Tais crenças são irracionais e infundadas. Para provar isso basta observar
atentamente os casos em que as crenças não são confirmadas pela prática.
Um só exemplo: quantos motoristas não morrem em desastres, apesar de
terem, em seus carros, fetiches de vários tipos: amuletos, talismãs, figa,
ferradura, pé de coelho etc., que deveriam protegê-los de todos os perigos.

190 pp. -
R$ 41,00
ISBN 85-295-0027-X
Cod. barras: 9 788529 500270
Pergunta: O senhor poderia nos dizer como nascem as superstições?
Bazarian: É evidente que essas crenças só nascem devido à ignorância
das causas reais e naturais dos fenômenos.
O homem chamado primitivo, isto é, iletrado e inculto, sem espírito
científico, por ignorar as causas reais e naturais dos fenômenos,
atribuía as causas dos fenômenos a objetos que teriam um poder mágico
dentro de si (fetiches) ou à vontade de entidades sobrenaturais (deuses,
santos, etc.).
O homem em geral, tanto o primitivo como o civilizado, aprende por
reflexo condicionado. Quando a um fenômeno F1 segue um fenômeno F2, ele
tende a considerar o primeiro como causa e o segundo como efeito. Por
exemplo: Ele passa debaixo de uma escada e caí um tijolo em sua cabeça.
Conclusão: passar debaixo de escada é perigoso. Esse homem deixa de
passar debaixo da escada, mesmo que não tenha ninguém trabalhando na
escada. Outro exemplo: Ao andar pela rua, um gato preto cruza-lhe o
caminho. Nesse dia ele teve azar nos negócios. Conclusão: Gato preto
cruzando o caminho da gente dá azar e deve-se contorna-lo. Como se vê
nesses exemplos, os fenômenos estão relacionados de modo fortuito,
casual, isto é, não há nenhuma relação causal entre um fenômeno e outro.
É uma questão de puro acaso, sorte ou azar.
Pergunta: Mas, professor, apesar de as
superstições, como o senhor diz, não serem confirmadas pela prática, por
que subsistem em tão grande escala?
Bazarian: Acontece que a maioria das pessoas não tem espírito
científico, que consiste em aceitar uma coisa como verdadeira só depois
de comprovada pela prática social. A prova é o único critério da verdade
de um juízo ou de uma tese. O espírito científico é muito recente na
história da civilização. Basta lembrar que a história do homem
contemporâneo tem cerca de um milhão de anos, começando com o
aparecimento do Pitecantropo Erecto - chamado Homo Sapiens Primitivo. E
o espírito científico apareceu só há uns 400 anos atrás, com a criação
das primeiras ciências, a Astronomia e a Física, com Giordano Bruno,
Kepler, Galileu Galilei, etc. E, posteriormente, com a criação de outras
ciências, tais como: Química, Biologia e, atualmente, Antropologia,
Sociologia e outras ciências.
Pergunta: Mas, professor, se o espírito
científico já tem 4 séculos, como o senhor explica que há tanta
superstição no mundo atual? Outro fato relacionado com isso: segundo
certos cientistas sociais, a superstição aumentou, justamente, nos
países mais desenvolvidos econômica e culturalmente?
Bazarian: Em primeiro lugar, é só uma minoria bem reduzida que
alcançou o espírito científico, a maioria conservando-se no estado
pré-científico.
Em segundo lugar, uma pessoa pode ter espírito científico no domínio de
sua especialidade, mas não aborda com o mesmo rigor científico os
fenômenos em outros domínios.
Por exemplo: Freud, pai da Psicanálise, é um gênio no domínio da
Psicologia profunda, mas ignora a perspectiva sociológica necessária
para explicação da gênese de certas neuroses e psicoses, que têm
essência estritamente social e não individual e sexual como ele
pretende. Outro erro grave dele foi querer explicar a mentalidade
religiosa por fatores sexuais.
Outro exemplo: Einstein, pai da Teoria da Relatividade, é um gênio na
Física, mas comete muitos erros quando faz excursões em domínios
desconhecidos por ele, como em filosofia por exemplo.
Quanto à segunda parte da pergunta, isto é, o fato de haver um
recrudescimento e difusão da superstição justamente nos países mais
adiantados, isso pode ser explicado a meu ver, do seguinte modo: na
sociedade complexa dos países superdesenvolvidos, econômica e
culturalmente, as relações humanas se tornaram muito complexas, as
ciências se tornaram muito sofisticadas, de tal modo que o homem comum,
dessas grandes civilizações, não chega a compreender essa complexidade e
se encontra na mesma posição de perplexidade e ignorância do homem
inculto numa sociedade subdesenvolvida culturalmente. Assim, afim de
alcançar um certo equilíbrio emocional e intelectual, ele procura nas
religiões, no misticismo e nas diversas crenças supersticiosas, uma
explicação das coisas e do mundo como um todo que, para ele, não passa
de um caos.
É por isso que nós vemos nos países tão adiantados, como Estados Unidos,
Inglaterra, França, um reflorescimento de doutrinas místicas e
supersticiosas, tais como espiritismo, magia branca, magia negra,
feitiçaria, bruxaria, demonologia, discomania, contatos com seres de
outros mundos, astrologia, quiromancia, cartomancia, vidência com bola
de cristal, etc., etc.
Pergunta: Prof. Jacob, as crenças
supersticiosas têm aspectos positivos ou são inteiramente negativos?
Bazarian: A superstição tem aspectos negativos e positivos.
O aspecto negativo consiste em que a superstição dá ao indivíduo uma
visão deformada, fantástica, falsa da realidade, isto é, das causas
reais e naturais dos fenômenos.
Nesse sentido as superstições atrapalham mais do que ajudam a obter
êxito nas ações humanas. Não é armado de crenças supersticiosas que se
pode vencer na vida, mas sim, armado de conhecimentos científicos.
