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Serão as "guerras
preventivas" e as ações anti-terroristas legítimas? Elas são ou não sinais
de cobiça das riquezas alheias e de intervencionismo em busca de lucros,
disfarçados em uma suposta missão messiânica de "exterminação do mal" e de
garantia dos valores democráticos em todo o globo?
De forma alguma uma "guerra preventiva" pode ser considerada legítima.
Primeiramente devido à dificuldade em se definir o que seria uma guerra
preventiva (atacar para se defender de uma possível ameaça?) e por último na
delimitação de como seria essa guerra (quem são os inimigos, a ameaça é
real, quais são os alvos a ser destruídos, há um Estado responsável ou
apenas uma organização terrorista, o que se deve combater, entre outra
dúvidas). Logo, os objetivos de uma "guerra preventiva" podem estar além de
uma pregada missão messiânica de "exterminação do mal", escondendo naquela
meta o verdadeiro objetivo que é tomar conta de rentáveis fontes de lucro.
Mascarados os reais objetivos, entre eles tornar-se donos de rentáveis
reservas de petróleo, como no caso do Iraque, destaca-se para a opinião
pública um novo sentido para esse tipo de guerra: a (re)democratização do
mundo.
160 pp. - R$ 33,00
ISBN 85-295-0034-2
Cod. barras: 9 788529 500348
Quais são os maiores
paradoxos oriundos da globalização, da desordem internacional e da
arquitetura do convívio entre os Estados, sob a atuação marcante da
hegemonia norte-americana?
A sociedade internacional, em grande parte com limitado senso crítico,
acostumada a observar indiferentemente um poderio militar intervencionista
assumindo o papel de "polícia do mundo" e a submeter-se sem muitos
questionamentos ao poder econômico do dólar – "folha de papel universalmente
aceita, mas sem o lastro-ouro" –, absorve inerte as ideologias e a visão
monolítica de mundo proposta pela unilateralidade. Os motivos invocados pela
unilateralidade para justificar sua postura intervencionista são muitas
vezes deturpações da realidade. Invoca-se a democracia quando se tem clara a
discriminação de latinos e negros; declara-se defensor dos direitos humanos
quem aprisiona inimigos de guerra em bases onde o direito das gentes não
vigora; ignora as decisões de órgãos multilaterais como o Conselho de
Segurança e presta-se à ingerência um Estado que constantemente ressalta a
importância da cooperação. Por tais razões questiona-se a existência de
mecanismos que podem hoje realmente garantir a segurança internacional.
Existem mecanismos que podem hoje realmente garantir a
segurança internacional? A atual debilidade das Nações Unidas significa que
reina nas Relações Internacionais a lei do mais forte? Pode-se afirmar que,
da forma como se encontra hoje organizada, a sociedade internacional é
passível de comparação com o "estado de natureza" hobbesiano?
Infelizmente o mundo está ameaçado pela insegurança que se mostra mais voraz
e incisiva não apenas pelos destruidores atos terroristas isolados, mas
também pelo crescimento do unilateralismo. A não consulta ou o desrespeito
das opiniões multilaterais provoca um retorno ao estado de natureza evocado
por Hobbes, onde há a disputa constante do homem contra o próprio homem.
Assim, não existem mecanismos eficazes para se combater a insegurança
internacional. A inoperância da Organização das Nações Unidas comprova tal
fato. As decisões ou pelo menos opiniões dos diferentes países representados
no Conselho de Segurança não foram ouvidas pelos Estados Unidos, que, se
preocupam mais com a tentativa de possuir as reservas de petróleo do
Oriente. A unilateralidade nos mostra que o estado de natureza se faz
presente na sociedade internacional contemporânea.
Qual é a importância de um gigante como a China no
atual contexto internacional e qual sua relação com o poder unipolar?
Tendo sempre em vista que ali se encontra um quinto da população mundial,
busca-se no seio da sociedade chinesa se não respostas precisas, ao menos
visões diferentes dos problemas que envolvem o relacionamento internacional.
