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Jacob Bazarian - Crítica da concepção teológica do mundo

Jacob Bazarian - O problema da verdade

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Entrevista sobre o lançamento do livro Argélia: Tradição e Modernidade.
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Argemiro Procópio
Entrevista sobre o livro No olho da águia. Clique aqui para ouvir.

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Política dos EUA para o Oriente Médio torna o mundo mais perigoso. Clique aqui para ouvir.

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Para sociólogo, reação norte-americana aos ataques de 11 de setembro agravou a truculência e agressividade na geopolítica mundial. Clique aqui para ouvir.
Banco: Um inimigo do povo
 

UNILATERALISMO e Relações Internacionais

 

Uma refexão pioneira no Brasil sobre os embates do Unilateralismo nas Relações Internacionais

Argemiro Procópio

Professor Titular do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Brasília

 
Prof. Argemiro Procópio
Prof. Argemiro Procópio

Entrevista com o Autor

Serão os estudos em Relações Internacionais propagados no Brasil demasiadamente influenciados pela indústria cultural norte-americana? E como pode a disseminação de ideologias tomadas como inquestionáveis e aplicáveis universalmente ser usada como mecanismo de promoção mundial dos interesses norte-americanos?


Existe no Brasil uma certa parcialidade e tendenciosidade dos recentes estudos em relações internacionais, resultantes da propagação do poderio e áreas de influência norte-americana. O conteúdo de tais estudos costuma ser réplica ou cópia defasada do ensinado nas universidades dos Estados Unidos da América. Além do controle dos meios de produção, a posse e o domínio da indústria cultural são extraordinários instrumentos de poder do unilateralismo. Isso porque ademais da conquista por meio da guerra e das empresas transnacionais, a indústria cultural sabe cativar. Domina tanto no âmbito das idéias, quanto impõe sua visão de mundo ditando indiretamente o estilo de vida de dezenas e dezenas de países. Daí também as revoltas contra o tratar cultural dos EUA. Eles por onde passam colocam em xeque tradições e culturas que não as suas.

 

Serão as "guerras preventivas" e as ações anti-terroristas legítimas? Elas são ou não sinais de cobiça das riquezas alheias e de intervencionismo em busca de lucros, disfarçados em uma suposta missão messiânica de "exterminação do mal" e de garantia dos valores democráticos em todo o globo?

De forma alguma uma "guerra preventiva" pode ser considerada legítima. Primeiramente devido à dificuldade em se definir o que seria uma guerra preventiva (atacar para se defender de uma possível ameaça?) e por último na delimitação de como seria essa guerra (quem são os inimigos, a ameaça é real, quais são os alvos a ser destruídos, há um Estado responsável ou apenas uma organização terrorista, o que se deve combater, entre outra dúvidas). Logo, os objetivos de uma "guerra preventiva" podem estar além de uma pregada missão messiânica de "exterminação do mal", escondendo naquela meta o verdadeiro objetivo que é tomar conta de rentáveis fontes de lucro. Mascarados os reais objetivos, entre eles tornar-se donos de rentáveis reservas de petróleo, como no caso do Iraque, destaca-se para a opinião pública um novo sentido para esse tipo de guerra: a (re)democratização do mundo.



No olho da águia - UNILATERALISMO e Relações Internacionais
160 pp. - R$ 33,00
ISBN 85-295-0034-2
Cod. barras: 9 788529 500348
 

Quais são os maiores paradoxos oriundos da globalização, da desordem internacional e da arquitetura do convívio entre os Estados, sob a atuação marcante da hegemonia norte-americana?

A sociedade internacional, em grande parte com limitado senso crítico, acostumada a observar indiferentemente um poderio militar intervencionista assumindo o papel de "polícia do mundo" e a submeter-se sem muitos questionamentos ao poder econômico do dólar – "folha de papel universalmente aceita, mas sem o lastro-ouro" –, absorve inerte as ideologias e a visão monolítica de mundo proposta pela unilateralidade. Os motivos invocados pela unilateralidade para justificar sua postura intervencionista são muitas vezes deturpações da realidade. Invoca-se a democracia quando se tem clara a discriminação de latinos e negros; declara-se defensor dos direitos humanos quem aprisiona inimigos de guerra em bases onde o direito das gentes não vigora; ignora as decisões de órgãos multilaterais como o Conselho de Segurança e presta-se à ingerência um Estado que constantemente ressalta a importância da cooperação. Por tais razões questiona-se a existência de mecanismos que podem hoje realmente garantir a segurança internacional.