Mas, as superstições também tem aspectos positivos. O indivíduo que vive
num mundo que para ele parece caótico, onde ele não entende nada, nem a
causa e origem das coisas, nem seu sentido ou finalidade, ele sente-se
totalmente perdido e desorientado. Para evitar a alienação mental e a
desintegração social, ele precisa readquirir o equilíbrio emocional e
mental. Nesse plano, os diversos tipos de superstições, as crenças
religiosas, as diferentes doutrinas místicas, espiritualistas e
esotéricas, lhe dão uma explicação sejam fictícias e estejam longe de
serem científicas, mesmo assim elas contribuem para a consecução do
equilíbrio procurado e necessário para sua sobrevivência, como ser
social ajustado. Pois o homem é um ser que indaga e não pode viver sem
achar a resposta, ainda que essa resposta não lhe pareça totalmente
satisfatória. O homem comum prefere uma explicação verossímil ou
ilusória a nenhuma.
Pergunta: É possível e conveniente superar as
superstições, e como pode ser feito isso?
Bazarian: Não há dúvida que a superação das superstições só pode ser
benéfica ao indivíduo e à sociedade em que ele vive, pois não é com
superstições que se pode vencer na vida pessoal e contribuir para o
progresso da sociedade.
Para conseguir superar as superstições só há um caminho: cultivar e
aprimorar o espírito científico, procurando explicações científicas em
seu domínio de atividade e, na medida do possível, nos demais domínios.
E, como já disse, a explicação científica consiste em encontrar a causa
real e natural de um fenômeno.
Para saber se um fato é a causa real e natural de um fenômeno só há um
caminho: a prova, a comprovação, a verificação pela prática social e
pela demonstração lógica.
Assim, o divisor das águas entre a ciência e a crença supersticiosa é o
fato comprovado.
O problema da superstição no Brasil
Do que acima foi dito, podemos chegar à conclusão de que o Brasil, como
outros países subdesenvolvidos, desenvolvidos ou superdesenvolvidos
culturalmente, tem também suas crenças supersticiosas. Muitas delas
comuns aos outros povos e outras próprias do nosso povo. Entre as
superstições próprias do nosso povo podemos enumerar aquelas que são
divulgadas pelas diversas seitas religiosas do cristianismo, do
espiritismo, da umbanda, do quimbanda, tais como a crença no anjo, no
diabo, no saci-pererê, na mula-sem-cabeça, na pomba-gira, etc., etc.
É interessante anotar que, devido ao nosso atraso cultural e científico,
existe uma série de crenças supersticiosas sobre alimentos e ervas, que
não são compartilhadas por outros povos e nem confirmadas pela prática.
Por exemplo: Muita gente pensa que faz mal à saúde comer manga ou
abacaxi com leite, pepino com coalhada (que aliás, é um prato predileto
dos árabes) e muitas outras baboseiras.
Como já dissemos, à medida que o espírito científico vai sendo divulgado
entre as diversas camadas da população, as crenças supersticiosas vão
sendo, paulatinamente, substituídas por conhecimentos científicos.
Se nós queremos um Brasil desenvolvido cultural e economicamente,
ocupando seu devido lugar no concerto das grandes nações, precisamos
tomar sérias medidas para a difusão dos conhecimentos científicos,
através de todos os meios de comunicação, tais como rádio, televisão,
jornais, revistas e livros de divulgação científica. Pois não é com
superstições que se constroem estações hidroelétricas, se aumentam a
produção agrícola e industrial e se fazem as grandes nações. |
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Sobre o Autor
Jacob Bazarian começou sua
vida de armênio errante aos 3 anos. Foi levado para a Síria e depois
para a França. Chegou ao Brasil e aqui viveu 20 anos, até‚ iniciar sua
viagem de volta. Seguiu para a França, depois para a Armênia. E retornou
ao Brasil.
Nessas passagens todas conheceu a miséria. Queria saber quais seriam as
razões da injustiça social. Pensava em Deus e questionava-o. A
indignação e a dúvida a conduziram à procura da verdade devida à luta
por um regime de justiça social.
Tornou-se descrente do cristianismo e também de todas as religiões.
Estudou filosofia e encontrou novas vivências teóricas e práticas.
Entretanto, percebeu que algumas doutrinas filosóficas racionalizavam a
injustiça social, legitimando o regime capitalista. E descobriu que o
marxismo possibilitava compreender e interpretar o mundo e a sociedade
para transformá-los, para torná-los melhor.
Entrou no movimento comunista e sofreu perseguições, que o levaram ao
exílio na França. Expulso deste país, foi para a União Soviética onde
conheceu o socialismo real existente (SOREX).
A longa passagem pela União Soviética foi fundamental para o pensador que
é. La aprendeu a distinguir a realidade do mito - a realidade nua e
crua, daquela oferecida pela versão oficial. E apesar da desilusão com o
regime soviético por não corresponder aos ideais de Marx e Lênin
continua até hoje adepto da filosofia do materialismo dialético e
histórico - a lutar por um mundo melhor.
Na volta ao Brasil, ele resolveu continuar aqui sua procura por uma regime
justo, democrático e humano, talvez, destinado ao mundo inteiro. E o que
Jacob Bazarian tem feito é continuamente contribuir para melhorar o
mundo, antes, tratando de melhorar o homem.
Obras de Jacob Bazarian
Alguns trabalhos do autor publicados na URSS (em russo)
"A luta das
forças progressistas brasileiras contra a ideologia imperialista" (Tese
de Candidato a Doutor em Ciências Filosóficas defendida no Instituto de
Filosofia da Academia de Ciências da URSS), Moscou, 1956.
"Confissões de um sociólogo brasileiro", na revista Problemas de
Filosofia, Moscou, 1958, nº 8.
"O ilustre pensador brasileiro do séc. XIX Tobias Barreto", na Revista
da História da Cultura Mundial, Moscou, 1959, nº 6.
"O ilustre pensador brasileiro Euclides da Cunha", na Gazeta Literária
(Orgão oficial da União dos Escritores Soviéticos), Moscou, 15/8/1959.
"A essência reacionária da filosofia de Nietzche", na revista Kommunist,
(Orgão oficial do PCUS), Moscou, 1961.
"O Brasil - séc. XX", na revista Tempos Novos, Moscou, 1961, nº 44.
"Lima Barreto, como escritor e pensador", na revista Problemas de
História, Moscou, 1962, nº 11.
"José Bonifácio - Patriarca da Independência do Brasil", na revista
União Soviética, Moscou, 1963, nº 6.
"A filosofia brasileira", na Enciclopédia Filosófica, T.I., 1960.
