Todavia, não é impossível, a um país, a não-participação da globalização?

André Araújo: O que se chama globalização é, na verdade, uma política dos grandes países com moedas conversíveis (o G-7) , para obrigar todos os outros - mais fracos economicamente - a abrirem seus mercados de bens e serviços, principalmente na área financeira. A forma da participação de cada país depende da força e consistência de sua liderança política. Quatro grandes países continentais têm massa crítica para ditar suas próprias regras de inserção no processo de globalização, ou se preferirem, para manter sua integridade de fronteiras fechadas, pois podem crescer a partir de seu mercado interno. São eles a Rússia, a China, a Índia e o Brasil.


Pergunta: Então a abertura econômica não traz o crescimento?

André Araújo: Essa é a mercadoria vendida pelos neoliberais, mas nunca será entregue. A abertura dos mercados ao sistema financeiro internacional tem sido um desastre total àqueles países que mais se abriram: Argentina, Indonésia, Equador, Brasil e Peru. Salvaram-se, com altas taxas de crescimento, os que preservaram seu controle sobre o câmbio e sobre o comércio exterior , ou sejam, a Índia e a China. A prova dos nove do sucesso das políticas econômicas é o crescimento do P.I.B. A segunda prova é o bem estar social e a distribuição de renda. Por essas medidas, as aberturas de mercado são desastres históricos. O Plano Real reduziu o P.I.B. de US$ 800 bilhões, em 1994, para US$ 530 bilhões, em 2001. Ao mesmo tempo, a dívida externa triplicou, a interna aumentou dez vezes e o patrimônio público foi quase todo vendido. Poucas vezes a história econômica registrou desastre maior. Ao basear toda a economia no setor externo, o Plano Real alienou a capacidade decisória do Estado Brasileiro e neutralizou sua elite empresarial - hoje sócia menor do capitalismo financeiro do hemisfério norte.


Pergunta: A expressão mercados soberanos significa que o mercado está acima dos Estados Nacionais?

André Araújo: Não. O mercado financeiro é hoje adulado e incensado pelos países que optaram pela cartilha neoliberal, mas ele não está acima dos Estados Nacionais do Grupo dos Sete, dos quais os mercados dependem para sua projeção internacional. O mercado só é forte porque, na sua retaguarda, garantindo seus investimentos, está o poder político e militar dos Estados Unidos e da OTAN. , A Wall Street jamais desafiou o núcleo central de poder político dos Estados Unidos, a quem sempre obedeceu - o Federal Reserve, o Departamento do Tesouro e o Pentágono. Dizer que a Wall Street é independente, em relação ao Governo dos Estados Unidos, é como certos economistas brasileiros dizerem que o FMI é uma grande cooperativa onde todos os países são sócios, omitindo que o Tesouro Americano controla totalmente as decisões desse órgão , no qual os interesses americanos têm precedência sobre quaisquer outras considerações. Os mercados são soberanos, portanto, em relação aos países sem liderança política e que se colocaram sob seu poder ; mas, não estão acima dos grandes Estados Nacionais, os quais continuam tão fortes como sempre foram.


Pergunta: Qual a relação existente entre Mercados soberanos e seus outros livros?

André Araújo: O objetivo que une e dá continuidade à série, iniciada em 1991, é o debate do pensamento econômico fora do circuito dos economistas. No Brasil, nestes últimos dez anos, a discussão de temas econômicos fechou-se dentro de um núcleo restrito de profissionais - a maioria deles pertencente à corrente majoritária, dita do pensamento único, ou seja, do neoliberalismo globalizante. Isso é um grave erro dos meios acadêmicos e da imprensa. A economia interessa à toda sociedade e deve ser debatida como um fenômeno político, e não técnico, pois é muito mais importante analisar a correlação da economia com o futuro do País do que fazer uma abordagem exclusivamente financeira, que é exatamente o que hoje se faz nos meios de comunicação, e, ainda assim, de forma superficial e repetitiva. As idéias econômicas devem ser vistas a partir de suas raízes sociais e políticas. É isso o que meus livros tentam mostrar. E é somente dessa forma que a economia pode ser compreendida.



Sobre o Autor


André Araújo foi durante as décadas de 70 e 80 dirigente sindical patronal do setor elétrico-eletrônico, tendo sido diretor-tesoureiro das duas grandes entidades desse setor industrial.

Formou-se em Direito, em 1968, pela Universidade Mackenzie. E fez pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas - EASESP.