Existem mecanismos que podem hoje realmente garantir a segurança internacional? A atual debilidade das Nações Unidas significa que reina nas Relações Internacionais a lei do mais forte? Pode-se afirmar que, da forma como se encontra hoje organizada, a sociedade internacional é passível de comparação com o "estado de natureza" hobbesiano?

Infelizmente o mundo está ameaçado pela insegurança que se mostra mais voraz e incisiva não apenas pelos destruidores atos terroristas isolados, mas também pelo crescimento do unilateralismo. A não consulta ou o desrespeito das opiniões multilaterais provoca um retorno ao estado de natureza evocado por Hobbes, onde há a disputa constante do homem contra o próprio homem. Assim, não existem mecanismos eficazes para se combater a insegurança internacional. A inoperância da Organização das Nações Unidas comprova tal fato. As decisões ou pelo menos opiniões dos diferentes países representados no Conselho de Segurança não foram ouvidas pelos Estados Unidos, que, se preocupam mais com a tentativa de possuir as reservas de petróleo do Oriente. A unilateralidade nos mostra que o estado de natureza se faz presente na sociedade internacional contemporânea.


Qual é a importância de um gigante como a China no atual contexto internacional e qual sua relação com o poder unipolar?

Tendo sempre em vista que ali se encontra um quinto da população mundial, busca-se no seio da sociedade chinesa se não respostas precisas, ao menos visões diferentes dos problemas que envolvem o relacionamento internacional. O modelo de desenvolvimento chinês transforma-se hoje em referência internacional. Estima-se que, mantidos os níveis atuais de crescimento, em vinte anos o PIB chinês será igual ao norte-americano. A justiça social também é princípio caro aos chineses, que em seu país evitam as desigualdades estruturais e investem muito em capital humano. Os chineses estimam sobretudo a paz, e tem posição firme em relação à defesa da soberania nacional. O respeito mútuo é condição indispensável para a política externa chinesa, que preza muito por sua cultura própria e, portanto, consegue evitar a invasão da indústria cultural norte-americana e estabelecer uma política externa própria sem subalternidade. Mais recentemente, pode-se observar que, embora de maneira discreta, a China se coloca em posição oposta ao unilateralismo dos Estados Unidos da América.


São as recentes decisões de intervenção em países do Oriente Médio com bombardeios norte-americanos "cruzadas" em busca da paz mundial ou implementação da política do "olho por olho, dente por dente", ainda com o ressentimento dos acontecimentos do 11 de setembro de 2001?

Hoje a luta contra o terrorismo é motivo invocado unilateralmente pelos Estados Unidos da América para combater o dito fundamentalismo islâmico. As recentes decisões de intervenção em países do Oriente Médio foram tomadas sem o respaldo da opinião pública mundial, mesmo a mídia tendo sido amplamente favorável à posição norte-americana ao exibir repetidamente as cenas catastróficas do 11 de setembro, numa tentativa de fomentar a vingança da sociedade internacional e transformar os bombardeios norte-americanos sobre civis em "cruzadas" em busca da paz mundial. A política do "olho por olho, dente por dente" faz que as bombas sobre casas e, por certos "acidentes", hospitais no Afeganistão sejam a resposta certa para os aviões que colidiram nas torres gêmeas e no Pentágono. Assim como para retirar o ditador iraquiano do poder ignorou-se o direito à autodeterminação de um país esmagando-o com tanques e bombas. E no cômputo final dos resultados a vida perde seu valor, forjando-se até expressão infame como a do "fogo amigo".


Estão os Estados Unidos da América combatendo o terror com o terror? A intolerância, a debilidade do Direito Penal Internacional e a fragilidade das políticas de segurança implementadas pela Nações Unidas fazem com que o terrorismo e o crime organizado sejam problemas sem perspectivas claras de solução?

Infelizmente Os Estados Unidos claramente usam o terror para combater o terror quando poderiam fazê-lo de outras formas. As grandes redes de financiamento do terrorismo passam por paraísos fiscais, redes bancárias com pouca ou nenhuma regulamentação, onde grupos terroristas lavam dinheiro muitas vezes proveniente do narcotráfico e colocam seus fundos. Todavia, estabelecer uma grande rigidez no controle desses bancos não é objetivo dos Estados Unidos da América, já que isso criaria restrições à consecução de seus interesses financeiros. A ineficiência dos mecanismos de defesa da segurança internacional realmente faz com que o terrorismo e o crime organizado sejam problemas sem perspectivas claras de solução. E não são somente os desmandos da unilateralidade que incentivam tais ações criminosas. Existem ainda tipologias diversas do terror, utilizado como instrumento de batalha em conflitos territoriais, étnicos ou religiosos em todo o globo. São também conseqüências da globalização desigual as intolerâncias e irracionalidades que levam a ações terroristas em várias localidades diferentes do Oriente Médio, como a América Latina ou a Europa.