"O pensamento filosófico e sociológico brasileiro, desde a metade do
séc. XIX até o começo do séc. XX", na História da Filosofia, T. II, IV e
V, Moscou, 1957-1961. (Obra coletiva do Instituto de Filosofia da
Academia de Ciências da URSS).
"Introdução" à edição russa do livro de João Cruz Costa "Panorama da
História da Filosofia no Brasil", Moscou, 1962.
"As correntes filosóficas e sociológicas no Brasil contemporâneo", no
livro coletivo Brasil, Moscou, 1963.
"O pensamento filosófico e sociológico brasileiro contemporâneo", no
livro coletivo A filosofia e sociologia nos países da Europa Ocidental e
América, Moscou, 1964.
Verbetes sobre filósofos e sociólogos brasileiros, desde o séc. XIX até
os nossos dias, publicados nos 5 volumes da Enciclopédia Filosófica,
Moscou, 1960-1970.
Algumas obras do autor publicadas no Brasil
Mito e
Realidade sobre a União Soviética, São Paulo, 3ª edição, 1983.
Intuição Heurística, Ed. Alfa Omega, S. Paulo, 3ª edição, 1986.
Curso de Sociologia (Contribuição para uma Sociologia Pluri-estrutural),
Ed. José Bushatsky, São Paulo, 1972.
A Arte de Aprender, Ed. Livraria Nobel S.A., São Paulo, 1972.
Considerações Filosóficas sobre a Sociedade Ideal, Edição da Faculdade de
Direito de Caruaru, Pernambuco, 1974. (Republicado no Livro "Mito e
Realidade sobre a União Soviética" do autor).
A Origem e Evolução das Coisas (do Cosmos, da Vida, do Homem, da Sociedade
e do Pensamento), Ed. do D. A. "Júlio Prestes" da Faculdade de Direito,
Administração e Comunicação de Itapetininga (São Paulo), 1975.
O Problema da Verdade, Ed. Símbolo, São Paulo, 1980. [Reeditado pelo
Círculo do Livro de São Paulo.] 3ª ed., Alfa-Omega, São Paulo, 1988.
Introdução à Sociologia - As Bases Materiais da Sociedade, Ed. Alfa-Omega,
São Paulo, 1982; 2ª edição, 1986.
Por uma sociedade melhor. Para onde marcha a Humanidade. São Paulo,
Alfa-Omega, 1989.
Quarta capa
O filosofo Jacob Bazarian apresenta aos leitores brasileiros seu mais
recente trabalho, Crítica da concepção teológica do mundo – O futuro
das religiões e a religião do futuro. Iniciado em 1975, o livro
esperou 27 anos para vir a público, em parte por relutância do autor,
que aguardava o momento oportuno para sua publicação, e também porque
Bazarian, ao longo desses anos todos, envolveu-se em outros projetos que
o impediram de concluir seu trabalho.
Jacob Bazarian, autor reconhecido por trabalhos esplêndidos, do quilate de
O Problema da Verdade – Teoria do Conhecimento; Intuição Heurística; Por
que nós os brasileiros somos assim?; Introdução à Sociologia – As bases
materiais da sociedade, e de Por uma sociedade melhor, -
tratou de diversos temas filosóficos e sociológicos em seus livros, os
quais contribuíram significativamente para a produção científica
brasileira. Aliás, isto é algo característico do trabalho de grandes
filósofos. E com o seu ensaio Crítica da concepção teológica do mundo,
Bazarian busca transmitir aos leitores as suas idéias e os seus
pensamentos acerca de um assunto muito importante e atual: o papel da
religião na sociedade moderna e futura.
Mas deixemos que o próprio autor nos ilustre sobre o público que pretende
atingir com o seu texto: O presente livro é destinado sobretudo àqueles
que estão na dúvida, que oscilam entre a crença e a descrença num
criador, entre o teísmo e o ateísmo, àqueles que têm curiosidade e
interesse em conhecer a concepção filosófico-científica a respeito do
verdadeiro criador.
Escrito em linguagem acessível - por ser a mesma concisa e precisa - Jacob
Bazarian cumpre o papel do verdadeiro filósofo, que é o de ilustrar o
maior número de leitores possíveis sem, contudo, perder a objetividade
necessária – princípio fundamental para um texto filosófico de
qualidade. A Editora Alfa Omega, ao apresentar aos seus leitores mais um
título de Jacob Bazarian, procura contribuir para a formação, junto à
sociedade brasileira, de uma concepção científica do mundo.
Dedicatória
Este livro é dedicado a todas as pessoas idealistas e humanistas que
querem se libertar de idéias errôneas e conhecer a verdade acerca do
mundo, a fim de poder mudá-lo para melhor.
Agradecimentos
Quero externar meus sinceros agradecimentos às pessoas abaixo mencionadas
que tiveram a gentileza de ler o manuscrito e de fazer sugestões e
observações críticas:
Natália Murata, Prof. José Geraldo Martins Ferreira, Carlos Fidêncio,
Hélio Rubens de Arruda e Miranda, Eliel Maurício, Inácio Bueno, Prof.ª
Dalva Alves dos Santos, Prof. José Luiz Ayres Holtz e Prof. Roberto A.
R. de Aguiar.
Oferecimento
Ofereço este livro a Natália Murata, que, com suas insistentes perguntas
sobre a religião, me induziu a escrever sobre tema tão atual e
palpitante.
Epígrafes
"Reconduzindo os homens aos sentimentos de seus deveres
recíprocos, o espiritismo neutraliza o efeito das doutrinas subversivas
da ordem social." - Allan Kardec
"A religião é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem
coração, tal como é o espírito de condições sociais de quem o espírito
está excluído. Ela é o ópio do povo." - Karl Marx
"A crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica." - Karl
Marx
"Deus é o nome com que os ignorantes designam as forças ou as causas reais
e naturais que ainda desconhecem." - Jacob Bazarian
Prólogo
Por uma sociedade mais humana
Obras do ciclo "Por uma sociedade mais humana"
Refletindo sobre a história da humanidade e sobre a essência da sociedade
humana, chegamos à conclusão inabalável de que a construção de uma
sociedade ideal e perfeita é totalmente utópica e, portanto, impossível.