Atualmente é diretor executivo do CELE - Centro de Estudos da Livre Empresa -, entidade que pesquisa as instituições sindicais e associativas, de caráter patronal no Brasil.

Em 1994, foi coordenador-geral da Primeira Conferência Internacional de Centros Empresariais, realizada em Brasília, que contou com a participação de 16 entidades desse gênero das três Américas.

Os marxistas no poder - a esquerda chega ao Planalto (Editora Centro de Estudos da Livre Empresa) é o seu primeiro livro. Publicou também os seguintes títulos: O Brasil dos patriotas - caminhos da potência emergente (Editora Centro de Estudos da Livre Empresa) e Escola do Rio - fundamentos ideológicos do Plano Real (Editora Alfa-Omega).



Tábua geral da matéria

Sobre o autor, VII
Prólogo do autor, IX
Introdução, XV

Parte I - A ideologia da globalização como arma de expansão Imperial, 17

1. Os ciclos pendulares como eixo da história - As teorias do fim da história - Uma visão linear - A globalização econômica e a concepção materialista da história - O equilíbrio impossível no mundo dos blocos antagônicos, 17

2. Os fundamentos do Estado Nacional contra a lógica dos blocos - Os grandes blocos do passado: O Império Britânico como zona delivre comércio - A luta dos blocos: Os impérios continentais contra a Pax Britannica, 21

3. O mundo integrado da Pax Vitoriana - Os conflitos comerciais como causas da Primeira Guerra - O período entreguerras, a crise de 1929 e seu desfecho: as economias autárquicas, 27

4. Os interesses nacionais não são globalizados - Objetivos estratégicos nacionais frente aos blocos econômicos - O livre mercado como cenário - Os progressos econômicos - As doutrinas econômicas não são politicamente neutras, 34

5. O papel do Estado no equilíbrio social - A doutrina neoliberal como fantasia intelectual - A complexidade da vida social frente ao livre mercado - A função do governo e seus instrumentos - Por que existe o Estado Nacional, 39

6. O Estado não é somente um provedor de serviços - A visão mecanicista do Estado, pela ótica econômica - O Estado acha-se acima do livre mercado - O livre mercado como sancionador do desequilíbrio social, 41

7. O papel político das teorias economicistas - O neoliberalismo como instrumento de poder - Os objetivos políticos da doutrina neoliberal - As doutrinas econômicas como fator de intervenção 46

8. A posição secundária dos países periféticos na globalização - A nova divisão do poder mundial segundo as teorias neoliberais - Relançando a geopolítica como pensamento e ação - O novo arranjo das esferas de poder pós-guerra fria, 50

9 . A oportunidade das potências emergentes do novo mapa-múndi - Os conflitos de soberania no mundo atual - Os novos pólos de poder não existem na fórmula neoliberal - As potências emergentes no fim do século XX, 55

10. A eterna prevalência da política nos caminhos da história política e poder no mundo em conflito - Bolsas de valores X partidos políticos: as reais dimensões dos papéis históricos - Os fatores determinantes e os fatores subordinados - As burocracias multilaterais, as corporações e a transferência de poder, 60

11. Os grandes conflitos interblocos: Nafta X Asean X CEE - Os blocos regionais e as renúncias de soberania - Os instrumentos de política econômica nos blocos regionais - Ganhadores e perdedores no mundo globalizado - A verdadeira importância do fator externo na economia , 67

Bloco Asean, 69
Comunidade Econômica Européia, 71

12. Economia de papel X economia produtiva - Luta pelo emprego e barreiras migratórias: a globalização negada - Os empregos têm raízes e as casas não se mudam - Nacionalismo X globalização: a falsa opção, 75
Conclusão 1: A análise histórica, 80
Conclusão II: O desfecho político, 88

Parte II - Bibliografia comentada, 95

I. Fontes de historiografia e teoria da história, 96

II. Fontes de história clássica, história política moderna e contemporânea e estratégia militar e diplomática, 97

III. Fontes de história econômica, história do pensamento econômico e história social e cultural 108

IV. Fontes de ensaios sobre movimentos econômicos atuais, tendências do sistema financeiro e produtivo internacional, burocracia e formas de governo, 115

V. Fontes de obras recentes sobre globalização, neoliberalismo e blocos comerciais, 124

Parte III - Bibliografia de apoio para leituras, 127
Livros, 127
Periódicos, 128



Repercussão na imprensa

O neoliberalismo dissecado
Luís Nassif, Folha de S. Paulo, Dinheiro, 3 de outubro de 2001

Em julho de 1994, o país havia conseguido afastar seus dois piores fantasmas: a crise externa e a crise fiscal A abertura de 1990 vinha sendo conduzida gradativamente, ajudando as empresas a se preparar para a globalização.