Qual é a análise da atual conjuntura internacional que se pode tecer observando as relações internacionais contemporâneas de uma perspectiva diferente da norte-americana? Como contextualizar nesta conjuntura teorias de pensadores clássicos, como Aristóteles, passando por Hobbes e Marx, até chegar a contemporâneos como Fukuyama e Huntington?

Quando se aprofunda na obra dos pensadores clássicos da sociologia, da ciência política ou até da antropologia e da economia tem-se clara a visão de que suas idéias não perdem força com o passar do tempo. Analisando estas disciplinas fundamentais para uma análise consistente do campo de estudos das relações internacionais, tem-se a clara percepção que vivemos de certa forma a luta do homem contra o homem, como na visão de Hobbes; a luta de classes, como previa Marx; somos colocados diante das desmedidas e incomensuráveis faces dos caminhos do homem em sociedade, como analisava Nietzsche; enfrentamos a luta constante por poder como pregava Maquiavel. A imagem criada pelos norte-americanos de defensores da paz contra o fundamentalismo islâmico leva a se pensar até em um choque de civilizações, idéia defendida por contemporâneos como Huntington. O fato é que inúmeras são as teorias aplicáveis em maior ou menor medida às temáticas notoriamente presentes na agenda internacional. Ao buscar a universalidade da paz e da justiça, é possível revelar os equívocos da monolítica interpretação da fenomenologia internacional mostrando o colapso das teorias, já que as noções clássicas de poder, conflito, segurança, sistema e cultura sofrem revisão. Tudo isso pretende provocar, analisar consistências e inconsistências de perigosa realidade: o unilateralismo das relações internacionais.



Sobre o Autor

Argemiro Procópio nasceu em 1949 na cidade de Varginha, sul do Estado de Minas Gerais. Dr. Phil., pela Universidade Livre de Berlim, por concurso público, desde 1995, é Professor Titular do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Pós-graduado pelo Instituto de Estudos dos Países em Desenvolvimento da Universidade Católica de Louvain, Bélgica, licenciou-se em Ciências Sociais na Universidade Federal de Minas Gerais. Em Belo Horizonte, trabalhou em O Diário. Como jornalista visitou o Uruguai, Áustria, Chile, Argentina, Bolívia e Peru. Esteve na Antártida e no Tibete. Detido pela ditadura militar, deixou o Brasil em 1972. Conheceu a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a Iugoslávia, a República Popular da China e Cuba. Viajando pelas Filipinas, Bulgária, Polônia, Turquia, Egito, Países Baixos, Suécia, Senegal e Togo, por meio da convivência internacional, aprendeu a respeitar a mística da criação diversificada. Ampliou sua visão de mundo, transformando as relações internacionais mais que um objeto de análise, numa razão de vida.


Quarta capa

Fenômenos como os da segurança e do terrorismo retratam-se no conteúdo deste livro, agregador de teorias clássicas, como o estado de natureza hobbesiano no contemporâneo unilateralismo. A análise desvenda com pertinência a lógica messiânica da guerra contra o “Eixo do Mal”.

Procedendo a uma anatomia das rupturas na distribuição do poder e das novas incertezas no quadro da atual desordem mundial, mostra-se a orfandade da razão e da justiça nas decisórias estruturas da mundialização, expostas às vicissitudes do unilateralismo.

Nessa linha, explicam-se conceitualmente causas da vulnerabilidade estrutural das bases em que se assentam a democracia, a inviolabilidade das fronteiras, a não-ingerência em assuntos internos de outros países e a soberania nacional. Sem perder as esperanças por uma ordem multipolar descerrada para a hominização, para o revitalizar da Organização das Nações Unidas e para a paz duradoura, substantivamente o desafio chinês e o desequilíbrio do terror unem-se à presente interpretação político-sociológica. Tudo isso faz desta reflexão particular exercício teórico-analítico, pioneiro no Brasil, acerca dos embates do unilateralismo nas relações internacionais.

Argemiro Procópio já publicou Amazônia – ecologia e degradação social também pela Alfa-Omega, que espera mais uma vez contribuir para o debate em torno de tema crucial para o entendimento da realidade contemporânea.