O que é possível, isso sim, é construir uma sociedade melhor do que as
que existiram até agora, jamais, porém, atingindo a perfeição.
A preocupação principal do homem é encontrar um modus vivendi em que ele
seja mais feliz, e isto sé é possível em uma sociedade melhor, isto é,
mais justa, mais democrática e mais humana.
Nós não pretendemos solucionar esse problema fundamental da convivência
humana, que até agora ninguém resolveu. O objetivo principal dos nossos
trabalhos é trazer uma modesta contribuição para a criação dessa
sociedade melhor.
Para alcançar esse objetivo é necessário desvendar quais são os requisitos
indispensáveis para a criação desse modus vivendi procurado pelos homens
e que chamaremos, convencionalmente, de sociedade mais humana. E qual o
critério pelo qual se pode julgar ou avaliar se determinada sociedade é
ou não é mais humana.
O primeiro passo para isso é conhecer bem a sociedade em que vivemos. Sem
um conhecimento profundo da essência da sociedade não é possível
interpretá-la corretamente e muito menos transformá-la em beneficio do
homem que é a principal tarefa da humanidade.
A Sociologia nos ensina que a sociedade é formada de grupos de homens,
cujo núcleo central é o homem. Assim como não existe ser humano fora da
sociedade, não existe sociedade sem seres humanos. Assim, a sociedade é
o modo de convivência natural dos seres humanos. Logo, para conhecer
melhor a essência da sociedade é necessário conhecer a essência do
homem.
Mas, apesar de ser social, o homem é antes de tudo um ser animal, dotado
de vida. Logo, para conhecer a essência do homem é preciso conhecer a
essência da vida.
E como a vida faz parte da natureza, para conhecer a essência da vida é
preciso conhecer a essência da natureza, do cosmos, do universo.
A filosofia nos ensina que a melhor maneira de conhecer a essência das
coisas é estudar a sua origem (gênese) e evolução.
Só assim estaremos em condições de compreender o sentido da vida e a
finalidade da sociedade humana. Só assim poderemos responder às
importantes perguntas filosóficas existenciais: O que somos? De onde
viemos? Para onde vamos? Para que vivemos? Qual é o sentido da vida o
destino da humanidade e o fim último do universo? Como devemos agir?
Como construir uma sociedade mais justa e mais humana, onde possamos ser
mais felizes?
Porém, antes de abordar esses problemas é necessário resolver outro
problema importantíssimo: nós podemos conhecer a verdade, isto é, a
essência das coisas, a sua origem e evolução? Qual é o valor dos nossos
conhecimentos a esse respeito? Em outras palavras, é necessário estudar
o processo do conhecimento da verdade e encontrar o critério objetivo e
universal da verdade.
Assim, para conhecer todas as coisas acima enumeradas é necessário começar
com o estudo dos problemas do conhecimento humano. E só depois disso
será possível atacar com segurança e eficiência os demais problemas.
Conseqüentemente, uma pesquisa "Por urna sociedade mais humana" deve
constar; pelo menos, dos seguintes estudos.
1. O processo do conhecimento da verdade (Gnosiologia ou Teoria do
Conhecimento)
2. Crítica da concepção religiosa do mundo (Crítica da Teologia ou Teoria
de Deus)
3. A concepção filosófico-científica do mundo (Ontologia ou Teoria do Ser)
4. A quintessência do homem e suas necessidades básicas (Antropologia
Filosófica ou Filosofia do Homem)
5. A quintesséncia da sociedade e as condições necessárias para a criação
de uma sociedade melhor e mais humana (Sociologia Filosófica ou
Filosofia da Sociedade)
6-O sentido da vida, o destino da humanidade e o fim último do universo
(Axiologia ou Escatologia) Como já efetuamos o estudo do processo do
conhecimento da verdade num livro anterior (O Problema da Verdade),
o presente livro tratará dos vários mitos e dogmas que dificultam o
conhecimento da verdade. Nele daremos unia exposição da concepção
religiosa das coisas, da origem e evolução das religiões e uma
interpretação filosófico-científica da cosmovisão religiosa.
O livro seguinte será dedicado à concepção filosófico-científica do mundo
e à origem e evolução das coisas (cosmos, vida, homem, sociedade e
pensamento), do ponto de vista da ciência contemporânea.
Nesse plano, este livro é uma continuação natural do livro anterior, e,
junto com ele, constitui uma preparação para os livros que virão em
seguida.
No próximo livro do ciclo estudaremos a quintessência do ser humano, isto
é, as diferentes teorias sobre a natureza humana e as necessidades
básicas do ser humano.
No seguinte estudaremos a quintessência da sociedade e as condições
necessárias para a criação de uma sociedade melhor, mais democrática e
mais humana.
Só depois de ter efetuado todos esses estudos científicos, é que estaremos
em condições de responder, mais adequadamente, às mais importantes
questões existenciais acima referidas.
Embora todos esses trabalhos façam parte de um mesmo ciclo, que agrupamos
sob o título "Por uma sociedade mais humana", cada um deles tem sua
autonomia própria e poderá ser lido independentemente dos outros, sem
prejuízo de sua compreensibilidade.
Advertência
Este livro sobre a Religião não é
destinado nem a crentes nem a ateus. Estes não precisam lê-lo e àqueles
não adianta lê-lo, pois a coisa mais difícil do mundo é demover as
crenças.
Como escreveu muito bem Marie Bonaparte: "Tudo na Natureza demonstra para
o crente a presença de Deus: tudo, para o descrente, sua ausência" (Cit.
por Paulo Foulquié - Raymon Saint-Jean Dictionnaire dela Langue
Philosophique, Paris, PUF. 1962, p. 176). "Aqueles que crêem num Deus,
pensam eles tão apaixonadamente quanto nós, que não cremos nele, em sua
ausência?" (J. Rostand, Pensamentos de um biólogo, p. 130. Cit. por
Foulquié e Saint-Jean, op. cit. p. 176).
O presente livro é destinado sobretudo àqueles que estão na dúvida, que
oscilam entre a crença e a descrença num criador, entre o ateísmo e o
ateísmo, àqueles que têm curiosidade e interesse em conhecer a concepção
filosófico-científica a respeito do verdadeiro criador. Esses poderão
tirar algum proveito para dirimir suas dúvidas, embora sua leitura
também possa ser útil aos crentes, agnósticos e ateus.