De repente, tudo isso foi por água abaixo. Na mudança do Real, para conseguir garantia máxima de estabilidade o câmbio foi valorizado em 15%, abriram-se comportas para importação indiscriminada. Em poucos meses superávits comerciais viraram fumaça e o déficit em conta corrente passou a ser coberto por capital especulativo, atrás das mais altas taxas de juros reais da história.

Esse movimento não resultou em aumento do investimento, provocou piora mês a mês nos fundamentos macroeconômi-cos, quebrou a economia externa e internamente, setor público e privado, desnacionalizou setores expressivos da economia, desviou o foco das atenções do governo de qualquer medida de cunho operacional.

Diagnóstico
O melhor diagnóstico que li sobre essa marcha da insensatez é um pequeno livro de bolso (144 páginas) de 1998, A Escola do Rio - As origens ideológicas do Plana Real, de André Araújo (Editora Alfa-Omega sobre o Departamento de Economia da PUC do Rio de Janeiro, especialmente as 60 primeiras páginas.

Não se trata de obra conspiratória, embora se possa sentir falta da crítica ao esgotamento do velho momento intenvencionista e a não-menção ao projeto da Integração Competitiva, proposta pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a partir dos estudos do economista Júlio Mourão, em 1985, pelo qual a abertura controlada da economia seria uma peça estratégica para instituir a competição, induzir as empresas brasileiras a buscar a inserção internacional, acordos de tecnologia etc., processo iniciado em 1990 e abortado em 1994.

Quanto ao jogo ideológico do mercado financeiro, o livro con-segue uma síntese admirável. Começa por historiar as raízes do neoliberalismo, que surge com Hayek, tem seu momento alto no conservadorismo res-ponsável de Margaret Thatcher e, depois, resulta na irresponsabilidade dos "reagnomics" - a política econômica de Ronald Reagan, que lega enorme dívida pública ao país - e na apropriação ideológica do modelo pela escola de Chicago.

Simultaneamente, ocorre uma mudança no modelo econômico americano. O país desiste de competir em produtos tradicionais, passando a se concentrar em produtos de alta tecnologia, especialmente na área de serviços financeiros. Araújo vê a teoria econômica apenas como legitimadora e facilitadora de processos de hegemonia econômica, e não como indutora desse. Primeiro o modelo ganha forma. A teoria vem depois, operando como gazua ideológica facilitando a expansão do novo poder hegemônico.

Exigências do capital
A expansão do capital finan-ceiro exige estabilidade das moedas, livre trânsito nas economias nacionais e oportunidades para investimento. Esse processo pressupõe combate sem quartel à inflação, crença na oferta infinita de recursos internacionais (importante para induzir governos nacionais a endividamentos temerários), abolição de qualquer forma de controle sobre o capital, todo o esforço na obtenção de superávit fiscal (para garantir o pagamento da dívida), privatização ampla e irrestrita (criando oportunidades de negócios) e fim do Estado social.

Algumas dessas posições são defensáveis em si. O que a ideologia de mercado faz, no entanto, é concentrar toda a ênfase apenas nos aspectos que interessam ao capital financeiro. Essa ideologia não se propaga pela União Européia, que a comapar a um livre cambismo anacrônico com a roupagem nova. Mas encontra eco amplo nos países em desenvolvimento, graças aos economistas locais.

Sua ccoptação se dá por meio das bolsas de pós-graduação para universidades estrangeiras, para uma formação calcada exclusivamente nos modelos macroeconômicos, sem conhecimento do mundo real, dos processos de desenvolvimento, dos fatores sociais e políticos essenciais para a construção de uma nação. Além disso, é no mercado financeiro que se abrem as melhores oportunidades profissionais.

Mas o que teria levado a essa unanimidade extraordinariamente medíocre em torno de sofismas é o chamado "efeito-demonstração" - de o grupo se apegar a determinadas idéias, por ser de bom-tom, si
gnificar sinal de modernidade, de internacionalismo.

Pode parecer interpretação primária do autor, mas não é. Foi justamente isso que sedimentou a notável ausência de espírito crítico do período.


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