Tábua geral da matéria

Sobre o Autor.....IX
Introdução.....XI
I – A ordem internacional na unilateralidade.....13
A verdade vitimada.....13
Virtude da sindérese.....15
Ordem injusta.....16
Exercício de poder sem limites.....18
Neoguelfismo.....19
Causas dos paradoxos.....21
Conceito de sociedade mundial.....22
Significado do internacional.....23
Lebensraum no século XXI.....25
Dialética do relacionamento.....27
Antídoto contra a desordem.....28
Pacto social.....30
Gênese da globalização e processo de mudanças.....31
A construção interparadigmática.....36
Soberania e interesse nacional.....38
Os excluídos nas relações internacionais.....39
A virtude da temperança.....40
Glossolalia nas relações internacionais.....41
Incomensuráveis faces dos caminhos.....45
A arquitetura da paz.....46
Poder como meta.....47
Essência do convívio internacional.....50
A Babel do desentendimento.....52

II – A China e o poder unipolar.....55
Metáfora das cores.....55
Império do Centro.....58
Ontem civilizar, hoje democratizar.....60
Indústria cultural.....61
Alinhamento automático.....62
Manutenção das desigualdades.....63
Dualidade estrutural.....66
Consciência coletiva.....67
Camisa de força.....69
O modelo dissociativo como alternativa.....70
Ensinamento maoísta.....71
O não-alinhamento.....73
Ancestralidade das aspirações.....74
Os muitos ocidentes.....76
Cultura e economia.....78
Geometrias variadas.....80
Respeito à igualdade.....82
Segurança e direitos humanos.....84
Redistribuição da renda.....86
O processo produtivo.....87
Presença do Estado.....88
Atravessando o rio.....90
Reformas no campo.....91
Malefícios da isonomia.....93
Política externa.....95
Aproximação sino-americana.....98
Taipé como coringa.....99
Oposição à ordem bipolar.....102
Primavera de Pequim.....104
O exemplo de Hong Kong.....105
Tibete: a sacra aliança do incenso com a espada.....106
Dividir para imperar.....107
Incompatibilidades.....108
Prolegômenos das alianças.....110
A geopolítica britânica no Tibete.....111
Lamas contra ocidentais.....114
Privilégios seculares.....115
Chegada da reforma agrária.....117
O processo irreversível.....120
Símbolos essenciais.....122
O capitalismo e o esvaziamento dos templos.....123
Tradições religiosas e o "Tibet chic".....124
Pacto do incenso com a espada.....126

III –Unilateralismo, desequilíbrio do terror e segurança coletiva.....129
Recessão democrática.....129
Rota dos desencontros.....130
"In God we Trust / Gott mit uns".....131
Redes do terror: de Dachau a Guantánamo.....133
Interpretações subjetivas.....135
Novos ódios.....137
Luta de classes, não de civilizações.....138
Metamorfoses das ambições.....140
Tempos de intolerâncias e irracionalidades.....141
Tipologias do terror.....142
Caixa de Pandora.....145
Conclusão.....151
Referências bibliográficas.....153
Abreviaturas.....159


Referências bibliográficas

ALLISON, Graham. Essence of decision. Explaining the cuban missile crisis. Second Edition. Boston: Little Brown, 1971.
ALSTON, William P. Philosophy of language. Nova York: Prentice Halll, 1964.
AMIN, Samir. "El Futuro de la polarización global". In: Nueva Sociedad n. 132, julho-agosto 1994, pp. 118-127.
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Abreviaturas

Alca – Área de Livre Comércio das Américas
AP – Associated Press
Banestado – Banco do Estado do Paraná
Bird – Banco Internacional paara Reconstrução e Desenvolvimento
CIA – Central Intelligence Agency
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
Comecon – Conselho para Assistência Econômica Mútua
Embraer – Empresa Brasileira de Aeronáutica
ETA – Pátria Basca e Liberdade
EUA – Estados Unidos da América
Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
IRA – Exército Republicano Irlandês
Mersocul – Mercado Comum do Sul
MRE – Ministério das Relações Exteriores
Ocde – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
OEA – Organização dos Estados Americanos
OMC – Organização Mundial do Comércio
OMS – Organização Mundial da Saúde
ONGs – Organizações Não-Governamentais
ONU – Organização das Nações Unidas
Otan – Organização do Tratado do Atlântico Norte
PIB – Produto Interno Bruto
Pnud – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
RPC – República Popular da China
UPI – United Press International
URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas


Repercussão na Imprensa

Maria Helena Tachinardi - Editora de Assuntos Internacionais do Jornal Gazeta Mercantil,
11 de setembro de 2003.

Unilateralismo e idéias de Hobbes

10 de Setembro de 2003 - Nesta quinta-feira, o segundo aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro coloca para o mundo a necessidade de uma reflexão sobre os problemas decorrentes do unilateralismo. Na seqüência dos ataques perpetrados por Osama bin Laden, líder da Al-Qaeda, contra as torres gêmeas, em Nova York, e o Pentágono, o mundo empenhou sua solidariedade aos norte-americanos e esperava-se que a estratégia dos EUA de combate ao terrorismo tivesse uma coordenação multilateral.