Ao fazer esta análise filosófico-científica da religião queremos advertir
os leitores crentes que não pretendemos convencê-los a abandonarem suas
crenças. E direito inalienável de cada pessoa acreditar no que quiser
Ninguém é obrigado a abandonar seus ídolos, mitos e dogmas, que lhe são
tão caros, "os óculos coloridos do espírito", através dos quais vê o
mundo.
Aliás, nos capítulos finais do livro, mostraremos que, para certas camadas
da população, a concepção religiosa é, por enquanto, necessária e útil,
por várias razões.
Nosso objetivo principal é mais filosófico e científico: mostrar o que há
por trás das crenças religiosas, que coisas reais elas simbolizam.
Entrementes, queremos frisar que se quisermos compreender as coisas tais
quais são na realidade, se quisermos vencer na vida e sermos úteis à
sociedade em que vivemos, se quisermos criar uma sociedade melhor, mais
justa, mais democrática e mais humana, temos que nos livrar de idéias
errôneas e de modos de pensar infrutíferos, a fim de adquirir idéias
verdadeiras e modos de pensar frutíferos, pois só as teses comprovadas
poderão dar uma concepção real e científica das coisas e, portanto, uma
arma ideológica para transformar, para melhor, o mundo e a sociedade em
que vivemos.
Assim, como é necessário limpar o terreno, extirpando as ervas inúteis e
daninhas para que uma planta possa florescer e dar frutos saudáveis, do
mesmo modo é necessário "limpar" a mente, "extirpando" as idéias
errôneas e daninhas, para que nosso pensamento possa florescer em toda a
sua pujança e dar "frutos" saudáveis e abun-dantes em benefício de nós e
de toda a humanidade.
Introdução
Os mitos e
dogmas ainda presentes
"A crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica" - Marx
Toda e qualquer teoria sobre a natureza das coisas,
sobretudo do homem e da sociedade, parte, implícita ou explicitamente,
de uma teoria sobre a natureza do Universo, isto é, de uma concepção do
mundo, que nada mais é, por definição, que a própria filosofia. Sem essa
base filosófica é impossível uma antropologia e sociologia ou qualquer
outra ciência social.
Ora, para se ter uma concepção científica sobre o homem e a sociedade é
necessário partir de uma concepção científica do Universo, pois
premissas anticientíficas só podem levar a conseqüências
anticientíficas.
O que tem dificultado, até agora, a compreensão científica do mundo e,
conseqüentemente, a verdadeira natureza do homem e da sociedade são
certos mitos e dogmas ainda existentes a respeito da origem e da
essência do cosmos, da vida, do homem e da sociedade.
Nós estamos tão impregnados por idéias errôneas, a respeito de tudo e do
todo, que a educação das pessoas no espírito científico consiste, antes
de tudo, em libertar a mente humana de tais idéias. Só depois dessa
higiene mental é possível acumular idéias verdadeiras e formar uma
concepção científica do mundo e das coisas.
Vejamos brevemente alguns desses mitos, que são verdadeiros empecilhos
gnosiológicos para uma concepção real e natural, isto é, científica, das
coisas.
Como expusemos detalhadamente em obra anterior (O Problema da Verdade,
São Paulo, Ed. Símbolo, 1980), o homem chamado primitivo, ignorando a
causa real e natural dos fenômenos, devido ao seu atraso cultural,
atribuía a causa dos mesmos a entidades imaginárias e fictícias –
espíritos ou deuses. Daí nasceu a concepção mítico-teísta (ou religiosa)
dos fenômenos naturais e humanos, presentes em quase todas as sociedades
chamadas primitivas; vestígios dessa concepção podemos encontrar em
todas as doutrinas filosóficas e sociais contemporâneas.
Vejamos em que consiste essa concepção (explicação, interpretação)
mítico-teísta do mundo e alguns corolários que dela resultam:
Mitologismo. É a tendência a explicar tudo que existe e acontece
pela mitologia. A mitologia é o estudo de mitos. A palavra mito (que vem
do grego mythos) tem muitos sentidos afins, mas nós o empregamos no
sentido etimológico e filosófico de fábula, lenda, ilusão, coisa
imaginária e inventada.
Os mitos são representações fantásticas, alegóricas, imaginárias e
irracionais, para explicar e generalizar os diferentes fenômenos da
natureza e da vida social. É uma forma de pensamento oposta à do
pensamento lógico, racional e científico. A mitologia é a concepção do
homem primitivo e inculto sobre o mundo, sua gênese e evolução.
Teologismo. É a tendência a explicar tudo que existe e acontece
pela teologia. A teologia é o estudo dos deuses, sua existência e
natureza. Ela compreende o teísmo e a teolatria.
O Teísmo é a crença religiosa que admite a existência de vários deuses
(politeísmo) ou de um único Deus (monoteísmo), ser supremo, pessoal,
providencial, transcendental e sobrenatural, como causa primeira e
criador de todas as coisas.
E a Teolatria é o culto ou a adoração desses deuses ou desse Deus único.
O teísmo considera todos os fenômenos como sendo o cumprimento da "vontade
divina", como resultado da providência divina, que interviria na vida
cotidiana dos homens e dirigiria todas as suas atividades.
Uma variante de teísmo é o deísmo, que também acredita na criação do mundo
por um ser superior e transcendente (Deus), mas nega seu caráter
providencial, isto é, a intervenção de Deus na natureza e nos negócios
humanos.
Ao contrário do teísmo e do deísmo, o ateísmo é a teoria que nega toda e
qualquer crença na existência de qualquer tipo de seres divinos e/ou
sobrenaturais (espíritos, deuses), providenciais ou não, como criadores
e condutores do Universo.
O ateísmo está intimamente ligado à concepção materialista do mundo,
dispensa a idéia ou a crença em Deus, ou deuses, e procura explicar os
fenômenos pelo determinismo natural, isto é, por causas reais e
naturais, sem a intervenção de seres divinos e/ou sobrenaturais.
O ateísmo não exclui as virtudes morais próprias ao humanismo; ele recusa
somente a intervenção de uma divina providência nos negócios humanos e
conta somente com o próprio esforço, o trabalho e a vontade dos homens.
