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Prefácio
por Mino Carta
Uma escritora que me marcou muito nestes últimos anos, Hannah Arendt,
deixou várias páginas apinhadas de sabedoria sobre a verdade factual.
Cujo contrário é a mentira, tanto quanto o contrário é o erro e o
contrário da verdade filosófica é a ilusão. Através de Hannah Arendt,
cristalizei a minha crença na irremediável subjetividade do jornalismo,
como expressão individual de homens que optaram por essa forma de
atuação política às vezes sem dar-se conta da essência política da
profissão e da vocação política que todo jornalista de verdade deve ter.
Da mesma maneira, fortaleci a minha crença na objetividade dos fatos em
si, cujo destino é inescapável: se registrados, eles passam a compor um
bem inestimável, a memória do mundo; quando omitidos, porém, nada poderá
fazê-los voltar à lembrança dos homens, pois sobre eles o esquecimento
se fechará como o mar sobre um barco soçobrado.
A edição de EX, que agora volta sob forma de livro, um relato forte e
profundo dos fatos que conduziram e se seguiram à morte do jornalista
Vlado Herzog nas dependências do DOI-CODI de São Paulo, é uma
contribuição para a memória do nosso tempo. Trata-se, a meu ver,do
melhor trabalho jornalístico de 1975 e ainda, muito mais, isto é, um dos
trabalhos mais dignos da história do jornalismo brasileiro. Tomem como
quiserem a edição de EX, desde o menos importante, quero dizer, desde os
seus aspectos formais, desde a técnica que foi usada para reconstituir o
enredo dessa história fatal, até seu conteúdo, até a idéia honesta e
límpida que palpita dentro do texto, a concepção justa de profissionais
conscientes do seu papel. E concluam: eis ai um exemplo impecável de
como tem de atuar profissionais de imprensa formados na certeza de que "não
há esperança de sobrevivência humana sem homens dispostos a dizer o que
acontece".
E o que está entre aspas também é de Hannah Arendt - ah, esta velha
Hannah, ela hoje é para mim uma mistura de tia com sibila...
Pois vejam a força da reportagem de EX. Vou contar, como diz o sambista.
Dia 25 de outubro passado, o Hamilton de Almeida Filho, o Haf que eu
conheci pouco mais que menino e já galopando pelas redações nos
primeiros anos da década de 60, surgiu na minha frente e disse:
"Sabe de uma coisa? Vamos reeditar a edição do EX sobre a morte do Vlado
e a gente gostaria que você escrevesse a apresentação". Ele não disse "prefácio",
que é uma palavra muito imponente, e eu respondi: "Tudo bem".
Não via o Haf há algum tempo, mas quando a gente se encontra não é de se
entregar a grandes expansões. Nem sempre concordamos, nesses últimos
dezesseis anos, em relação a isto ou aquilo, mas um conhece muito bem o
outro e no fundo, é como se sempre estivéssemos próximos. Assim eu disse
"tudo bem" secamente, mas por dentro fiquei contente com a tarefa que
ele acabava de me entregar.
Depois, verifiquei que as minhas razões de satisfação eram ainda maiores.
Digo, umas tantas horas depois, enquanto tentava pegar no sono. Havia
qualquer coisa agitando as minhas florestas interiores, e não sabia o
que era. Acendi a luz e comecei a reler a reportagem do EX sobre a morte
do Vlado, um fato de dois anos antes, exatamente dois anos. E, de
improviso, pensei: o Vlado tem que estar na próxima capa do "Isto É".
Planejávamos uma capa sobre os parlamentares brasileiros, a maioria
deles mais entretidos, num momento histórico crucial, com a sua própria
vidinha do que com os grandes problemas da nação. (Tanto egoísmo seria
culpa deles, neste país onde o poder sempre cuidou de cortar pela raiz
quaisquer idéias que carregassem um vago potencial mobilizador?). Mas o
projeto não me deixava satisfeito. E, de estalo, lembrando a conversa
com o Haf e relendo EX percebi que havia coisas mais importantes a serem
ditas.
Tínhamos de dizer que a morte de Vlado não acontecera em vão. Isto não é
retórica, tanto quanto não é consolo para quem o amou. Bem acima,
contudo, do nosso cotidiano, a morte de Vlado Herzog já é história. Ela
é um divisor de águas. Se hoje, nos bastidores do poder, nos corredores
do Palácio do Planalto, nos túneis do tempo de Brasília, ouvimosfalar em
extinção do AI-5 e em fim do arbítrio - expressões inimagináveis há dois
anos - isto também se deve à morte de Vlado. Foi a partir daquele
momento que o governo começou a retomar o controle da situação, que
ameaçava escapar-lhe das mãos, se já não lhe escapara. Foi também a
partir daí que muitos venceram o seu próprio medo, ou a sua própria
apatia, e experimentaram finalmente a necessidade de participar, de
interferir, de protestar - ou seja, de dizer, para si mesmos em primeiro
lugar, que estavam vivos.