Não só isso não ocorreu, como o presidente George W. Bush construiu uma doutrina que exacerbou o unilateralismo. A doutrina do ataque preventivo contra inimigos potenciais, como forma de governança global, teve na invasão do Iraque o início de uma jornada contra o "eixo do mal" (onde se incluem Irã, Síria, Cuba e Coréia do Norte). Confiando que a operação iraquiana não fosse se complicar ou que não surgissem no mundo tantos Bin Laden, Bush planejava hostilidades em série àqueles países, desprezando totalmente a Organização das Nações Unidas (ONU) ou o pilar da multipolaridade.
Hoje, a Coréia do Norte e o Irã são pressionados por Bush a abandonarem suas pretensões nucleares, mas com tantos problemas no Iraque e com a popularidade em queda, o presidente norte-americano se sente compelido a controlar o caos iraquiano, apelando, agora, à ONU e à comunidade internacional, que não apoiaram a guerra.

Os planos de Bush não estão dando certo. A desordem impera no Iraque. Continuam a morrer soldados norte-americanos e britânicos em solo iraquiano, onde fica mais fácil para Bin Laden e seus grupos aliados humilharem os EUA do que no seu próprio território, como em setembro de 2001. Após a queda de Saddam Hussein, houve atentados em Riad (Arábia Saudita), Tchetchênia, Paquistão, Marrocos, Indonésia e no próprio Iraque (contra a embaixada da Jordânia e a sede da ONU, onde morreu o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello).

Mais recentemente, a cidade de Najaf, sagrada para os xiitas no Iraque, foi atingida. Bush prometeu democratizar o Iraque e torná-lo modelo para outros países do Oriente Médio, um sonho distante, assim como parece distante também a implementação do plano de paz que os EUA propuseram para Israel e os palestinos.

O unilateralismo norte-americano prejudicou as relações com a Europa e com os latino-americanos. Ao se oporem à guerra contra o Iraque, o México e o Chile, sócios comerciais de Washington, tiveram agendas bilaterais prejudicadas. A Argentina, que enfrentou a sua pior crise no ano passado, foi abandonada à sua própria sorte. A América Latina deixou de ser aquela prioridade anunciada por Bush no início de seu mandato.

"Dada a disparidade das forças entre as sociedades, reina o medo nas relações internacionais", diz Argemiro Procópio em seu livro "No Olho da Águia - Unilateralismo e Relações Internacionais", que acaba de ser lançado pela Editora Alfa-Omega. "Fundamentada na prevenção por meio do ataque, tal doutrina (doutrina Bush) é versão reformada da Doutrina da Contenção construída por Truman há aproximadamente meio século. A contenção de ontem contra a finada URSS rebrota viçosa no unilateralismo, talvez porque a vida do poder global dependa de prevenção contínua em escala mundial", escreve Procópio, professor do departamento de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB). Ele retrata fenômenos como os da segurança e do terrorismo e vale-se de teorias clássicas, como a de Thomas Hobbes, autor de Leviatã (1651), em que "escreve esperançosamente que a força do fraco, quando bem dosada, pode acabar com a tirania do mais forte. Isso, seja por trama, seja por alianças com outros igualmente em perigo ou ameaçado". Procópio vai além na obra de Hobbes, autor da frase - "o homem é lobo do homem".

Para ele, Hobbes não tem uma visão pessimista e perversa do homem, "como se do nascimento até a morte fôssemos egoístas e assassinos por natureza. Diz Hobbes que tanto fracos quanto fortes são perigosos, mas quando desgovernados. Daí sua ânsia de pôr a casa em ordem sem pelejas e sem sangue, invocando o pacto social. Pacto que seguramente periga a lei da selva das relações internacionais. Se aplicado algum dia colocará ponto final no ditado do homem lobo do homem pelo mundo afora".

Na visão esperançosa de Procópio, "no atual contexto mundial, com certeza não serão perpétuos os desmandos do unilateralismo, se a união fizer a força na periferia. Vislumbrando a proteção dos oprimidos em pleno raiar do século XXI, a idéia de Hobbes sobre o pacto dos mais fracos permite acreditar em brechas e margens de manobra para países periféricos. Se de fato a memória for sábia, há por que pressentir a possibilidade de consciência movendo a ação. Nem todos os espaços estão ainda fechados. Multiplicidade de atores públicos e privados leva a visões pluralistas, além mesmo da égide do estado de sociedade hobbesiano

 

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