Nesse plano, o ateísmo é o verdadeiro humanismo.
A mitologia está estreitamente ligada à religião. Toda mitologia tem
elementos de religião, assim como toda religião tem elementos de
mitologia, pois a religião é um sistema complexo de crenças (mitos e
dogmas) e de cultos (ritos e cerimônias) relativos a seres divinos.
Pensando mais profundamente, a religião é, como a mitologia, um reflexo
fantástico, na consciência dos homens, das forças externas naturais e
sociais, que dominam os homens na sua vida cotidiana, reflexo esse no
qual as forças terrestres tomam a forma de divindades não-terrestres ou
extraterrestres (espíritos e deuses). Um bom exemplo são os cultos
religiosos na mitologia politeísta dos antigos gregos e romanos, bem
como na teologia do monoteísmo cristão.
Em geral as religiões politeístas se baseiam mais em mitos do que em
dogmas, enquanto que as religiões monoteístas se baseiam mais em dogmas
do que em mitos.
É muito difícil dizer onde termina o mito e começa o dogma, pois ambos são
conceitos afins. Eis alguns exemplos de mitos e dogmas muito difundidos
no Ocidente: o mito da criação do mundo em seis dias; o mito da criação
de Adão e Eva; o mito do paraíso perdido; o mito do céu e do inferno; o
mito do dilúvio universal; o mito da reencarnação dos espíritos; o mito
da caverna (de Platão); o mito da Idade de Ouro; o mito do Eldorado,
etc., etc. O dogma da existência de um Deus criador e providencial; o
dogma da imortalidade da alma; o dogma do livre arbítrio, etc., etc.
Não confundir mito e dogma com verdade científica. Não confundir crença
com ciência. São coisas diferentes e até opostas. O mito é uma
representação alegórica das coisas em forma de símbolos e metáforas. O
dogma é uma proposição fundamental de uma religião, admitida como
verdadeira sem discussão e sem nenhuma prova.
Já a verdade científica é aceita como tal só depois de ter sido provada
pela verificação experimental e/ou pela demonstração lógica.
As crenças míticas e teístas são representações ilusórias, irreais,
errôneas, falsas, isto é, não-verdadeiras. São lendas e dogmas aceitos
apenas na base da fé e impostas pelas autoridades religiosas, sem
nenhuma prova de sua correspondência com a realidade, isto é, com a
verdade.
O traço característico do dogma é a impossibilidade de provar sua verdade
por meios científicos e racionais. E é justamente por causa disso que o
dogma necessita ser imposto e aceito incondicionalmente apenas na base
da fé, sem prova nenhuma, mesmo que seja absurdo.
Nesse sentido, dogma é o oposto da verdade científica. Credo quia absurdum
("Creio por ser absurdo") – já dizia Tertuliano – um apologista cristão.
Ou como diz um amigo meu que é crente inveterado: "Acredito porque não
compreendo". Para mostrar quão prejudicial é a sobrevivência da
concepção teísta para a formação de uma concepção científica das coisas,
vejamos algumas de suas funestas conseqüências.
Os corolários
Eis algumas conseqüências diretas ou indiretas da concepção teísta:
Criacionismo – Doutrina segundo a qual todas as coisas (o universo,
a vida, o homem, a sociedade, o pensamento, etc) foram criadas e
organizadas por deuses ou por um único Deus. Por oposição ao
transformismo, o criacionismo afirma que todas as coisas, inclusive as
espécies viventes, sobretudo o homem, foram criadas tais quais nós as
conhecemos.
Providencialismo – Doutrina que tenta explicar tudo o que acontece
no mundo pela intervenção da providência divina.
A providência seria a ação pela qual Deus, com suprema sabedoria,
dirigiria o curso de todos os acontecimentos e interviria no destino dos
homens. Tudo acontece de acordo com a vontade divina, que determina para
cada criatura e para todo o universo o fim a seguir.
O providencialismo, característica da religião cristã, toma na religião
maometana a forma extrema de fatalismo.
O fatalismo é a doutrina segundo a qual todos os acontecimentos do
universo e da vida humana são fatais, isto é, são prefixados e se
produzem inevitavelmente, de modo que a vontade ou a inteligência do
homem é impotente para alterar o curso desses acontecimentos. É o
célebre "Mektup" ("Está Escrito") dos muçulmanos.
Finalismo ou Teleologismo – Uma vez que o homem e todas as coisas
teriam sido criadas por um ser divino e providencial, elas teriam sido
criadas com algum objetivo, para alguma finalidade.
Divinização do Homem – Como o homem teria sido criado à imagem e
semelhança de um Deus criador, ele teria uma origem e essência divina.
Divinização da Sociedade e do Estado – Como os homens, também a
família e a propriedade, as sociedades e o Estado, assim como os seus
governantes (reis, monarcas, etc.), teriam uma origem divina.
Fideismo – Doutrina que coloca a fé e a crença acima da razão e da
ciência, e fundamenta a verdade apenas em exigências irracionais,
sentimentais e morais. "Creio por ser absurdo" – dizem os adeptos do
fideismo.
Irracionalismo – Doutrina que afirma ser o conhecimento das coisas
inacessível à razão, ao pensamento, à ciência, por considerar impossível
exprimi-las em conceitos lógicos. Por isso preconiza a superioridade do
instinto, da intuição, do sentimento, da vontade e das faculdades
não-conscientes e não-racionais, isto é, irracionais.
Misticismo – Doutrina baseada mais na fé, no sentimento, na
intuição e na imaginação do que na razão e na experiência sensível, e
que supõe possível, pela contemplação e pelo êxtase, entrar em contato
direto com os seres divinos, terrestres ou extraterrestres.
Espiritualismo ou Idealismo (filosófico) – Como o princípio criador
seria de natureza não material, mas espiritual, a origem de todas as
coisas deveria ser procurada não na matéria, mas no espírito. Logo, o
Espírito Absoluto ou a Idéia Absoluta seria primária e a matéria,
secundária, isto é, o mundo material seria produto do Espírito ou da
Idéia Absoluta, que, afinal, acaba se identificando com a idéia ou o
espírito de Deus.