O modelo de desenvolvimento chinês transforma-se hoje em referência
internacional. Estima-se que, mantidos os níveis atuais de crescimento, em
vinte anos o PIB chinês será igual ao norte-americano. A justiça social
também é princípio caro aos chineses, que em seu país evitam as
desigualdades estruturais e investem muito em capital humano. Os chineses
estimam sobretudo a paz, e tem posição firme em relação à defesa da
soberania nacional. O respeito mútuo é condição indispensável para a
política externa chinesa, que preza muito por sua cultura própria e,
portanto, consegue evitar a invasão da indústria cultural norte-americana e
estabelecer uma política externa própria sem subalternidade. Mais
recentemente, pode-se observar que, embora de maneira discreta, a China se
coloca em posição oposta ao unilateralismo dos Estados Unidos da América.
São as recentes decisões de intervenção em países do
Oriente Médio com bombardeios norte-americanos "cruzadas" em busca da paz
mundial ou implementação da política do "olho por olho, dente por dente",
ainda com o ressentimento dos acontecimentos do 11 de setembro de 2001?
Hoje a luta contra o terrorismo é motivo invocado unilateralmente pelos
Estados Unidos da América para combater o dito fundamentalismo islâmico. As
recentes decisões de intervenção em países do Oriente Médio foram tomadas
sem o respaldo da opinião pública mundial, mesmo a mídia tendo sido
amplamente favorável à posição norte-americana ao exibir repetidamente as
cenas catastróficas do 11 de setembro, numa tentativa de fomentar a vingança
da sociedade internacional e transformar os bombardeios norte-americanos
sobre civis em "cruzadas" em busca da paz mundial. A política do "olho por
olho, dente por dente" faz que as bombas sobre casas e, por certos
"acidentes", hospitais no Afeganistão sejam a resposta certa para os aviões
que colidiram nas torres gêmeas e no Pentágono. Assim como para retirar o
ditador iraquiano do poder ignorou-se o direito à autodeterminação de um
país esmagando-o com tanques e bombas. E no cômputo final dos resultados a
vida perde seu valor, forjando-se até expressão infame como a do "fogo
amigo".
Estão os Estados Unidos da América combatendo o terror
com o terror? A intolerância, a debilidade do Direito Penal Internacional e
a fragilidade das políticas de segurança implementadas pela Nações Unidas
fazem com que o terrorismo e o crime organizado sejam problemas sem
perspectivas claras de solução?
Infelizmente Os Estados Unidos claramente usam o terror para combater o
terror quando poderiam fazê-lo de outras formas. As grandes redes de
financiamento do terrorismo passam por paraísos fiscais, redes bancárias com
pouca ou nenhuma regulamentação, onde grupos terroristas lavam dinheiro
muitas vezes proveniente do narcotráfico e colocam seus fundos. Todavia,
estabelecer uma grande rigidez no controle desses bancos não é objetivo dos
Estados Unidos da América, já que isso criaria restrições à consecução de
seus interesses financeiros. A ineficiência dos mecanismos de defesa da
segurança internacional realmente faz com que o terrorismo e o crime
organizado sejam problemas sem perspectivas claras de solução. E não são
somente os desmandos da unilateralidade que incentivam tais ações
criminosas. Existem ainda tipologias diversas do terror, utilizado como
instrumento de batalha em conflitos territoriais, étnicos ou religiosos em
todo o globo. São também conseqüências da globalização desigual as
intolerâncias e irracionalidades que levam a ações terroristas em várias
localidades diferentes do Oriente Médio, como a América Latina ou a Europa.
Qual é a análise da atual conjuntura internacional que
se pode tecer observando as relações internacionais contemporâneas de uma
perspectiva diferente da norte-americana? Como contextualizar nesta
conjuntura teorias de pensadores clássicos, como Aristóteles, passando por
Hobbes e Marx, até chegar a contemporâneos como Fukuyama e Huntington?