Hoje o poder, antes contido entre governo e sistema, reúne-se nas mãos
do general Geisel, talvez o presidente mais poderoso de toda a nossa
história republicana. O que aclara o cenário e define as perspectivas:
se a abertura que a sociedade civil reclama é efetivamente desejada por
Geisel, ele tem meios para realizá-la, ninguém hoje pode duvidar disso.
A memória daquele outubro em que Vlado morreu, preservada por EX, teve
esse mérito, para bem da minha alma: fez-me sentir o passado para melhor
enxergar o presente. Como valeu para mim, vale para todos.
Outubro, 1977.
A sangue-quente
por Myton Severiano da Silva
No dia em que o jornalista Vladimir Herzog morreu o medo quase entrou em
pânico, e a maioria de nós conheceu, fosse por alguns daqueles momentos,
o limite entre poder continuar se comportando como seres humanos ou como
galináceos. Um moço procurou o encarregado de assinaturas do Ex-, altas
horas da noite e pediu que sua "ficha de assinante" fosse cancelada, se
possível rasgada e incinerada. Um anunciante mandou suspender o anúncio
de roupa jovem, alegando ameaças telefônicas "contra todos nós". Um
senhor enviou documento (registrado em cartório!), anulando o pedido de
assinatura do Ex- que a filha estudante fizera dias antes.
O jornal vinha sendo dirigido, fazia cinco meses, por Hamilton Almeida
Filho. Conheci-o no começo de 1964, recém-chegado do Jornal do Brasil
para a sucursal paulista de O Cruzeiro. Vinha precedido por um halo de
diz-que-diz: já era comentário, entre os jornalistas de São Paulo, que
no Rio de Janeiro crescia "um talento precoce", um repórter de política
de 16 anos de idade...
Nascido a 20 de janeiro de 1946 em Taubaté (SP) mas registrado e educado
no Rio, primeiro na Zona Norte, depois no Catete, às portas do palácio
presidencial da velha capital da República, Hamilton saiu direto do
ginásio para a redação de A Noite.
Começava aos 15 uma carreira que, dezessete anos depois, viria lhe valer
este juízo de Samuel Wainer: "Um dos mais brilhantes representantes da
nova geração jornalística do pais". Repórter, redator e editor em muitas
das publicações que marcaram a renovação da imprensa brasileira -. o
próprio Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Última Hora, Veja, Bondinho
e, finalmente, Ex-, cuja direção assumiu em julho de 1975 (Ex-12).
O Ex-16 (novembro) estava pronto para ser impresso, quando a tragédia
tocou o telefone. "Já soube do Vlado? Pois é, infelizmente ele morreu."
Um transe.
"Nós não
sabíamos de nada. E agora?"
Nos dez dias seguintes, a redação do Ex- transformou-se numa central de
informações, e Hamilton, no chefe de uma super-reportagem: em campo, os
vinte editores efetivos do Ex- (inclusive ele próprio), e mais uma
dezena de repórteres dos demais jornais paulistas - alguns convidados,
outros se colocando espontaneamente à disposição. Nas ruas, no velório,
no sindicato, no IML, no enterro, na missa, na cúria, nas redações, na
casa do Vlado - a morte estava ao do nosso lado.
"Das tripas coração." Numa. noite chuvosa de a domingo, 2 de novembro,
dia de Finados de 1975, seis mãos começaram a redigir o texto deste
livro, a sangue-quente. Revezando-se na máquina, os três editores
principais - Hamilton Almeida Filho, Narciso Kalil e eu - tecemos a
história colhida em depoimentos, notas oficiais, observações pessoais,
frases soltas, documentos, editoriais, laudos e notícias de jornais e
revistas. Cerca de setenta laudas em quarenta horas de vigília. Não fazê-lo
era como que fazer alguma coisa não-humana.
Tábua da matéria
Prefácio
A
sangue-quente
A morte de
Vlado
Carta a um ex-jornal
Nota dos redatores
Dedicatória
A Clarice, André e Ivo, em memória do marido, pai e companheiro de
traballho, Vladimir Herzog.
A Dom Paulo
Evaristo Arns, o cardeal Arns.
Pedidos
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