Dogmatismo – Tendência a aceitar algo como verdade absoluta,
imutável, eterna, sem nenhuma prova, nem crítica prévia. Doutrina
fundamentada em dogmas, aceitos na base somente da fé, sem a
participação crítica da razão e da prova científica.
Visão metafísica, isto é, estática das coisas – Já que todas as
coisas, os homens e os valores teriam sido criados por um ser superior,
tais quais são, de uma vez para sempre, elas são encaradas como
isoladas, fixas, estáticas, imutáveis, absolutas, sem levar em
consideração o caráter mutável, interativo, dialético, relativo e
historicista das coisas e dos valores sociais.
As projeções psicológicas
Cumpre observar que na origem de todas essas crenças mítico-teístas
encontramos certas projeções psicológicas não-conscientes
(subconscientes ou inconscientes), inerentes ao espírito humano,
sobretudo na fase inicial de seu desenvolvimento, tais como o
participialismo, fetichismo, animismo, antropomorfismo e
antropocentrismo – projeções típicas da mentalidade primitiva e também
da mentalidade infantil. Aliás, indo ao fundo da questão, e antecipando
o resultado de nossa pesquisa, podemos dizer que todas as crenças
mítico-teístas não passam de encarnações e transformações das forças
naturais, humanas e sociais em forças ou entidades divinizadas e
sobrenaturais. Vejamos em que consistem essas projeções:
Participialismo – Modo de sentir e pensar do homem primitivo e da
criança (e cujos vestígios podemos encontrar em todos os espíritos
adultos), segundo o qual o sujeito tem o sentimento de participação,
comunhão, parentesco e até mesmo de identidade dele próprio com todos os
seres animados e inanimados.
Por exemplo, o primitivo sente que é, simultaneamente, ele mesmo e o seu
totem. Os índios bororos do Brasil se consideram ao mesmo tempo araras
(espécie de papagaio, que é o totem da tribo).
No fundo do participialismo existe o sentimento não-consciente da origem
comum de todas as coisas, de que nós somos feitos da mesma substância da
qual são feitas todas as coisas da natureza viva e não-viva.
Fetichismo – Crença de que certos objetos e seres vivos têm dentro
de si um poder mágico e oculto de fazer o bem ou o mal.
É a fase mais primitiva da mentalidade humana, quando o homem atribui a
causa dos fenômenos a poderes que os objetos ou seres vivos teriam
dentro de si. Por exemplo, o poder mágico dos fetiches, amuletos,
talismãs, figas, pé de coelho, ferradura, astros, números, nomes, etc.
Animismo – Crença, segundo a qual a natureza é regida por almas,
por espíritos ou por vontades análogas à vontade humana. Segundo essa
crença, todo objeto oculta um espírito invisível que o governa. Daí as
noções primitivas de espíritos bons e maus, que é necessário atrair ou
esconjurar por meio de preces, ritos e cerimônias de sacrifícios e
oferendas, que variam, infinitamente, segundo as religiões e as
sociedades, no tempo e no espaço. Essa animação das forças da natureza
se encontra também na origem da feitiçaria, da magia, da mitologia
politeísta e das diversas religiões monoteístas.
Antropomorfismo ou Personificação – Estado de espírito no qual o
homem concebe todos os seres, sobretudo Deus, ou os deuses, segundo o
modelo de sua própria natureza humana. Tendência a atribuir sentimentos,
vontades e traços humanos a seres não-humanos, ou fictícios, criados
pela imaginação do homem. O melhor exemplo é a representação dos deuses
sob um aspecto humano.
O antropomorfismo está intimamente ligado ao animismo e se manifesta, em
particular, na mitologia politeísta grega. Segundo um aforismo do
filósofo grego Xenófanes (que viveu no séc. VI a.C.), se os bois e os
leões pudessem pintar seus deuses, representá-los-iam sob o aspecto de
bois e de leões, do mesmo modo que os homens criaram deuses à sua
imagem.
Assim, não são os deuses que criaram os homens à sua imagem e semelhança,
mas, ao contrário, foram os homens que criaram os deuses à sua imagem e
semelhança.
Antropocentrismo – Tendência ou estado de espírito no qual o homem
se considera a si mesmo como o centro do Universo e supõe que o mundo
foi feito para ele. É a ingênua crença das doutrinas finalistas
(teleológicas) que admitem que todas as coisas foram criadas por Deus
para propiciar a vida humana.
Ligados ao antropocentrismo, temos o Geocentrismo e o Teocentrismo que
consideram, respectivamente, a Terra e Deus como o centro do Universo.
No fundo, todas essas projeções são produtos e formas do egocentrismo
inerente a todos os homens, sobretudo na fase primitiva e infantil de
sua evolução.
Os mitos e dogmas acima enumerados impregnam, em maior ou menor grau,
todas as doutrinas religiosas, bem como as doutrinas semi-religiosas
tais como teosofia, ocultismo, esoterismo, espiritualismo, zen-budismo,
cabala, numerologia, astrologia, as para-ciências como a ufologia e a
parapsicologia e, em parte, todas as filosofias espiritualistas e
idealistas de todos os tempos.
Mas, onde todos esses mitos, dogmas e seus corolários melhor se manifestam
é nas religiões criacionistas, sobretudo na religião
judaica-cristã-maometana. Na verdade, eles são uma conseqüência dessa
concepção religiosa criacionista.
Por isso, seria interessante fazer uma análise filosófica e sociológica,
ainda que breve, da essência, da origem e da evolução da mentalidade
religiosa, em geral, e, em particular, da religião criacionista, que é a
mais elaborada e divulgada nos países ocidentais.
Existe uma opinião bastante difundida entre os pensadores idealistas e
religiosos que certas categorias como a religião, a intuição, o amor, e
outras, não podem ser analisadas pelos métodos racionais e científicos.
Nós não estamos de acordo com tal idéia preconceituosa. Tanto que em nosso
livro O Problema da Verdade (3ª parte) fizemos, com sucesso, a
análise científica da intuição. Agora, neste trabalho, fazemos uma
análise filosófico-científica de religião. (Num trabalho futuro,
pretendemos fazer uma análise científica do amor). Não pretendemos fazer
uma análise detalhada e exaustiva de todas as crenças religiosas (isso
demandaria escrever vários livros volumosos, o que está fora de nosso
escopo), mas apenas uma análise, em profundidade, de alguns aspectos
mais importantes da cosmovisão religiosa, sobretudo da idéia de Deus.