Quando se aprofunda na obra dos pensadores clássicos da sociologia, da
ciência política ou até da antropologia e da economia tem-se clara a visão
de que suas idéias não perdem força com o passar do tempo. Analisando estas
disciplinas fundamentais para uma análise consistente do campo de estudos
das relações internacionais, tem-se a clara percepção que vivemos de certa
forma a luta do homem contra o homem, como na visão de Hobbes; a luta de
classes, como previa Marx; somos colocados diante das desmedidas e
incomensuráveis faces dos caminhos do homem em sociedade, como analisava
Nietzsche; enfrentamos a luta constante por poder como pregava Maquiavel. A
imagem criada pelos norte-americanos de defensores da paz contra o
fundamentalismo islâmico leva a se pensar até em um choque de civilizações,
idéia defendida por contemporâneos como Huntington. O fato é que inúmeras
são as teorias aplicáveis em maior ou menor medida às temáticas notoriamente
presentes na agenda internacional. Ao buscar a universalidade da paz e da
justiça, é possível revelar os equívocos da monolítica interpretação da
fenomenologia internacional mostrando o colapso das teorias, já que as
noções clássicas de poder, conflito, segurança, sistema e cultura sofrem
revisão. Tudo isso pretende provocar, analisar consistências e
inconsistências de perigosa realidade: o unilateralismo das relações
internacionais.
Sobre o Autor
Argemiro Procópio nasceu em 1949 na cidade de Varginha, sul do Estado de
Minas Gerais. Dr. Phil., pela Universidade Livre de Berlim, por concurso
público, desde 1995, é Professor Titular do Departamento de Relações
Internacionais da Universidade de Brasília. Pós-graduado pelo Instituto de
Estudos dos Países em Desenvolvimento da Universidade Católica de Louvain,
Bélgica, licenciou-se em Ciências Sociais na Universidade Federal de Minas
Gerais. Em Belo Horizonte, trabalhou em O Diário. Como jornalista visitou o
Uruguai, Áustria, Chile, Argentina, Bolívia e Peru. Esteve na Antártida e no
Tibete. Detido pela ditadura militar, deixou o Brasil em 1972. Conheceu a
então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a Iugoslávia, a República
Popular da China e Cuba. Viajando pelas Filipinas, Bulgária, Polônia,
Turquia, Egito, Países Baixos, Suécia, Senegal e Togo, por meio da
convivência internacional, aprendeu a respeitar a mística da criação
diversificada. Ampliou sua visão de mundo, transformando as relações
internacionais mais que um objeto de análise, numa razão de vida.
Quarta capa
Fenômenos como os da segurança e do terrorismo retratam-se no conteúdo deste
livro, agregador de teorias clássicas, como o estado de natureza hobbesiano
no contemporâneo unilateralismo. A análise desvenda com pertinência a lógica
messiânica da guerra contra o “Eixo do Mal”.
Procedendo a uma anatomia das rupturas na distribuição do poder e das novas
incertezas no quadro da atual desordem mundial, mostra-se a orfandade da
razão e da justiça nas decisórias estruturas da mundialização, expostas às
vicissitudes do unilateralismo.
Nessa linha, explicam-se conceitualmente causas da vulnerabilidade
estrutural das bases em que se assentam a democracia, a inviolabilidade das
fronteiras, a não-ingerência em assuntos internos de outros países e a
soberania nacional. Sem perder as esperanças por uma ordem multipolar
descerrada para a hominização, para o revitalizar da Organização das Nações
Unidas e para a paz duradoura, substantivamente o desafio chinês e o
desequilíbrio do terror unem-se à presente interpretação
político-sociológica. Tudo isso faz desta reflexão particular exercício
teórico-analítico, pioneiro no Brasil, acerca dos embates do unilateralismo
nas relações internacionais.
Argemiro Procópio já publicou Amazônia – ecologia e degradação social também
pela Alfa-Omega, que espera mais uma vez contribuir para o debate em torno
de tema crucial para o entendimento da realidade contemporânea.