Quem quiser ter uma informação mais detalhada poderá estudar os livros da
Bibliografia que segue no fim deste trabalho, bem como inúmeros outros
livros que existem sobre o assunto.
***
Para facilitar o estudo do leitor, incluímos várias citações de diferentes
autores e fontes sobre o assunto tratado.
Entrementes, a abordagem e análise filosófico-científica que fazemos de
várias crenças religiosas, sobretudo da idéia de Deus, são inteiramente
originais e não se encontram em nenhum livro sobre o assunto.
Levando em consideração a abordagem original do tema, e a fim de facilitar
a compreensibilidade de certas passagens difíceis e conferir uma
continuidade lógica à exposição, recorremos a reiterações de certas
teses essenciais, embora em termos diferentes.
Tábua geral da matéria
Sobre o
autor...IX
Dedicatória...XIII
Agradecimentos...XV
Epigrafes...XVII
Prólogo - Por uma sociedade mais humana...XIX
Advertência...XXIII
Introdução - Os mitos e dogmas ainda presentes...XXV
1ª parte - A origem e evolução da mentalidade religiosa...35
Capítulo I - As religiões atuais e seus adeptos...37
1 - Observações quanto à classificação das religiões...39
2 - Observações quanto ao número dos adeptos...41
Capítulo II - O que é a religião (A essência da religião)...45
1 - Conceitos e definições de religião...46
2 - A essência da religião e suas diversas formas...49
3 - Os elementos essenciais da religião...49
Capítulo III - A origem das religiões (ou da mentalidade
religiosa)...51
1 - Duas categorias fundamentais de religiões...51
2 - Hipóteses sobre a origem das religiões...53
2.1 - Hipótese teológica ou sobrenatural...53
2.2 - Hipótese metafísica ou idealista...54
2.3 - Teoria sociológica...54
2.4 - Teoria antropológica...54
3 - As teorias sociológicas e antropológicas...56
3.1 - A teoria do fetichismo...56
3.2 - A lei dos três estados de Comte...57
3.3 - A teoria do animismo...62
3.4 - A teoria do mána...64
3.5 - A teoria do totemismo...67
a) O totem...68
b) Os churingas...69
c) O tabu...71
d) As raízes econômicas dos totens e tabus...71
e) As origens das crenças em alma, espíritos,
Deus e reencarnação...72
3.6 - Observações críticas...73
Capítulo IV - A evolução da mentalidade religiosa
Do Pan-animismo ao Politeísmo e Monoteísmo...77
1 - Do período a-religioso à crença no mána...78
2 - A gênese dos deuses...82
As etapas do processo de transformação do mána
em Deus...82
3 - A origem e o objetivo do culto religioso...87
3.1 - A origem do culto religioso...87
3.2 - O objetivo do culto religioso...89
2ª parte - Interpretação crítica da cosmovisão religiosa...91
Capítulo V - Análise do conceito de Deus e de seus
atributos...93
1 - A origem da palavra Deus...93
2 - A idéia de criador na mitologia grega...94
3 - A idéia de Daimon, de Demiurgo e de Logos...96
3.1 - Daimon...96
3.2 - Demiurgo...97
3.3 - O Logos...98
4 - Diferentes significados e atributos de Deus...98
5 - Os três aspectos fundamentais do conceito de Deus...102
5.1 - Como princípio ativo...102
5.2 - Como princípio substancial...102
Do Panteísmo ao Teismo...105
5.3 - Como princípio moral...106
Os crentes oportunistas...106
6 - O aspecto principal...107
Capítulo VI - Interpretação filosófico-científica do conceito
de Deus...111
1 - Deus como nome simbólico do princípio ativo da causalidade
e do auto-movimento material...111
2 - Dois casos exemplares...117
3 - A idéia da imortalidade da alma e do livre-arbítrio...121
Capítulo VII - As raízes da cosmovisão religiosa...125
1 - As raízes bio-psíquicas da religião...127
1.1 - O objetivo da religião...127
O medo de morrer e a ânsia de sobreviver...127
1.2 - O objetivo da prece: obter o que se deseja...130
1.3 - O testemunho da Bíblia...131
2 - As bases fisio-psicológicas...135
2.1 - Dois tipos básicos de personalidade: o artista e o
pensador...135
2.2 - O papel específico das artes, da filosofia e das ciência...139
2.3 - As causas culturais...141
3 - As raízes gnosiológicas...143
A entificação ou hipostasiação dos conceitos...143
4 - As raízes sociais...147
4.1 - A ignorância e incompreensão das leis sociais...148
Engels sobre a religião...149
4.2 - A exploração econômica e a opressão social...151
Lênin sobre a religião...151
4.3 - Os interesses econômicos-políticos das classes
dirigentes...152
O papel subserviente da Igreja
4.4 - O papel entorpecente e reacionário da religião...153
4.4.1 - A religião como ópio do povo...153
Marx sobre a religião...154
4.4.2 - A religião como inimigo da ciência e do
progresso...156
Capítulo VIII - As funções da religião...159
1 - Função teórico-filosófica...159
2 - Função prático-moral...159
3 - Função psicológica...160
4 - Função psicanalítica...161
5 - Função ideológica opressiva...161
6 - Função entorpecente e reacionária...161
Capítulo IX - As vantagens e desvantagens das religiões...163
1 - A necessidade das religiões para as massas incultas...163
2 - Do fracasso das religiões...165
3 - Moral religiosa e moral atéia...168
Capítulo X - O futuro das religiões e a religião do futuro...171
1 - O futuro das religiões...171
2 - A religião do futuro...172
Conclusão...177
Apêndice - Entrevista do autor sobre a superstição...183
Bibliografia...189
Bibliografia
A Bibliografia sobre a Concepção Religiosa do Mundo
é enorme. Citamos apenas algumas das obras que, entre outras, foram
consultadas para a elaboração deste trabalho:
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BENOIST, Luc. O Esoterismo. São Paulo, DIFEL, 1969.
BAZARIAN, Jacob. O Problema da Verdade. São Paulo, Ed. Símbolo, 1980.
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