Tábua geral da matéria
Sobre o Autor.....IX
Introdução.....XI
I – A ordem internacional na unilateralidade.....13
A verdade vitimada.....13
Virtude da sindérese.....15
Ordem injusta.....16
Exercício de poder sem limites.....18
Neoguelfismo.....19
Causas dos paradoxos.....21
Conceito de sociedade mundial.....22
Significado do internacional.....23
Lebensraum no século XXI.....25
Dialética do relacionamento.....27
Antídoto contra a desordem.....28
Pacto social.....30
Gênese da globalização e processo de mudanças.....31
A construção interparadigmática.....36
Soberania e interesse nacional.....38
Os excluídos nas relações internacionais.....39
A virtude da temperança.....40
Glossolalia nas relações internacionais.....41
Incomensuráveis faces dos caminhos.....45
A arquitetura da paz.....46
Poder como meta.....47
Essência do convívio internacional.....50
A Babel do desentendimento.....52
II – A China e o poder unipolar.....55
Metáfora das cores.....55
Império do Centro.....58
Ontem civilizar, hoje democratizar.....60
Indústria cultural.....61
Alinhamento automático.....62
Manutenção das desigualdades.....63
Dualidade estrutural.....66
Consciência coletiva.....67
Camisa de força.....69
O modelo dissociativo como alternativa.....70
Ensinamento maoísta.....71
O não-alinhamento.....73
Ancestralidade das aspirações.....74
Os muitos ocidentes.....76
Cultura e economia.....78
Geometrias variadas.....80
Respeito à igualdade.....82
Segurança e direitos humanos.....84
Redistribuição da renda.....86
O processo produtivo.....87
Presença do Estado.....88
Atravessando o rio.....90
Reformas no campo.....91
Malefícios da isonomia.....93
Política externa.....95
Aproximação sino-americana.....98
Taipé como coringa.....99
Oposição à ordem bipolar.....102
Primavera de Pequim.....104
O exemplo de Hong Kong.....105
Tibete: a sacra aliança do incenso com a espada.....106
Dividir para imperar.....107
Incompatibilidades.....108
Prolegômenos das alianças.....110
A geopolítica britânica no Tibete.....111
Lamas contra ocidentais.....114
Privilégios seculares.....115
Chegada da reforma agrária.....117
O processo irreversível.....120
Símbolos essenciais.....122
O capitalismo e o esvaziamento dos templos.....123
Tradições religiosas e o "Tibet chic".....124
Pacto do incenso com a espada.....126
III –Unilateralismo, desequilíbrio do terror e segurança coletiva.....129
Recessão democrática.....129
Rota dos desencontros.....130
"In God we Trust / Gott mit uns".....131
Redes do terror: de Dachau a Guantánamo.....133
Interpretações subjetivas.....135
Novos ódios.....137
Luta de classes, não de civilizações.....138
Metamorfoses das ambições.....140
Tempos de intolerâncias e irracionalidades.....141
Tipologias do terror.....142
Caixa de Pandora.....145
Conclusão.....151
Referências bibliográficas.....153
Abreviaturas.....159
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Abreviaturas
Alca – Área de Livre Comércio das Américas
AP – Associated Press
Banestado – Banco do Estado do Paraná
Bird – Banco Internacional paara Reconstrução e Desenvolvimento
CIA – Central Intelligence Agency
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
Comecon – Conselho para Assistência Econômica Mútua
Embraer – Empresa Brasileira de Aeronáutica
ETA – Pátria Basca e Liberdade
EUA – Estados Unidos da América
Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
IRA – Exército Republicano Irlandês
Mersocul – Mercado Comum do Sul
MRE – Ministério das Relações Exteriores
Ocde – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
OEA – Organização dos Estados Americanos
OMC – Organização Mundial do Comércio
OMS – Organização Mundial da Saúde
ONGs – Organizações Não-Governamentais
ONU – Organização das Nações Unidas
Otan – Organização do Tratado do Atlântico Norte
PIB – Produto Interno Bruto
Pnud – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
RPC – República Popular da China
UPI – United Press International
URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Repercussão na Imprensa
Maria Helena Tachinardi - Editora de Assuntos Internacionais do Jornal
Gazeta Mercantil,
11 de setembro de 2003.
Unilateralismo e idéias de Hobbes
10 de Setembro de 2003 - Nesta quinta-feira, o segundo aniversário dos
atentados terroristas de 11 de setembro coloca para o mundo a necessidade de
uma reflexão sobre os problemas decorrentes do unilateralismo. Na seqüência
dos ataques perpetrados por Osama bin Laden, líder da Al-Qaeda, contra as
torres gêmeas, em Nova York, e o Pentágono, o mundo empenhou sua
solidariedade aos norte-americanos e esperava-se que a estratégia dos EUA de
combate ao terrorismo tivesse uma coordenação multilateral.
Não só isso não ocorreu, como o presidente George W. Bush construiu uma
doutrina que exacerbou o unilateralismo. A doutrina do ataque preventivo
contra inimigos potenciais, como forma de governança global, teve na invasão
do Iraque o início de uma jornada contra o "eixo do mal" (onde se incluem
Irã, Síria, Cuba e Coréia do Norte). Confiando que a operação iraquiana não
fosse se complicar ou que não surgissem no mundo tantos Bin Laden, Bush
planejava hostilidades em série àqueles países, desprezando totalmente a
Organização das Nações Unidas (ONU) ou o pilar da multipolaridade.
Hoje, a Coréia do Norte e o Irã são pressionados por Bush a abandonarem suas
pretensões nucleares, mas com tantos problemas no Iraque e com a
popularidade em queda, o presidente norte-americano se sente compelido a
controlar o caos iraquiano, apelando, agora, à ONU e à comunidade
internacional, que não apoiaram a guerra.
Os planos de Bush não estão dando certo. A desordem impera no Iraque.
Continuam a morrer soldados norte-americanos e britânicos em solo iraquiano,
onde fica mais fácil para Bin Laden e seus grupos aliados humilharem os EUA
do que no seu próprio território, como em setembro de 2001. Após a queda de
Saddam Hussein, houve atentados em Riad (Arábia Saudita), Tchetchênia,
Paquistão, Marrocos, Indonésia e no próprio Iraque (contra a embaixada da
Jordânia e a sede da ONU, onde morreu o diplomata brasileiro Sérgio Vieira
de Mello).
Mais recentemente, a cidade de Najaf, sagrada para os xiitas no Iraque, foi
atingida. Bush prometeu democratizar o Iraque e torná-lo modelo para outros
países do Oriente Médio, um sonho distante, assim como parece distante
também a implementação do plano de paz que os EUA propuseram para Israel e
os palestinos.
O unilateralismo norte-americano prejudicou as relações com a Europa e com
os latino-americanos. Ao se oporem à guerra contra o Iraque, o México e o
Chile, sócios comerciais de Washington, tiveram agendas bilaterais
prejudicadas. A Argentina, que enfrentou a sua pior crise no ano passado,
foi abandonada à sua própria sorte. A América Latina deixou de ser aquela
prioridade anunciada por Bush no início de seu mandato.
"Dada a disparidade das forças entre as sociedades, reina o medo nas
relações internacionais", diz Argemiro Procópio em seu livro "No Olho da
Águia - Unilateralismo e Relações Internacionais", que acaba de ser lançado
pela Editora Alfa-Omega. "Fundamentada na prevenção por meio do ataque, tal
doutrina (doutrina Bush) é versão reformada da Doutrina da Contenção
construída por Truman há aproximadamente meio século. A contenção de ontem
contra a finada URSS rebrota viçosa no unilateralismo, talvez porque a vida
do poder global dependa de prevenção contínua em escala mundial", escreve
Procópio, professor do departamento de relações internacionais da
Universidade de Brasília (UnB). Ele retrata fenômenos como os da segurança e
do terrorismo e vale-se de teorias clássicas, como a de Thomas Hobbes, autor
de Leviatã (1651), em que "escreve esperançosamente que a força do fraco,
quando bem dosada, pode acabar com a tirania do mais forte. Isso, seja por
trama, seja por alianças com outros igualmente em perigo ou ameaçado".
Procópio vai além na obra de Hobbes, autor da frase - "o homem é lobo do
homem".
Para ele, Hobbes não tem uma visão pessimista e perversa do homem, "como se
do nascimento até a morte fôssemos egoístas e assassinos por natureza. Diz
Hobbes que tanto fracos quanto fortes são perigosos, mas quando
desgovernados. Daí sua ânsia de pôr a casa em ordem sem pelejas e sem
sangue, invocando o pacto social. Pacto que seguramente periga a lei da
selva das relações internacionais. Se aplicado algum dia colocará ponto
final no ditado do homem lobo do homem pelo mundo afora".
Na visão esperançosa de Procópio, "no atual contexto mundial, com certeza
não serão perpétuos os desmandos do unilateralismo, se a união fizer a força
na periferia. Vislumbrando a proteção dos oprimidos em pleno raiar do século
XXI, a idéia de Hobbes sobre o pacto dos mais fracos permite acreditar em
brechas e margens de manobra para países periféricos. Se de fato a memória
for sábia, há por que pressentir a possibilidade de consciência movendo a
ação. Nem todos os espaços estão ainda fechados. Multiplicidade de atores
públicos e privados leva a visões pluralistas, além mesmo da égide do estado
de sociedade hobbesiano
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